DESEJO SECRETO
Sabrina ... a cegonha chegou! n48
Copyright: Ann Charlton
Ttulo original: "Baby Down Under"
Publicado originalmente em 1999
Digitalizao/ Reviso: m_nolasco73

 


Contra capa: Sexy, desejvel... e pai?
Riley Templeton era um famoso advogado de Queensland com reputao de ser severo e de ter uma fraqueza por loiras bonitas e curvilneas.
Alexandra Page no era nem loira nem curvilnea. E nada de interessante acontecia em sua vida. Ento ela encontrou um bebe na sua porta, com um bilhete que a levou at Riley Templeton.
Riley negou ser o pai. Mas brincar de famlia feliz acabou fazendo aflorar o que ele tinha de melhor. Estava comeando a suspeitar que talvez as loiras no fossem necessariamente mais divertidas que os bebs!



CAPTULO I

O limpador do pra-brisa movia-se apressado, de um lado para o outro, permitindo a Alexandra ver apenas uma srie de cenas rpidas atravs da chuva forte. Um guarda-chuva amarelo, saltitante. As feies plidas de uma mulher. A caixa de correio em frente  casa. Um pacote colocado nos degraus de entrada. Talvez fosse a encomenda de livros que esperava havia trs semanas. No seria a primeira vez que o leiloeiro fazia a entrega em sua casa, ao invs de na loja.
O ar estava impregnado de eletricidade, com cheiro de grama molhada, de eucalipto e dos bodes de Sam. Contornou a casa com a van e viu que o pacote era muito irregular para ser de livros. Suspirou. Talvez fosse outra das brincadeiras sem graa de Sam. Seu vizinho tinha idade suficiente para fazer coisas criativas, mas insistia em se comportar como um colegial.
Estacionou na parte de trs da casa e correu at a porta, com a chave na mo e uma sacola de plstico cobrindo a cabea na v tentativa de manter os cabelos secos. Impossvel, teria de subir at o banheiro para sec-los. Eram as correntes de umidade subtropical que causavam todo aquele dilvio. E em Brisbane, no ms de janeiro, elas apareciam quase todos os dias.
Depois de tomar uma ducha morna, Alexandra penteou os cabelos com uma escova de dentes grossos para evitar que ficassem muito crespos e vestiu um agasalho esportivo confortvel. S ento desceu para olhar o pacote. Era mais uma trouxa, na verdade, amarrada com um pano. Olhou na direo das ameixeiras plantadas ao longo da cerca.
- Sam? Aparea e desative esta armadilha que voc montou aqui. Voc vai ficar encharcado escondendo-se a para me ver abri-la - gritou.
Nenhuma resposta.
Acendeu a luz da varanda e colocou as mos em concha na frente da boca para se fazer ouvir atravs da chuva:
- Est me ouvindo, Sam? Se isso for mais uma de suas brincadeiras...
A trouxa mexeu-se. Alexandra deu um pulo para trs, e quase derrubou um vaso de plantas.
- Est vivo! - exclamou, assustada. - Saaam! - gritou ainda mais alto. - Se isto for um cesto cheio de sapos, eu juro que...
A trouxa gemeu. Alexandra sentiu calafrios. O gemido se transformou em um chorinho. Ajoelhou-se, e com cuidado, levantou a toalha que cobria o cesto. Viu um pezinho e estremeceu.
- Oh, meu Deus - disse, olhando para o rostinho rosado. - Um beb! Tirou-o do cesto e pegou-o no colo, apoiando-o no ombro. Os cachinhos da criana roaram em seu pescoo. - Sssssh, sssh, quietinho - murmurou, ninando o pequeno. Ele se acalmou.
- Voc me chamou? - Era a voz de Sam, vinda da sombra das ameixeiras. Sua lanterna desenhava arabescos luminosos por entre a chuva, e ela conseguiu vislumbrar o vizinho pulando a cerca.
- J estava na hora - disse ele, aproximando-se da casa. - Aposto que se convenceu de que a diferena de idade entre ns no significa nada e percebeu que uma mulher com seu gosto refinado e seu bom senso merece um homem como eu.
Sam tinha setenta e cinco anos. Subiu a escada com seu andar balanceado de vaqueiro e quando viu o que ela carregava espantou-se:
- Um beb!
- Estava aqui, em minha porta. Pensei que fosse um pacote de livros.
- Continuo achando que se parece com um beb  disse ele, rindo e se aproximando para ver melhor a criana.
- Mas de onde ser que ele veio, Sam?
- De onde os bebs geralmente vm -respondeu ele, secamente. - E no foi a cegonha que o entregou em sua porta.
Alexandra olhou para a rua, aflita, procurando por algum, mas s havia o vaivm de pedestres apressados com seus guarda-chuvas molhados. Um guarda-chuva amarelo moveu-se rapidamente e desapareceu por entre as rvores.
"O guarda-chuva amarelo! A mulher plida!".
Colocou o beb nos braos de Sam e correu atrs daquele vulto, em pnico. Como a mulher se atrevera a deixar um beb em sua porta? Os ps, descalos, doam quando ela pisava nas folhas e pedregulhos que a chuva trouxera, e no conseguiu correr mais. Tambm no conseguia enxergar bem com os culos ensopados como estavam. Uns poucos carros e um nibus ainda passaram pela rua, mas j no havia mais sinal da pessoa com um guarda-chuva amarelo. Decidiu voltar para casa.
Sam devolveu-lhe o beb, que chorava com estardalhao.
- Acho que est na hora de trocar a fralda dele - disse.
- No seria bom chamarmos a polcia?
- Eles no trocam fraldas - provocou. - Acho que o beb est com fome. Ponha um pouco de leite para esquentar enquanto vou procurar alguma mamadeira nas coisas de minhas crianas.
- Ele est se referindo aos bodes - Alexandra comunicou ao beb, enquanto o carregava na cesta para dentro da cozinha. - Sam cria bodes. E por isso que h este cheiro esquisito no ar.
O beb gritou mais alto.
- Est bem, est bem, ns vamos esterilizar a mamadeira antes de d-Ia a voc.
Alexandra entrou na sala, olhando em volta para escolher um local seguro onde acomodar o beb. Resolveu deix-lo no cho, dentro do cesto em que viera.
- O que vou fazer com voc? - perguntou, mostrando-lhe o chocalho que fora colocado junto dele. O beb brincou um pouco com ele, e Alexandra aproveitou aquele momento de calma para enxugar as lentes dos culos, secar-se com uma toalha e colocar as meias antes de calar os chinelos. Pegou a agenda de telefones e procurou o nmero da polcia.
- Gostaria de registrar o abandono de uma... - disse, quando a ligao foi atendida. -No, espere no  isso... - Olhou para o beb. "Abandono" era uma palavra que poderia causar traumas ao pequeno. - Gostaria de registrar a perda de uma criana - reconsiderou. - Ou melhor, dos pais de uma criana...
O beb parecia to frgil e indefeso deitadinho ali em seu bero, que Alexandra no conseguiu continuar. Desligou o telefone antes de terminar a frase e foi at ele. Ajoelhou-se e abriu um dos pacotes de fraldas descartveis que havia sido colocado na trouxa. Um aroma delicado saiu de dentro dele. Foi ento que viu o bilhete.

"Querida sra. Page,
a senhora salvou aquelas outras crianas, por favor, agora me ajude.
Seu corao disparou. No queria continuara leitura para no ter de se envolver. Mas, dessa vez, ela no era uma passante annima, ela, Alexandra Page, estava sendo requisitada diretamente.

"Estou desesperada e fora de mim.. Por favor, no deixe que a polcia ou o juizado de menores sejam comunicados. Cuide de meu beb at que eu volte, dentro de poucos..."

A mensagem finalizava ali, de repente, em um borro. Poucos o qu? Dias, meses? Olhou de novo para o bilhete. "Estou desesperada e fora de mim". Alexandra remexeu, aflita, nos panos da trouxa. Outro fragmento de papel caiu deles. ...encontre-o no Blue Parrot. Ele ..." Mais um pedacinho, e uma linha: "...o nome dele  Riley."
Era s. Alexandra juntou os pedaos e viu que faltava uma parte da folha onde fora escrito o bilhete, na forma de um tringulo.
- Riley - murmurou. No era ento a nica pessoa mencionada no bilhete. Absurdo ou no, sentiu-se um pouco mais aliviada. Parecia que sua responsabilidade diminura. Havia mais algum para dividi-la com ela.
Procurou nas coisas do beb, mas no encontrou o pedao que faltava do bilhete. Segurando a criana, olhou at dentro da fralda dela, mas no encontrou nada.
Trocou a fralda. Quando estava terminando de vestir o calozinho na criana, ou.viu os passos de Saro, entrando. Trazia vrias mamadeiras, ainda em suas embalagens originais.
-  uma menina! - anunciou Alexandra.
- Xi, que pena! Eu trouxe charutos - riu ele e ajoelhou-se ao lado dela, assobiando. - Chamou a polcia?
Alexandra se sentiu culpada.
- Farei isso assim que der um pouco de leite a ela.
Chamar a polcia era a coisa mais sensata a fazer naquele momento. As autoridades eram as pessoas indicadas para tomar conta de uma criana abandonada. Poderiam localizar o pai ou a me.
- Na cozinha, Sam enchia uma mamadeira com leite.
- "Querida senhora Page, a senhora salvou aquelas outras crianas...". Ela deve ter lido nos jornais de ontem sobre voc e a medalha, ou visto a notcia no telejornal.
Alexandra dirigiu um olhar recriminador para Sam, como para impedi-lo de tocar naquele assunto. Ele achava que era a modstia que a fazia ser to reticente.
- Por que isso teve de acontecer comigo? - resmungou.
- Pelo menos ela escolheu deixar  criana com uma pessoa sria. Isso  bom para voc - disse Sam. - A brava livreira, a intrpida Alexandra Page agraciada com a medalha de bravura por sua conduta... Ela deve ter procurado seu endereo na lista telefnica e ficado  espreita at ter certeza de que voc pegaria o beb antes que os cachorros o descobrissem. Certamente ficou por perto at v-Ia chegar e s partiu depois de ter lido o nome da livraria na van.
Alexandra deu uma risada nervosa ao pensar na idia de estar sendo encarada como um modelo de virtude, o tipo de mulher que nunca deixaria de assumir uma responsabilidade ou dever.
- Ningum, em s conscincia, esperaria que um estranho assumisse uma responsabilidade como essa - disse, olhando para o rostinho do beb. Seus cabelinhos escuros estavam espetados, como se houvesse tomado um choque, e Alexandra se sentiu invadida por uma onda de ternura.
- Tola - disse para si mesma.
Sam veio com o leite. Jogou umas gotas nas costas da mo para ver se no estava muito quente e entregou a mamadeira para Alexandra.
- Avisar as autoridades  o melhor que posso fazer por ela - disse Alexandra. - Pela me, quero dizer. Quanto mais cedo for encontrada, melhor. Deve estar precisando de ajuda.
Ao ver a mamadeira o beb parou de resmungar e virou-se para ela. A sala ficou em silncio enquanto ele mamava, animado, os olhos azuis, solenes, fixos em Alexandra. Curiosos, confiantes.
"Querida senhora Page. Estou desesperada e fora de mim".
Estava claro que era do interesse de todos os envolvidos que a criana fosse entregue rapidamente  polcia. O beb continuava a inspecionar Alexandra com o olhar at que os cantos de sua boca se alargaram, como a indicar que estava satisfeito. Enquanto a criana se aconchegava a ela, Alexandra tentou se convencer de que no era exatamente um sorriso, e sim uma resposta automtica do sistema nervoso ainda imaturo.
- Sam...
- Diga.
- O que voc acha que  o Blue Parrot?
O Blue Parrot parecia um set de cinema reproduzindo um daqueles pores de New Orleans onde se toca jazz. Paredes nuas de ladrilhos, mesas minsculas, clientes sentados lado a lado no balco do bar, tudo envolto em muita fumaa e  meia-luz. Alexandra sentiu imediatamente a reao alrgica na garganta. O nariz comeou a escorrer. Era s o que faltava!
- Por favor - disse, dirigindo-se a um dos barman. - Eu liguei h pouco, perguntando por algum chamado Riley.
- Ele est tocando, l no fundo -respondeu o rapaz, apontando para um canto onde havia um grupo de jazz, com trs homens. - Riley  o do piano - explicou o barman. A platia que se aglomerava em volta do conjunto aplaudiu entusiasmada quando o saxofonista finalizou seu solo. Alexandra ouviu o pianista antes de v-lo. Era uma sombra escura, debruada sobre o teclado, com um cigarro no canto de sua boca. Que timo! Procurou por um leno de papel na bolsa e levantou os culos para enxugar os olhos lacrimejantes.
"Senhor Riley, preciso falar com o senhor sobre um beb" pensou em dizer, de um s flego, assim que abrisse caminho por entre a platia para se aproximar o mais possvel do piano. No! Era direto demais. Riley seria o qu? O pai? Mas e se a me abandonara o filho porque ele no quisera assumir a paternidade? Melhor seria dizer que queria falar com ele sobre "um assunto delicado".
Curvou-se at o pianista e elevou a voz:
- Sr. Riley...
- Sssh os fs protestaram, chocados, pelo fato de algum estar interrompendo um msico em meio a sua apresentao. Alexandra corou e no desistiu. A alergia estava piorando, os olhos ardiam muito. Tudo o que ela queria era sair dali o mais rpido possvel, antes que comeasse a espirrar e tossir.
- Sr. Riley! - repetiu, mais alto, e de novo foi repreendida pela platia. Riley parecia no ouvir mais nada a no ser a prpria msica. Curvou-se ainda mais por sobre o teclado. De onde Alexandra estava no via nada alm de seus ombros, o alto da cabea e as mos movendo-se rapidamente pelas teclas como se acariciasse cada uma delas. Notou que ele tinha mais cabelos do que seus companheiros. Eram escuros, castanhos, grossos, ondulados e compridos na nuca.
O solo terminou, os outros instrumentos sobrepuseram-se ao som do piano, mas Riley permaneceu em seu transe, como se no percebesse os aplausos. As cinzas caam do cigarro quando ele tocou a ltima parte da msica. No meio do improviso, Alexandra ainda reconheceu as notas da melodia principal. Qual era mesmo o nome da msica? Sua impacincia cresceu. Finalmente a msica parou. A banda tinha um intervalo. Os aplausos cessaram.
- Sr. Riley - insistiu Alexandra, quando ele fez meno de fechar o piano e virar o corpo em direo a ela. A camisa branca parecia prestes a rasgar com a movimentao dos ombros. Ele levantou os braos, passou as mos por entre os cabelos, e ela pde vislumbrar ento um pedao da pele morena de seu rosto.
-  voc quem est fazendo esse barulho todo? - perguntou ele, ameaador, o cigarro pendurado no canto da boca. Sua testa tinha duas rugas profundas, sinal de que franzia as sobrancelhas habitualmente, como naquele momento. Os olhos estavam encobertos pela fumaa: O nariz era proeminente e o queixo, quadrado. O lbio superior era ligeiramente mais cheio do que o inferior. Alexandra o fitava demoradamente, pensando em como deveria comear aquela conversa.
- Voc tem idade para entrar aqui? - perguntou ele, sem muito interesse. - Vai ter de mostrar seus documentos se quiser pedir um drinque.
- No quero bebida alguma. Quero falar com voc.
- Sobre o qu?
- Bem, ... Podemos conversar em particular? - ela estava irritada, por causa do desconforto da rinite.
Ele a olhou interrogativamente, como se Alexandra o tivesse convidado para ir a seu apartamento.
- D-me uma pista, meu bem - disse ele, apoiando inadvertidamente a mo no teclado, que produziu variados sons. Era uma mo grande, poderosa, sem os vestgios de nicotina comum nos fumantes. Olhava fixamente para ela, no por algum interesse especial, mas como para avaliar o impacto que sua presena causava nela. Agia como um daqueles mgicos que manipulam a platia e ficam depois  espera de aplauso. Estava acostumado a ser admirado, a ser elogiado por seu desempenho, raciocinou Alexandra.
No ficara impressionada porque tinha convivido com gente brilhante e talentosa sua vida toda, e aquela encenao dele no significava absolutamente nada para ela. O olhar que Alexandra lanou de volta revelou sua indiferena e essa atitude aguou a curiosidade dele.
-  sobre um beb - ela disse de chofre, surpreendendo-o.
Ele ergueu a cabea, surpreso. Tirou o cigarro da boca e lanou um longo olhar para ela, notando pela primeira vez os culos, os cabelos presos em um coque no alto da cabea, a camisa branca larga que vestira por cima do agasalho. No se preocupara em se arrumar e sabia que seu nariz e seus olhos deviam estar, quela altura, mais vermelhos do que a boca. 
- Um beb... - repetiu ele, levantando as sobrancelhas. - Voc tem um ou quer um?
- O qu? - Ela piscou.
- No, no precisa responder, eu j entendi. Voc quer que seu filho seja msico e agora que me viu tocar... - Fez uma pausa e dedilhou distraidamente o piano. - Voc acha que meus genes, junto com os seus, podem produzir uma criana prodgio.
O baixista lanou um olhar divertido para os dois.
- Sinto lhe dizer que no ms passado recebi a mesma proposta de outra moa e me recusei a ajud-la nessa empreitada.
Outra moa? O que ele era, afinal? Um especialista em atender mulheres que queriam engravidar?
- J tenho um beb - respondeu Alexandra, sem preocupao alguma de parecer delicada. - E pode ser seu, sr. Riley.
O baixista afastou-se de fininho quando ouviu a frase. Nada como o assunto da paternidade para estragar uma rodinha masculina!
Riley levantou-se aos poucos, esticando-se.
- Muito bem, voc tem toda minha ateno - disse. - Sei que no sou o pai do seu beb, ento qual  a histria?
Ele parecia ter quase dois metros, e ela assustou-se com o tamanho dele. Alexandra abriu a bolsa para procurar mais alguns lenos de papel, os culos estavam embaados por causa da transpirao, e o suor comeava a escorrer pela sua testa. Estava muito abafado ali. Que raiva!
- Vai chorar justo agora? - comentou Riley, irnico. - Vamos, mocinha - continuou ele, colocando o brao sobre seus ombros, conduzindo-a at um pequeno escritrio, nos fundos do bar. - Poupe-me da choradeira - disse ele, quando entraram.
- No estou chorando - defendeu-se Alexandra. - Mas tinha todo o direito de faz-lo. Quando cheguei a minha casa, hoje  noite, encontrei um beb em minha porta.
Ele armou um sorrisinho irnico. Alexandra enfureceu-se. -  sim, hilrio, no  mesmo? Um clich. Mas aconteceu. Havia um bilhete junto com a criana - prosseguiu ela, estendendo os fragmentos de papel para ele. - Vai fumar aqui tambm?
Ele ignorou a pergunta, tirou o cigarro que pusera na boca e sentou-se na beira da mesa, com os papis na direo da luz. Alexandra estudou-o enquanto ele examinava o papel. Tinha olheiras e precisava fazer a barba. Usava uma camisa branca aberta no peito, as mangas enroladas na altura dos cotovelos. Por cima, um colete que combinava com a cala. As roupas pareciam caras, como tambm o relgio de ouro com a pulseira de couro.
Ele levantou os olhos do bilhete.
- Voc  a sra. Page, presumo... 
- Isso mesmo.
- Se a autora do bilhete sabe quem  a senhora, ento certamente a senhora tambm sabe quem  ela.
Alexandra balanou a cabea, negativamente.
- O que quer dizer "salvou as outras crianas?"
- No ligue para isso. O importante  que seu nome e este lugar foram mencionados no bilhete.
- Ora, vamos, sra. Page - ironizou ele. - Um beb na porta de casa, um bilhete dramtico rasgado em dois, com um pedao faltando. "Estou desesperada e fora de mim". Isso parece coisa de novela -disse ele, estreitando os olhos.
Olhos azuis, talvez um pouco mais escuros que os do beb.
- Escute aqui, sr. Riley. Eu detesto ter minha vida virada de cabea para baixo. Detesto lugares como este e, por nada desse mundo, eu poria os ps aqui para procurar um homem como o senhor no fosse por um beb jogado em minha porta. Acho que isso  motivo suficientemente forte. Ser ento que o senhor poderia deixar de ser cnico s por uns momentos e prestar ateno no problema estamos discutindo?
Uma expresso aborrecida tomou conta do rosto dele.
- Ah, nada disso. Ns no temos problema algum, senhorita. Voc tem um problema, e ele  s seu, j que foi voc quem achou um beb em s;ua porta e no eu. Alm disso, falando francamente, essa histria no tem consistncia alguma.
- Mas... seu nome est no bilhete! - protestou Alexandra, o dedo apontado para o papel.
- Nunca tive filhos no passado e no os terei tambm no futuro. O seu achado no tem nada a ver comigo.
"Achado?" Alexandra estava pasma. No lhe ocorrera que o homem no fosse acreditar nela.
- Acha que eu viria at aqui com uma histria que no fosse verdadeira?
- Srta. Page, nada do que as pessoas fazem me surpreende mais - respondeu ele, colocando os fragmentos de papel de volta nas mos dela. - Se sua histria  verdadeira ou no, esse  um problema seu. S sei que faltam a ela bons argumentos para convencer o mais tolo dos homens.
- Mas... 
- Pode me chamar de antiquado - prosseguiu Riley, em voz baixa. - Mas prefiro ser o caador e no a caa. E para ser bem franco, voc no  meu tipo - finalizou ele, olhando-a com desdm.
Alexandra arregalou os olhos irritados, e ele deve ter interpretado erradamente as lgrimas que viu porque se apressou a dar umas palmadinhas conciliatrias em suas costas, como se houvesse pensado que ela chorava por ter sido rejeitada.
- V para casa - disse ele, apontando para a porta.
Alexandra agarrou-lhe o brao.
- Voc no pode me deixar nisso sozinha. No era s meu nome que estava no bilhete - disse ela, abanando o papel no nariz dele. 
- Jogue isso fora - ele respondeu, batendo a porta e saindo. Foi seguido imediatamente por uma loira insinuante que ele abraou pela cintura e levou at o piano. Comeou a tocar e, outra vez, deixou-se envolver totalmente pela msica.
Alexandra sentiu inveja dele. Que bom era conseguir se desligar assim. Ela, ao contrrio tinha de enfrentar um beb abandonado que lhe fora dado para cuidar. Lutando contra as lgrimas dos olhos, procurou no escuro um telefone e ligou para Sam.
- No consegui nada com Riley - disse. - Ele est acostumado a ser assediado pelas mulheres e no est convencido da existncia do beb. H uma chance at de ele no ser o Riley do bilhete - disse. Depois de uma pausa, perguntou: - Como est a nen?
- Dormindo. Fiz uma espcie de bero para ela, no cho, com a ajuda de umas caixas e das almofadas do sof. Ento voc mesma fala com a polcia ou quer que eu o faa?
- Vou tentar s mais uma vez apelar para o bom senso do tal Riley. Talvez consiga faz-lo acreditar em mim. Voc pode ficar mais um pouco a, Sam? Preciso esperar at que ele acabe de tocar.
Passaram-se duas horas; Nesse meio tempo, Alexandra perguntou a algumas pessoas se conheciam outro fregus regular de nome Riley, mas todo mundo s se lembrava do pianista. Ficou sabendo que ele era um dos muitos msicos amadores que tocavam no bar e que Riley era o primeiro nome, no o sobrenome. O nome completo era Riley Templeton.
Consultou de novo o bilhete, e achou que, perto da parte rasgada, a letra que se seguia ao nome Riley parecia mesmo um "T" , talvez de Templeton. O ar enfumaado e o ambiente barulhento estavam se tornando insuportveis, e Alexandra achou melhor esperar na rua, mesmo tendo de enfrentar a chuva fina. No ar fresco, a irritao do nariz e dos olhos poderia melhorar. Sentia-se desconfortvel com a camisa fina que, molhada, aderia  pele. O coque despencara, e ela tivera de prender os cabelos de novo, de algum jeito, e os fios escaparam aqui e ali.
Riley saiu sozinho, carregando uma maleta de couro e com uma capa de chuva jogada sobre os ombros. Olhou para os dois lados da rua como para checar o trfego e atravessou repentinamente, indo em direo a uma loja com uma grande placa de non. Alexandra o seguiu.
- Voc de novo! - Ele contraiu os olhos, em um gesto de desagrado. Apoiou a maleta no chio, fechou os botes da camisa. - Esqueceu de me contar algum detalhe? Veio me dizer se o beb estava em cima ou embaixo da escada?
- As duas coisas - respondeu ela, com a esperana renovada de que ele a ouvisse. - Minha casa  daquelas antigas, que tem um poro alto. O beb foi deixado na escada da porta, nos degraus que levam para a varanda.
Ele olhou-a com ironia.
- Bastava responder se era em cima ou embaixo. - Procurou alguma coisa nos bolsos e tirou uma gravata. Levantou o colarinho da camisa, ajeitou a gravata, fez o n e rapidamente deixou-a ajustada ao pescoo.
Os olhos de Alexandra ficaram hipnotizados pelos movimentos dele e, para disfarar, ela abriu a bolsa em busca de mais um leno de papel para limpar os culos. Quando voltou a encar-lo novamente, ele finalizava o arranjo do colarinho. Interrompeu-se por alguns instantes, olhou para ela e prosseguiu com aquela delicada operao masculina de ajeitar a gravata em frente aos botes da camisa. Estava totalmente concentrado em se arrumar. Alexandra achou que o nico jeito de chamar sua ateno seria se oferecer para engraxar seus sapatos. Ele sabia que ela o olhava.
- O que acha? - perguntou de repente, para deixar claro que percebera o interesse dela. Talvez achasse que Alexandra o estava admirando. Mas ela lembrou-se de quanto ele pisoteara sua auto-estima e resolveu contra-atacar.
- Estava pensando se ela levou em conta o nariz.
- O qu? - perguntou ele, piscando. - De quem voc est falando?
- A tal mulher que queria fazer um filho prodgio com voc - respondeu ela, olhando fixamente para o nariz dele.
Instintivamente, ele o cobriu com as mos, como para proteger o nariz do olhar desaprovador dela. Ento riu.
Em sua limitada experincia com o universo masculino, Alexandra aprendera que homens autoconfiantes so sempre srios, mas aquele quebrara a regra, mostrando que era capaz de rir de si mesmo. Poderia ser tambm um daqueles tipos to seguros de seu fascnio que s mesmo poderiam rir, em sinal de zombaria, de alguma observao negativa a respeito de seus dotes fsicos.
Alexandra ajeitou novamente os culos que insistiam em escorregar do nariz mido de chuva. Agora que tinha conseguido chamar a ateno dele, achou que era hora de mostrar-lhe de novo o tal bilhete.
- Quer fazer o favor de parar de esfregar esse pedao de papel em meu nariz? - Riley grunhiu.
- Mas seu nome...
- Est escrito a. Isso voc j disse.
- Por favor, pense em quem pode ser a autora deste bilhete.
Ela balanou o papel de novo e corou de raiva, ou talvez de embarao, porque os culos ameaavam escorregar de novo. Ele tirou um pente do bolso.
- No preciso pensar sobre isso. No tem nada a ver comigo, e eu espero - disse, apontando o pente para ela - que voc pare de querer me envolver nesse assunto.
Um sopro de vento abriu sua capa, e ele colocou o pente nos dentes enquanto fechava os botes e amarrava o cinto. - Pensei que o clube seria o nico lugar onde eu poderia ficar longe de mulheres enlouquecidas, oferecidas ou insistentes. Estou farto de todas vocs! -exclamou ele, fazendo um gesto que dava nfase  frase.
- E quanto ao pente? - perguntou Alexandra. - Pretende com-lo?
Riley arrancou o pente da boca. Sua hostilidade tinha chegado ao limite e agora, relutantemente, ele ensaiava um sorriso.
- Siga meu conselho, mocinha. No se envolva.
- J estou envolvida. A me daquela criana no a abandonou em qualquer lugar e sim a minha porta. Colocou meu nome no bilhete, pediu que eu tomasse conta dela, dizendo que eu era a pessoa certa para faz-lo. Estava desesperada, sr. Riley. No sei como  com o senhor, mas eu no consigo ignorar um pedido desesperado de ajuda!
Lembrou-se de que o sobrenome dele era Templeton e no Riley, mas ele no a corrigiu. Limitou-se a olh-la especulativamente. A chuva fina recomeara a cair. Os cabelos dela tinham se transformado em uma pasta disforme que caa sobre as sobrancelhas. O que mesmo estava dizendo? Era preciso quebrar o silncio antes que no tivesse mais coragem para continuar a insistir naquele assunto.
- Pense nisso - disse ela, colocando o bilhete rasgado na bolsa e procurando por um carto de visitas. - Vou lhe deixar meu telefone, caso o senhor consiga se lembrar de alguma pessoa.
Ele protegeu os olhos das gotas de chuva. Eram incrivelmente azuis, emoldurados por uma densa cortina de clios negros.
- No gostaria de deixar o beb aos cuidados de uma assistente social. No seria um bom comeo de vida, no acha? Talvez a me seja jovem e esteja apenas assustada. Voc se lembra de alguma jovem grvida que tenha freqentado o clube no ano passado?
Alexandra passou a mo na testa, tentando impedir que as gotas de chuva escorressem por trs dos culos. Pingava gua de seus cabelos encharcados. Ele piscou e tentou limpar a gua do rosto. Passou a mo na boca, para secar os lbios. Ali na rua, de p na chuva, ela se sentiu intimamente ligada a ele. Confusa, percebeu que Riley olhava para sua boca, do mesmo modo como ela olhava para a dele.
Os dois tentaram disfarar o constrangimento ao mesmo tempo. Riley tirou um leno do bolso, desdobrou-o e se ps a secar a testa.
- No me lembro de grvida alguma - disse, brusco. - Lamento que voc tenha ficado com a responsabilidade de olhar por uma criana que lhe foi trazida por alguma adulta irresponsvel que nunca deveria ter gerado um filho. Gostaria de ajudar, mas j tenho problemas suficientes e no posso arcar com mais esse. Chame a polcia antes que acabe sendo acusada de seqestro.
- Seqestro? - soluou ela. - Mas eu...
- Voc est com o filho de outra pessoa em sua casa. Poderia ter sido planejado. Confie no que eu estou lhe dizendo - continuou ele. Penteou os cabelos rapidamente, olhou para o relgio e conferiu o movimento de carros na rua. Pareceu encontrar o que procurava e sorriu, satisfeito. - Boa sorte, srta. Page, e adeusinho.
Um BMW esporte cor de bronze parou no meio-fio.
- Riley! - chamou a mulher que o dirigia.
- Ol, Caroline - respondeu ele.
Alexandra fez meno de se retirar, mas ele a segurou pelo cotovelo e pediu:
- Fique!
Foi como dar um comando para um cachorro adestrado. Ela ficou tentada a latir em retorno, mas uma olhadela para Riley foi suficiente para perceber que ele parecia assustado. Quem seria aquela mulher? Era to intrigante que resolveu ficar para descobrir.
Caroline desceu do carro. Esguia, corpo flexvel, olhos maravilhosos. Vestia roupa justa, um top de listas vermelhas, minissaia de couro preta, um enorme cinto e meias pretas, envolvendo as longas pernas. Anis e brincos dourados. Era uma beldade de dezenove, no mximo, vinte anos.
Alexandra ficou ponderando o que, naquela garota, poderia ter intimidado Riley.
- As chaves do seu carro, amorzinho - disse ela, balanando o chaveiro para ele. Riley o pegou com a mo que estava livre. - Seu arquiteto ligou no telefone do carro. Disse que amanh entregar um relatrio sobre o estrago. Voc deveria ir para nossa casa, enquanto a sua est reformando. Papai adoraria receb-lo.
- Al - disse ela, friamente, dirigindo-se a Alexandra.  Sou Caroline Warner. - Dirigindo-se novamente a Riley, ela prosseguiu: - Ela no se parece com um procurador . Papai disse que voc estaria trabalhando em um caso hoje  noite, Riley.
- J terminamos - explicou ele e jogou as chaves de volta para ela. - Voltarei em um minuto, Caroline.
Dispensada to sem rodeios, a beldade caminhou at o carro com ar aborrecido, entrou e cruzou os braos. Alexandra; invejou os cabelos lisos e sedosos e ento sentiu a mo de Riley prendendo seu cotovelo. Ele o soltou, mas a enlaou pela cintura.
- O que est fazendo? - protestou Alexandra. Estava sendo puxada para perto dele, e podia sentir o calor de suas mos queimando suas costas molhadas.
- Dizendo adeus.
Esperou um instante, como para dar a ela a oportunidade de respirar, abaixou a cabea e a beijou. Foi um beijo frio, mas tecnicamente perfeito. Como aqueles beijos apaixonados de cinema, que parecem perfeitos para o espectador, mas que no tm nenhum envolvimento. Pelo menos foi o que Alexandra pensou nos primeiros cinco segundos. Depois disso, ele prosseguiu, os lbios forando os dela a se abrir, persuasivo. Sentiu a lngua dele em sua boca, o cheiro de cigarro e de bala de hortel at que tudo terminou com o som de uma batida de porta de carro. 
Riley a soltou. Sorriu, visivelmente satisfeito consigo mesmo.
- Que pena. Em uma outra ocasio seria divertido prosseguir com isso. Mas na atual circunstncia, no espero encontr-la de novo. Adeusinho, Alexandra.
Pegou a valise e caminhou at o carro. Caroline passou para o lugar do passageiro, ele acomodou-se e deu a partida.
Alexandra ficou ali na calada, sem ao. "Teria sido divertido ir em frente com isso". O homem era convencido, metido a conquistador e, aparentemente, tinha mudado de idia a respeito de seu sex-appeal. Sentiu uma ponta de satisfao.
Em casa, encontrou Sam dormindo no sof e o beb em seu bero improvisado. Caroline procurou pelo sobrenome Templeton na lista telefnica e encontrou: Riley Templeton, Advogado. No era  toa que se sentia frustrada. Ele era especialista em enredar os outros.
Sam acordou, ouviu as novidades e foi embora para casa. A porta de tela bateu, e ela pde ouvir os passos dele na grama molhada at que tudo silenciou de novo. Ouviu o som dos bodes, do sapo que morava no jardim desde dezembro e dos mosquitos, zunindo do lado de fora das janelas.
Cansada, foi para a cama e, em instantes, s ouvia a respirao do nen. Mais um dia, pensou. Ficaria com a criana mais um dia  espera de que a me a procurasse. Era improvvel contar com a ajuda de Riley, mesmo que ele tivesse segundas intenes. Passou os dedos pelos lbios.
"No espero encontr-la de novo."


CAPTULO II

O caso estava ganho, mas nem por isso Riley conseguia evitar o mau humor. Sua argumentao no processo fora inquestionvel, mas ele no estava satisfeito. Considerara seu desempenho medocre, se comparado s outras vezes em que atuara com sucesso, na defesa ou na acusao, em casos complicados, que gostava de rememorar com orgulho.
Sentia-se levemente deprimido, os pensamentos sendo invadidos, vez ou outra, pelas cenas da noite anterior, que insistiam em lhe voltar  mente. No elevador, distrado, teceu alguns comentrios rpidos sobre o caso que acabara de defender com os colegas do frum e sentiu-se aliviado quando a porta se abriu, e ele pde sair. Ficou mais animado ao lembrar-se das escapadas semanais para tocar no clube de jazz. Eram muito estimulantes, espec!a!mente depois de um dia tenso de trabalho e dos novos negcios que assumira. Felizmente, ultimamente, sua me demonstrava estar mais animada, com interesse renovado por sua vida pessoal e profissional.
Da noite anterior s se lembrava de algumas poucas cenas: o beijo que dera em Alexandra Page, o perfume adocicado que lhe pareceu vagamente familiar , a moa abanando o bilhete em seu rosto. Abriu um sorrisinho irnico. Devia estar fora de si para ocupar seu tempo livre e gastar sua energia ao ficar pensando naquela garota de culos e mal vestida.
quela altura, ela j deveria ter entregue o beb s autoridades, o que, alis, era a nica coisa sensata a fazer. Mesmo assim, no conseguia se livrar de uma incmoda dor de conscincia. E se fosse mesmo seu nome naquele bilhete? Abriu sua pasta  procura do carto de visita que ela lhe dera.
"Livros raros e livros de segunda-mo. Memorabilia.. Elizabeth rcade."
Talvez no final do dia, se tivesse tempo e disposio, poderia ir  tal livraria e descobrir como tudo se resolvera. At, quem sabe, convidar a moa para jantar. Uma atitude educada e gentil, apenas.
Guardou o carto no bolso do palet. Talvez fosse melhor no fazer nada daquilo. Ela poderia ser do tipo que insiste com telefonemas e que quer muita ateno. E o que ele menos precisava, naquele momento, era de uma mulher que virasse sua vida de cabea para baixo.. Sua secretria temporria e Caroline j eram problemas suficientes para um homem administrar.
Caminhou a passos largos para sua sala e antes mesmo de entrar vislumbrou, por entre a fresta da divisria de junco, a secretria, um segurana e uma pessoa que parecia estar completamente desloca da naquele local. De um ombro seu pendia uma enorme sacola de plstico e, no outro brao, ela carregava um beb. Alexandra Page!
Seus cabelos castanho-avermelhados estavam presos por uma fita, na altura da nuca, e ela usava outro daqueles conjuntos de roupas largas. Trazia o beb enrolado em uma manta e, de seus braos, pendia um outro tecido leve que insistia em se arrastar pelo tapete chins. De vez em quando, Alexandra o puxava, em um gesto distrado. Em uma das mos ela segurava um envelope de plstico transparente que continha um pedao irregular de papel.. Riley se sentiu invadido por uma onda de raiva e desconforto.
O ambiente sombrio do frum, com sua decorao sbria, o silncio pesado, e o olhar frio das secretrias, costumava inibir os estranhos. Os advogados que tinham seus escritrios ali alardeavam seu sucesso e o seu bom gosto com salas ricamente decoradas, cheias de pinturas e esculturas. Naquele universo quase irreal, tudo era raro e verdadeiro. O couro legtimo, o mrmore, a seda e as obras de arte revelavam ostentao. Era o tipo de lugar que fazia qualquer pessoa desejar encontrar um rosto familiar. Alexandra sentia-se extremamente desconfortvel ali at avistar, de repente, uma figura conhecida.
Riley Templeton, constrangido, apareceu em seu campo de viso, vestido com uma indumentria do sculo passado. A toga preta, usada nos julgamentos, caa sobre uma elegante cala risca-de-giz, e o chapu realava seus olhos e sobrancelhas. Alexandra engoliu em seco. Qualquer outro homem ficaria ridculo naquela roupa, mas no Riley. Nele, a roupa ganhava um charme especial.
Em um rpido movimento, ele se livrou da toga e da beca, enquanto a secretria relacionava todos os crimes de Alexandra.
- No tinha hora marcada, recusou-se a sair quando o beb comeou a chorar e tentou entrar em sua sala - disse ela, lamuriosa.
Alexandra achou que essa fora sua atitude mais condenvel, j que a secretria o havia mencionado por ltimo, com nfase.
O segurana, convencido pelo olhar severo de Riley de que tinha sido tolerante demais, fez meno de colocar Alexandra para fora. Consciente de que tinha apenas uns poucos minutos para conseguir o que queria, ela colocou o beb bem de frente para Riley Templeton.
- Ela lhe lembra algum? - perguntou, alto.
Ele a fuzilou com o olhar, e Alexandra ficou se perguntando se ela era a nica a notar que os cabelos negros, todos desalinhados por causa da retirada do chapu, era iguaizinhos ao da nen. Que os olhos azulados dele eram iguaizinhos aos dela, isso era inquestionvel. Confrontada com um desconhecido, assim, de repente, a nen inclinou a cabecinha para trs e armou uma cara de choro.
- Riley? - perguntou a secretria em um tom pouco usual para uma funcionria. - O que significa isso? Quem  essa mulher? Ela insiste em dizer que o encontrou ontem  noite, o que eu duvido, porque sabia que voc tinha um encontro marcado com Rob Cousins sobre o caso Janowski.
Riley respondeu entre dentes.
- Tudo bem, mame. Eu conheo a srta. Page. Pode deixar que eu cuido disso.
"Me"?! Bem, aquilo explicava o tom possessivo da mulher em relao a Riley e seu escritrio. Alexandra no achou que ele fosse do tipo que ainda transitava em torno da me.
- Esse  outro de seus casos especiais, Riley? - perguntou ela, com um suspiro.
- No, no . ...
- Pessoal - interrompeu Alexandra, aborrecida com o modo como a senhora ignorava a presena dela ali. Como se todos que no tivessem dinheiro para pagar pelos servios do filho dela pudessem apenas esperar por caridade, no por respeito.
- Pessoal? - As mos aristocrticas da sra. Templeton correram para o pescoo, para arrumar o colar de ouro. Ela olhou de novo para Alexandra e para o beb de alto abaixo e gostou menos ainda do que vira na primeira vez. Baixou a voz para falar com Riley, mas no o suficiente para que Alexandra no pudesse ouvir o que dizia.
- Voc no tem tempo agora, Riley, seja para o que for que essa... jovem... queira conversar. Precisa voltar ao tribunal e tambm tem de retornar o telefonema de Davina. Eu disse a ela que voc telefonaria logo que pudesse para falar sobre a campanha de fundos para a entidade beneficente que ela dirige.
- Mas por que fez isso? - reclamou ele.
- Voc me prometeu, Riley - respondeu a senhora, censurando-o.
- Mame, j lhe disse que no interferisse em meu...
Surpreendentemente, um lampejo de sentimentalismo apareceu nos olhos azuis acinzentados da sra. Templeton. Olhando em volta, Riley percebeu que algumas pessoas dos escritrios vizinhos, que transitavam pelo corredor voltaram-se curiosas, em sua direo. Segurou o brao de Alexandra, puxou-a para dentro de sua sala e fechou a porta. Ela teve a impresso de que ele estava mais preocupado em se refugiar ali do que em tir-la da vista dos outros.
Era um escritrio com estantes de livros do teto ao cho, poltronas imensas de couro e uma esplndida escrivaninha antiga. Cortinas pesadas, entreabertas, deixavam vislumbrar a cidade e alguns trechos do rio Brisbane. Um grande retrato de um juiz togado, com sorridentes olhos azuis da mesma cor dos de Riley estava dependurado, com destaque, em uma parede.
- Meu pai - explicou Riley, quando percebeu que ela olhava o retrato. 
Ela sorriu ao ver a assinatura do quadro, que era muito melhor do que a famlia que o pagara para pintar.
- Voc se parece com ele.
Riley soltou um murmrio gutural que dava a entender que j ouvira aquilo inmeras vezes antes.
Alexandra avaliou o ambiente e olhou para a escrivaninha, para as duas mesas auxiliares e para o gaveteiro.
- Nenhum sinal de cinzeiro - comentou, aliviada. - Voc no fuma aqui?
- Eu fumo muito raramente - disse ele, tenso. - Na maioria das vezes s quando toco, no clube.
- Em Roma, como os romanos,  isso?
- Por que isso agora?
-  que eu sou alrgica.
- Ah... Ento as lgrimas da noite passada...
- Rinite.
Ele jogou a toga em um sof de couro Chesterfield e empilhou as pastas de arquivo que trazia na mo na mesa de trabalho.
- Bela escrivaninha.
- Tesouro de famlia - respondeu ele, seco. - Muito bem, voc tentou entrar em meu escritrio... O que queria dessa vez?
- No quis forar nada. Apenas sugeri esperar aqui porque o beb estava chorando. Sua me, ou melhor, sua secretria, reagiu como se eu estivesse sugerindo fazer um piquenique na abadia de Westminster.
- Ela no  minha secretria. Est apenas me dando uma ajuda durante trs semanas, at que minha funcionria se recupere de um acidente que sofreu. Ele a olhou com ar resignado.
- Suponho que voc disse a ela que nos encontramos no clube de jazz...
- No, no mencionei o clube - respondeu Alexandra, notando que ele soltou um suspiro de alvio. -  um segredo para todo mundo ou s para sua me e Caroline?
Riley no respondeu. Arrancou o colarinho branco e jogou-o no sof, ao lado da toga.
- Bem, no  da minha conta se voc, de vez em quando, transforma-se de estrela dos tribunais em pianista, enquanto a mulherada acha que voc est trabalhando.
O comentrio recebeu dele um olhar de desaprovao. Tirou o colete que usava por baixo da toga e o pendurou em um porta-chapus antigo. Afrouxou a gravata e abriu os dois primeiros botes da camisa de seda. Alexandra ficou imaginando quantas peas mais ele ainda teria para tirar.
- Ento - disse ele, fazendo pela primeira vez uma pausa para olhar a nen. - Esta  a criana abandona...
Alexandra escondeu o rosto da criana no ombro.
- Sssh! - reclamou. - No diga isso!
Riley ficou olhando, espantado.
- Dizer o qu?
- Isso no  uma palavra que um beb deva ouvir - explicou ela, dizendo s com os lbios, sem som, a palavra "abandonada".
Ele ficou sem graa. Inclinou-se em direo a ela e ficou to prximo, que Alexandra conseguia sentir sua respirao. Temeu estar cheirando a leite azedo. Um piscar de olhos, e ele se afastou de novo, apoiando-se na estante de livros.
- Como voc sabia onde me encontrar? E com que direito entra aqui apresentando um melodrama choroso para todo o prdio do frum... O que voc quer  jogar essa criana em cima de mim como se ela fosse minha, como se eu fosse um lorde que tivesse engravidado a empregadinha e se recusasse a assumir a responsabilidade.
Alexandra no sabia definir o que a deixava mais furiosa. Se a facilidade com que ele se nomeara um lorde, colocando-a no papel de empregadinha, ou se aquele dedo de magistrado, apontado, em riste, contra ela.
- Em primeiro lugar, esta criana...  ela.  uma menina! - explicou. - E poderia muito bem ser sua, sim, senhor, at porque se parece muito com voc. Todo mundo deve ter notado - acrescentou, satisfeita por lembr-lo disso.
O beb parou de resmungar e encarou Riley com seu olhar inocente.
- Eu j lhe disse - retrucou ele, no tom de voz baixo e contido que devia usar para impressionar os jurados - que no tenho filho algum.
- Como pode ter tanta certeza?
- Quer detalhes dos mtodos anticoncepcionais que eu uso, srta. Page?
Ela deu de ombros, e ele sorriu.
- S fao sexo seguro - disse, deliberadamente. - Alm do mais, sou muito seletivo. O tipo de mulher que despertaria meu interesse nunca deixaria uma criana na soleira da porta de uma desconhecida.
-  mesmo?  -perguntou ela, irnica. - Voc acha que h apenas dois tipos de mulher: as boas e as ms. A me desta criana seria imediatamente classificada por voc como m...
- No, no, no. No estou tirando esse tipo de concluso. Felizmente, h muitas outras classificaes agradveis entre um extremo e outro.
O beb comeou a pesar no brao de Alexandra, e ela o ajeitou melhor no colo enquanto tentava levantar o envelope de plstico na direo dele. Os olhos de Riley seguiram o movimento de suas mos, tensos.
- Esse  o maldito bilhete, no ? - perguntou ele.

- Gostaria que voc me ajudasse, Riley. Acho que no vou dar conta disso sozinha - pediu ela.
- O que voc sugere? Que eu cuide do beb? Que lhe troque as fraldas? 
Alexandra nem havia pensado em pedir esse tipo de coisa a ele. S queria que ele ajudasse a descobrir a me da criana, mas a atitude de Riley a provocou.
- E por que no?  -perguntou, desafiadora.
Ele engasgou. 
- Sou um advogado, srta. Page. Tenho inmeras responsabilidades. Agora mesmo preciso voltar ao tribunal para outro julgamento e tenho muitos processos para estudar. Mesmo que eu me dispusesse a ajud-la, e isso eu no faria em hiptese alguma, no poderia. 
Ela lhe retribuiu o olhar glido.
- Tambm tenho obrigaes muito importantes, sr. Templeton, tenho meu trabalho e um negcio para tocar. Se eu posso fazer um esforo para assumir essa responsabilidade extra por um dia ou dois no vejo por que o senhor no pode fazer o mesmo. 
- Eu lhe direi por que - reagiu ele, falando por entre os dentes. - Porque  sua a deciso de no entregar essa criana s autoridades. - O dedo ameaador, apontado na direo da nen a assustou, e ela comeou a chorar. Riley pareceu desarmado por um instante e depois fez um gesto indelicado com as mos. -No tenho nada a ver com isso. 
Alexandra levantou a mo, brandindo o envelope plstico. Riley resmungou alguma coisa rspida e segurou seu pulso. 
- Se pretende me dizer mais uma vez que meu nome est a, nessa coisa... 
- E est mesmo! 
Ela sentiu o calor da mo dele. Seus olhos azuis se fixaram nos dela. Os dedos de Riley, agora, tamborilavam em seu brao, como se ele estivesse dedilhando o piano com uma musiquinha animada. Curvou-se na direo dela. Assustada com a proximidade, Alexandra, retraiu-se.
- No vai querer me beijar de novo, espero.
Um brilho apareceu nos olhos dele.
-  um caso a se pensar.
Alexandra achou que tinha se afastado o suficiente dele. Talvez tivesse contrado os lbios... No soube ao certo como suas mos foram parar no peito dele. Lembrava-se vagamente de que mudara o beb de brao e quando percebeu, passava as mos pelos cabelos de Riley.
- Nunca, em s conscincia, eu beijaria um fumante. Detesto o hlito - disse, empinando o nariz.
- S fumo no clube, j lhe disse... - defendeu-se ele. - Na maioria das vezes, no tenho gosto de cigarro na boca.
O homem era ardiloso. Enfatizou a palavra gosto a fim de atiar a imaginao dela.
- Qual  o perfume, ou colnia, ou seja l o que for que est usando?
- No uso perfume, j lhe disse que sou alrgica.
- Voc parece ser alrgica a muitas coisas.
Riley ainda a segurava pelo pulso. Alexandra tentou soltar-se gentilmente, para que ele no notasse quanto estava perturbada.
- Fumaa, perfume, poeira, peixe e lquido de permanente - informou ela. Deveria ter acrescentado "e homens que fazem meu pulso disparar". Tinha desenvolvido aquele quadro alrgico anos atrs, depois de descobrir como certos homens conseguiam destroar o corao das mulheres.
- Lquido de permanente - repetiu ele, olhando para os cabelos encaracolados dela. - Por que precisa us-lo?
- No preciso. Meu cabelo  naturalmente encaracolado - disse ela, resignada.
- Nesse caso, como sabe que  alrgica ao lquido de permanente?
- Porque j o usei na tentativa de alisar os cabelos e fiquei meses atacada.
Ele piscou.
- No faz sentido.
Ela entendeu o motivo do espanto dele.
- O lquido de permanente  usado tanto para encrespar quanto para alisar os cabelos - explicou.
- No foi isso o que eu quis dizer. No faz sentido voc querer alisar o cabelo.
Alexandra foi pega de surpresa e no conseguiu pensar em nada para dizer. Os olhos de Riley se estreitaram e, por alguns instantes, ele pareceu estar refletindo sobre algo. Sacudiu ligeiramente a cabea e virou-se.
Tirou uma carteira de sua pasta, abriu-a, e sacou algumas notas de dinheiro de valor alto. Tirou o envelope plstico dos dedos dela e colocou o dinheiro dentro.
- Minha contribuio - disse. - Contrate uma bab, se acha que no pode cuidar pessoalmente do beb. Francamente, acho que isso  mais do que um homem razovel faria.
- Bem, acho que cada um d o que tem para oferecer - disse ela secamente, segurando o dinheiro. - Vou aceitar, porque obviamente voc est em condies de me dar este dinheiro, e o meu oramento est apertado. Mas farei um relatrio de tudo o que gastar com o beb e lhe devolverei o que sobrar.
- No precisa me entregar relatrio algum, srta. Page. - Riley pegou o envelope, rasgou-o e jogou-o na lixeira.
Alexandra guardou o dinheiro na carteira, enrolou melhor a nen na manta que escorregara pelo brao e saiu da sala. A sra. Templeton estava  espera dela. Melhor dizendo,  espreita.
- Srta. Page - disse ela, com um sorriso investigativo. - Peo-lhe desculpas pelas suspeitas, mas  preciso tomar muito cuidado hoje em dia com as pessoas. E... bem... onde foi mesmo que a senhora encontrou meu filho?
Riley apareceu como em um passe de mgica, j todo paramentado, de beca, toga, maleta, arquivos e guarda-chuva. Franziu a testa, lembrando a Alexandra que no era para mencionar o clube de jazz.
- Ah... em minha livraria - respondeu ela, imaginando por que mentira para favorec-lo. - Riley  nosso fregus habitual. Ele gosta muito de quadrinhos. Do Fantasma, principalmente.
- Quadrinhos? - A palavra saiu dos lbios da sra. Templeton como se ela a estivesse pronunciando pela primeira vez. - Mas Riley nunca gostou de quadrinhos. Nunca uma revista de quadrinhos entrou em casa...
- Isso provavelmente explica tudo - respondeu Alexandra. - Muitos de nossos clientes foram proibidos, na infncia, de colecionar gibis e agora eles...
- Entendeu agora, me? - apressou-se Riley, puxando Alexandra pelo brao, na direo do elevador.
- J tenho motivos de sobra para ficar louco nas prximas trs semanas, e voc no ajuda em nada. Quadrinhos! - bufou ele.
No elevador, se ps a abotoar a toga e a arrumar o colarinho.
- Mas preciso lhe agradecer - disse, de repente.
Alexandra no pde evitar o ar de surpresa.
- ...por no ter dito nada sobre o clube de jazz.
Ela deu de ombros.
- No teria mentido para salvar sua pele, mas para ser franca, foi um prazer negar esta informao a sua me.
- Minha me  uma mulher maravilhosa, a sua maneira. - Riley pareceu ficar aborrecido. - Redige muito bem e entende de leis tanto quanto eu - disse. - Poderia ter vivido uma vida inspida de socialite, mas escolheu trabalhar ao lado de meu pai como sua secretria particular e ficou meio desorientada quando ele morreu - contou, checando sua imagem no espelho do elevador, enquanto falava distraidamente, como para si mesmo. - Ela era feliz por tomar conta da vida dele. Agora se sente muito s e ainda tem muita disposio e energia para gastar e...
Alexandra tentou, mas no conseguiu imaginar a sra. Templeton desorientada. De qualquer modo, aprecio a maneira como ele defendeu a me. Muitos dos homens que ela conhecia no teriam hesitado em qualificar a prpria me como uma senhora antiquada e desinforma, sem pestanejar .
- H quanto tempo perdeu seu pai?
- Sete meses.
Alexandra olhou a velha maleta que ele carregava. A escrivaninha do pai e possivelmente a maleta do pai. Riley viveria  sombra dele?
- Desculpe-me, no tinha o direito de criticar sua me. 
Riley fez um gesto compassivo com a cabea, como que aceitando seu pedido de desculpas.
- No se sente constrangido de circular por a vestido como um juiz do sculo dezoito? -perguntou ela, quando saram para a rua. - Ou gosta de impressionar os outros?
- Eu a impressiono?
- A nica coisa que faria eu me impressionar com voc, Riley, seria v-lo me ajudar a encontrar a me da nen.


CAPTULO III

A livraria onde Alexandra trabalhava ocupava uma loja estreita de dois pavimentos ligados por uma escadinha em caracol, em uma galeria que recendia permanentemente a incenso e era embalada pelo som da msica New Age que tocava o tempo todo nas lojas vizinhas. Embora ficasse a apenas um quarteiro de distncia do principal shopping center de Brisbane, era um mundo completamente diferente, tranqilo e mtico, onde se encontravam peas em batique e drages, lingerie sensual, conselheiros conjugais, cristais, alimentos naturais, velas e bijuterias de cobre.
A maioria dos consumidores era composta de gente que parecia dispor de todo o tempo do mundo, ao contrrio do pessoal de escritrio que passava apressado pela galeria usando-a como atalho para chegar a seu destino. Esses s davam uma rpida olhada nos antiqurios e nas lojas que vendiam lingerie extica e nem paravam, exceto se fossem vegetarianos ou apreciadores da cozinha japonesa.
Foi com surpresa portanto que Alexandra foi alertada pelo sininho da porta, s cinco e quinze da tarde, da presena de um fregus, no andar de baixo. Olhando por entre os degraus da escada em caracol, ela teve um rpido vislumbre de um terno bem cortado, o que no era caracterstico de sua freguesia. Era um terno risca-de-giz de aparncia sofisticada, do tipo que se costumava encontrar nas livrarias da rua principal da cidade, as que tinham ar-condicionado e seu prprio balco de caf expresso.
A dela no tinha nem ar-condicionado nem carpete. Apenas uma cafeteira eltrica  disposio dos clientes que quisessem preparar seu ch. Esse que chegara j colocava o contedo de um saquinho de caf instantneo em um copo enquanto Alexandra subia a escada, carregando uma pilha de livros.
- Boa tarde, no que posso... - comeou a dizer para em seguida ficar paralisada no alto da escada ao reconhecer algo de familiar naqueles ombros largos e no terno bem cortado. Os cabelos do homem estavam escovados para trs e o palet, todo respingado de chuva.
- Riley!
Ele virou-separa ela, levantou o copo de caf esfumaante e perguntou:
- Onde posso encontrar leite?
- Na prateleira onde est escrito "Romance" - respondeu ela.
Ele pareceu no entender, e Alexandra teve de indicar o local com um gesto de cabea. Ali havia um frigobar embutido na estante. Riley abaixou-se para abri-lo e precisou tirar uma caixa de ovos para alcanar o leite. Logo em seguida endireitou-se e lanou um rpido olhar sobre as capas de livros que estampavam lindas mulheres nos braos de homens musculosos.
Tomou um gole do caf e fez uma careta, indicando que no aprovava o sabor.
- Eu ofereo caf s aos clientes - explicou ela, aborrecida.
Outro gole, outra careta.
- E eles voltam?
- Quase sempre.
- Seus livros devem ser mesmo bons - completou ele, com um meio-sorriso irnico. - E os ovos, com esse papel escrito "Sr. Hawkins", para o que so?
Alexandra ficou pensando no que seria melhor responder. Tentou agir com cautela pois raciocinou que o homem finalmente deveria ter decidido ajudar. Que outra razo o teria levado at ali, tendo se despedido dela com tanta nfase na manh daquele mesmo dia?
O corao deu pulos ao pensar em uma das possibilidades. "Acalme-se...", refletiu ela. "Voc no  o tipo de mulher que os homens correm atrs. E Riley no  o tipo de homem que se dispe a fazer isso."
- Veio pegar seu guarda-chuva de volta?
Ele no respondeu, apenas sorriu, e se ps a passear pelas estantes com ar distrado at parar em frente a de quadrinhos.
- Ah... o Fantasma - disse, pegando um exemplar. - A ltima vez que li isso eu era um adolescente desengonado de dezesseis anos.
- Sua me disse que quadrinhos no entravam em sua casa...
- Depende de como voc define casa. Na definio de minha me, o poro no faz parte da casa. S meu pai descia l, de vez em quando, para colocar mais uma garrafa de vinho ou tirar uma delas da adega. Eu passei horas ali, lendo meus quadrinhos com uma lanterna, na companhia de dezenas de garrafas de vinho.
- Por que s at os dezesseis?
- Cresci cinco centmetros naquele ano, encorpei, minha voz firmou, tirei o aparelho dos dentes e fui capaz de dizer de novo as palavras com "s", o que era muito importante, j que as garotas que me interessavam se chamavam Vanessa, Cassandra ou coisa parecida. - Colocou de novo o gibi na prateleira e caminhou at a estante de livros antigos.
- Se voc coleciona livros antigos - adiantou-se Alexandra -, tenho uma edio rara de 1882, capa de couro, em excelentes condies, que combinaria muito bem com os livros que voc tem em seu escritrio - disse ela, tirando o exemplar da prateleira e oferecendo-o a ele.
- Sermes, do reverendo W. Morley Punshom - leu ele, franzindo o rosto. - Est tentando me empurrar isso?
- Acho que nunca vou conseguir vender este livro... - Alexandra suspirou.
- No tem nada sobre jazz?
- Tenho um ttulo no setor de biografias, lembrei-me agora, sobre Stephane Grappelli e Django Reinhardt - disse ela, entregando a ele a pilha de livros que carregava enquanto se esticava para pegar o exemplar a que se referia.
Quando se virou, deu com Riley de frente para ela.
- E tenho uma revista de jazz em boas condies datada de 1937, um exemplar de colecionador.
Riley esticou o brao e pegou o livro. Alexandra podia sentir a respirao dele em sua nuca. Estava presa, como em uma armadilha, entre os setores de Biografia, Religio e Histria Militar e foi s ento que percebeu quanto era estreito o corredor entre as estantes. O teto pareceu baixo, sufocante, o ar parecia faltar ali. O silncio era total.
- Ento, onde est o beb?
Naquele exato instante ela nem se lembrava mais do beb, envolvida que estava com o perfume de gua de colnia ctrica que emanava dele e o brao que impedia sua passagem. E com os trs, ou melhor, quatro, fios de cabelo soltos no colarinho. Riley deveria ter ido ao barbeiro antes de ir at a livraria. Ser que estava na cadeira do barbeiro pensando no que fazer quando decidiu ir at  livraria e peg-la de surpresa para evitar mais cenas em seu escritrio?
- Na verdade, tudo j est resolvido - respondeu ela, em um impulso. De repente, mentir lhe pareceu a melhor coisa afazer para se ver livre de Riley. - Logo que voltei de seu escritrio, a me da criana apareceu - disse ela, fechando o livro e sorrindo. - No  timo?
Os olhos de Riley nem ao menos piscaram.
-  mesmo? E qual  o nome dela?
Alexandra engoliu em seco. O ttulo de um livro sobre os milagres de Lourdes saltou a sua vista. - Bernadete... o nome dela  Bernadete - respondeu, tentando fazer com que ele no percebesse a hesitao em sua voz.
- Bernadete do qu?
- Uhn Saint, Saint John. - Levantou a cabea, tentando indicar a ele que gostaria de passar mas, ao invs de abrir caminho, Riley aproximou-se ainda mais dela e pegou o livro de suas mos. Como no havia mais para onde ir, Alexandra se encolheu junto ao setor de Histria Militar.
- E ela disse por que deixou a criana em sua porta? - quis saber ele, enquanto folheava lentamente a revista.
- Bem... ela... - Alexandra achou que quela altura, a melhor estratgia seria o ataque. - Mas por que quer saber, afinal? Voc deixou bem claro que no queria se envolver nesse assunto, ento no vejo sentido neste interrogatrio. Voc no ser incomodado novamente nem corre mais o risco de ser envolvido na histria. Sinto muito se se sentiu embaraado ao ser confrontado com um beb em seu escritrio, mas isso no acontecer mais. No preciso mais de sua ajuda e... e tambm vou devolver o seu dinheiro, j que no preciso mais dele. - Fez uma pausa, respirou fundo, sentindo-se melhor depois de ter tomado a deciso de evitar discutir aquele assunto com Riley Templeton. - Quer ver a revista antes de ir?
Riley olhava fixo para ela e fez ainda pior: aproximou-se e tocou os cabelos que Alexandra enrolara atrs da cabea e encharcara de spray para que no cassem. Aproximou-se tanto que foi possvel sentir seu hlito de caf.
- O que fez com seus cabelos? Ontem  noite eles estavam to macios...
Alexandra sentiu um breve arrepio ao relembrar a cena do beijo da noite anterior.
- Quer me dar licena, por favor, Riley? Se est procurando diverso, entrou no lugar errado. No gosto de ser usada como alternativa de lazer. At agora no entendi se me beijou para causar cime naquela Nefertiti ou para desencoraj-la, mas de qualquer forma, passou dos limites.
- Dalliance! - exclamou Riley. -Voc deve ter uma seo de Jane Austen - desconversou ele.
- Est na hora de fechar a livraria. Tenho muito ainda o que fazer, portanto, adeusinho, Riley. No h mais necessidade de nos vermos, agora que me e filha esto juntas de novo.
- No tenho tanta certeza disso.
Alexandra piscou, nervosa.
- E por que no?
- No sei, no... Poderia ser interessante. No quer jantar comigo?
O corao de Alexandra disparou, acompanhando o ritmo do ventilador de teto. Interessante? Desde quando procurar problemas era uma atividade interessante? Deu de ombros.
- No.
Os olhos dele se estreitaram.
- H uma qumica qualquer entre ns.
-  por isso mesmo que eu no concordo com a idia - respondeu ela. - A qumica pode ser perigosa. - Lamentou-se por denunciado seu sentimento. - No h nada entre ns, quero dizer, nada em comum, nem mesmo um beb abandonado, agora que ele est de novo com a me. 
-  verdade - disse Riley, apontando para o livro de Lourdes na prateleira.
- O beb de Bernadete St. John. Quase um milagre, no acha? - Alexandra suspirou. Deveria saber que seria pega em uma argumentao to frgil.
- Faz parte de minha profisso ler o rosto das pessoas - continuou ele. - Alm disso, h evidncias mais concretas - argumentou, tirando alguns livros da pilha que ela lhe dera para segurar. - Por exemplo, este exemplar de Cuidados com as crianas, com algumas pginas marcadas. Como livreira, voc tem uma obra para cada ocasio.
Alexandra sentiu-se corar.
Um a um, Riley foi tirando os livros da pilha e lendo os ttulos em voz alta:
- A criana do nascimento aos cinco anos - enfatizou ele, abrindo o livro na pgina que mostrava a maneira certa de segurar um beb na hora do banho. Trezentos nomes de bebs, O beb e voc. Hummm,  melhor desconsiderar este. Minha irm disse que as teorias do dr. Benjamin Spock j esto ultrapassadas.
O sininho tocou, e a porta se abriu. Um senhor de idade, magro e curvado, entrou e tirou o bon.
- Sr. Hawkins - saudou Alexandra, sorrindo. - Separei um lote de minhas ltimas remessas para o senhor. E reservei uns ovos, tambm. Minhas galinhas esto botando mais rpido do que eu consigo com-los.
- Voc sempre diz isso, querida - respondeu o sr. Hawkins com um sorriso tmido. -Vou lev-los sim, com muito prazer.
- Quer um ch? - ofereceu ela.
O velho senhor deu a resposta habitual:
- Sim, desde que eu mesmo o prepare.
Depois de servir-se da bebida, o sr. Hawkins se encaminhou at o sof que havia embaixo da escada, sentou-se lentamente e comeou a examinar a pilha de livros que Alexandra separara. Ela ento ligou a cafeteira, abriu a geladeira, tirou a caixa de leite, ciente de estar sendo observada atentamente por Riley. Quando se voltou, viu que ele a analisava com um olhar cauteloso que j estava se tornando familiar.
- Ento aonde est a criana? - insistiu ele, assim que o sr. Hawkins foi servido de leite.
- Com minha me - admitiu ela, com um suspiro. - Vou busc-la depois de fechar a loja.
- Eu a levarei - ofereceu ele, para sua surpresa. - Esteja na esquina da rua Elizabeth com a George em vinte e cinco minutos, e eu a apanharei l.
- Mas, por que quer fazer isso?
- Pesquisei em meus arquivos e encontrei uma ex-cliente que pode ser a me dessa criana. Vamos pegar o nen e ir direto  casa dela.
Alexandra abriu os braos e sorriu.
- Oh, Riley, que timo! Por que no me contou logo isso?
- No me deixe esperando - disse ele, transferindo os livros sobre cuidados com crianas para os braos dela. -  hora de pico, e eu no poderei estacionar por ali. Esteja l. 
Saiu antes que ela pudesse perguntar detalhes sobre a tal ex-cliente. Vinte minutos depois, aps vender dois livros para o sr. Hawkins, Alexandra apagou todas as luzes e fechou a loja.
O BMW cor de bronze, modelo esportivo, era baixo e tinha todos os complementos que faziam a fama da marca: bancos largos, de couro, motor silencioso. Riley o dirigia com firmeza e rapidamente, por entre as brechas que se abriam, vez ou outra, no trnsito congestionado.
Alexandra no conseguia conter a curiosidade e no demorou muito a perguntar:
- O que o levou a achar que sua ex-cliente poderia ser a me da nen?
- Isso eu no posso lhe dizer.  confidencial.
- Certo - concordou Alexandra. - Mas qual  o nome dela?
- Voc no precisa saber disso, tambm.
- Devo colocar uma venda nos olhos quando estivermos prximos da casa de Madame X? - brincou ela.
Riley riu.
- O que a levou a mentir, dizendo que tinha encontrado a me?
Alexandra hesitou em dizer que queria mant-lo  distncia porque ele era uma ameaa a seu equilbrio, que no conseguia tirar da cabea a msica que ouvira ele tocando.
- Para ser sincera, estava me sentindo um pouco culpada por exigir que voc se envolvesse nessa histria. Achei que estava na hora de lhe dar uma sada honrosa.
Riley soltou uma sonora risada.
- J reparou com que facilidade as pessoas usam a frase "para ser sincera" quando precisam mentir? - Olhou para ela. - Aposto que voc  daquelas mulheres que nunca trocam o previsto pelo imprevisto. Voc queria era se livrar de mim, isso sim.
-  muita autoconfiana, no acha? Voc se julga to especial assim, a ponto de ser demais para uma pessoa comum e aborrecida como eu? - devolveu ela. Mesmo assim, a frase que ele, dissera continuou martelando em sua cabea. Era verdade! O brilho e a impetuosidade eram as qualidades valorizadas em sua famlia, o que tornava sua vidinha montona ainda mais massacrante.
Riley aproveitou uma chance e entrou no espao entre dois carros, freando bruscamente.
- Se acontecer de essa sua cliente no ser a me da nen, voc tem outras em vista? Quer dizer, tem certeza de que a pessoa que escreveu aquele bilhete no  algum com quem voc teve... bem... alguma intimidade?
- Certeza absoluta.
De novo, o tom decidido dele jogava por terra suas desconfianas. Mas s mesmo um monge poderia responder aquilo com total segurana. E ele estava longe de se parecer com um, com aquela aparncia, aquela voz profunda, a experincia em beijar. Ah... no, no dava para acreditar que Riley Templeton estivesse em jejum desde que tirara o aparelho dos dentes. Alexandra tentou conter o riso.
- Voc deve ter descoberto um mtodo contraceptivo cem por cento seguro - disse. - No h outra explicao para ter tanta certeza assim de no ser pai. A no ser que haja outros motivos, impotncia, esterilidade, sei l...
Os pneus cantaram no momento em que Riley fez uma curva brusca para virar  esquerda e logo em seguida  direita.
- Nossa! Voc  sempre assim to franca? - perguntou ele.
- No, mas  preciso deixar a educao de lado quando lhe pem um beb na porta. E voc tem de admitir que  raro ser assim to taxativo a respeito desse assunto. A maioria dos homens teria parado para pensar na possibilidade de haver gerado um filho sem saber.
- Voc gostaria disso, no gostaria? - rebateu ele. - Adoraria provar que sou o pai da menina para poder jogar toda a responsabilidade em cima de mim.
- E por que no, se voc fosse o pai? - revidou ela.
- Mas como no sou, a responsabilidade no  minha.
A resposta curta dele abalou o nimo j incerto de Alexandra.
- Bem, vejamos ento. Mesmo a cincia sendo maravilhosa como , no acredito que j inventaram um mtodo contraceptivo cem por cento seguro e  bvio que voc no leva uma vida celibatria. Isso tudo s leva a uma concluso para explicar essa sua certeza absoluta... - disse Alexandra, incontrolvel.
S poderia ser esterilidade ou impotncia! Algo que Riley dissera na noite passada de repente voltou-lhe  cabea. "No  possvel", disse, referindo-se  mulher que queria fazer um filho com ele. "Eu pratico sexo muito seguro".
O carro fez um movimento brusco, jogando Alexandra de encontro  janela e, logo em seguida, de volta ao meio do banco, os ombros roando os de Riley.
- Eu... desculpe-me - disse ela. - Foi muita falta de sensibilidade de minha parte... quer dizer... se h um problema qualquer... 
- Nenhum problema - ele a interrompeu. - E mesmo que houvesse um, necessariamente no levaria ao outro.
Obviamente o que ele queria dizer era que esterilidade no tinha nada a ver com impotncia. O orgulho machista o forava a lembr-la de que ele era capaz de fazer amor mesmo que no fosse capaz de fazer filhos. Alexandra se recriminou por seu comportamento.
- Desculpe-me, eu deveria ter percebido. Voc disse, desde o comeo, que no tinha filhos nem nunca os teria e eu... ah, meu Deus, deveria ter mordido a lngua, Riley!
O carro deu uma paradinha no trnsito, e ele a olhou.
- Agradeo sua considerao.  uma coisa rara hoje em dia.
- Mas... no ter seus prprios filhos, nunca...
- Soa to terrvel assim para voc?
- Nunca pensei nisso. Sempre achei que teria trs filhos, talvez quatro, uma famlia grande.
- E como se sentiria se soubesse que no poderia conseguir isso?
- Eu ficaria arrasada - Alexandra disse em voz baixa, depois de encar-lo.
- Voc no precisa se lamentar por mim. A fertilidade  irrelevante para minha deciso de no ter filhos.
Como era possvel algum falar sobre esse assunto daquela forma to racional, perguntou-se ela.
- Haveria muito menos tragdias se mais pessoas se descobrissem estreis - continuou ele, impassvel. - Pessoas que prometem honrar e amar a outra e que terminam por se odiar. Logo depois que me formei, trabalhei alguns anos na vara de famlia e vi muitas crianas pequenas confusas, traumatizadas, enquanto seus amados pais gritavam um com o outro e se atracavam para ver quem ficava com o sof de trs lugares, o vdeo e os filhos. H crianas infelizes demais no mundo. O fato de eu ter ou no ter filhos  irrelevante, e sinto-me bem em no aumentar tais estatsticas.
Alexandra o ouviu com simpatia. Embora Riley aparentasse frieza no discurso acadmico sobre o assunto, ela sentiu uma pitada de amargura em sua voz. Achou que o fato de ele dizer que no queria filhos era uma defesa, uma forma que encontrara para se consolar. Convencera-se de que sua incapacidade era uma contribuio a um mundo imperfeito e super povoado.
- E sobre os seus planos de ter uma grande famlia. Tem algum pai em perspectiva? - perguntou.
- Talvez - preferiu dizer, sabendo que ele esperava um "no" como resposta e tambm porque sabia que precisava se distanciar de Riley a todo custo. - Ainda  cedo para ter certeza.
Um instante de silncio.
- Como ele se chama?
Como era o nome dele? No havia candidato algum a ser pai de seus filhos e companheiro dela, mas no queria continuar com aquele assunto.
- Graham Foster - respondeu rpido, aprendendo com seu erro anterior. Ao dizer mentiras, o melhor  aproxim-las o mais possvel da verdade. Ao contrrio de Bernadete St. John, Graham Foster pelo menos existia. - Samos apenas algumas vezes - continuou. Era verdade. - Ele est bem prximo do que eu quero. - Falso. Alexandra j descobrira que essas poucas sadas tinham sido suficientes para descartar Graham, mas ele continuara a passar pela galeria e a insistir nos convites.
- Perto do que voc quer? Como assim? Voc mandou publicar um anncio de emprego?
- Decidi h muito tempo que escolheria o companheiro de minha vida por meio de avaliao racional e no emocional - explicou ela. Era verdade.
- Avaliao racional?! Voc? - Riley deu uma gargalhada. - Nunca encontrei uma pessoa que mergulhasse to de cabea nas coisas como voc.  do tipo que se envolve em um piscar de olhos. E eu lhe dou como exemplo o caso do beb abandonado. Qualquer pessoa normal no se sentiria obrigada a ir procurar um estranho s porque o nome dele est escrito em um bilhete.
- Mas este  um caso excepcional! 
- E voc d ovos para um cliente magrinho.
- E o que tem isso demais? - defendeu.se Alexandra.
- E eu ainda estou para descobrir como voc salvou aquelas crianas - disse Riley com ar de satisfao, como se estivesse resolvendo um caso. - Nunca conheci algum que se envolvesse emocionalmente nas coisas com tanta facilidade. As chances que voc tem de escolher um marido em bases racionais so mnimas. Alis, se eu tivesse tempo e vontade suficientes, poderia lhe provar facilmente quanto voc  emocionalmente manipulvel.
Alexandra ficou to irritada com a arrogncia dele que resolveu ir alm e jogar na cara de Riley algumas das teorias malucas que ouvira de Graham. Mesmo que nunca mais o visse no iria deixar aquilo ficar do jeito que estava.
- Se fosse apenas pelo racional, eu deveria ter um plano, ento.  isso?
- S espero que Graham no seja um romntico. - Riley foi irnico.
- No, felizmente - disse ela. - Ele acha que somos compatveis e que nossos genes combinam para criar uma prole inteligente e talentosa.
Graham tinha dito exatamente isso e com essas mesmas palavras. E era difcil conviver com um homem que se referia aos filhos como "prole".
- Graham tem algumas teorias interessantes para explicar como as pessoas escolhem seus parceiros. Ele diz que o amor romntico, por exemplo, atravessou simplesmente o caminho do instinto biolgico.
Riley mostrou-se angustiado. com tanta tolice, e Alexandra ficou  espera de que ele fizesse alguma observao cida para interromper a histria.
- Ele deve ter um pouco de razo, se considerarmos o reino animal. Veja os alces, por exemplo.
- Alces? - Riley olhou para ela espantado. 
- Graham diz que o alce macho tem chifres grandes no porque necessita deles, mas para mostrar quanto ele  capaz de encontrar tom ida e, por t-la em excesso, seus chifres crescem mais ainda.  isso o que atrai as fmeas.
- No consigo entender em que isso pode contribuir para sua busca do homem perfeito - Riley observou. - H alguma equivalncia humana?
Alexandra o fitou, tentando adivinhar aonde ele pretendia chegar. No era possvel que ele achasse que ela estava levando aquela teoria a srio!
- Um carro esporte, talvez? - arriscou. Considerando que ele estava guiando um carro esportivo, o comentrio soava como provocao. Ela foi ainda mais ousada: - Na verdade, um carro assim tem pouca utilidade.  desenhado para ser veloz, mas a lei o impede de usar a velocidade, portanto, faz apenas o que os carros comuns fazem. Mas funciona como prova de que seu proprietrio tem dinheiro suficiente para gastar em coisas no essenciais. Graham diz que  por isso que as mulheres se deixam influenciar tanto por carros esportivos.  o instinto biolgico delas, procurando pelo parceiro que tem muito a oferecer do que  realmente importante, e para os humanos isso quer dizer dinheiro.
- A comparao no funciona. - Riley fungou.
- Por que no?
- Chifres no so vendidos  prestao.


CAPTULO IV

Quando estavam a menos de cinco minutos de distncia da casa de sua me, Alexandra viu, horroriza a, o enorme cartaz que havia sido colocado em um dos prdios.
-  Gina Esposito, a apresentadora do canal 3! - exclamou. - H quanto tempo ser que esse cartaz est a? Espero que ela no tenha reparado nele.
Riley no entendeu o porqu do susto.
- Ela quem? - quis saber.
- Minha me. Ela no tosta nem um pouco de Gina Esposito. Mesmo em uma televiso pequena, sua imagem fica agressiva demais para mame.
- No  de se estranhar. Ela  jovem, bonita, talentosa e muito bem paga. O tipo que desencadeia ira em senhoras de meia-idade - comentou ele.
 -Principalmente quando um tipo desses rouba o seu marido de meia-idade. Foi o que Gina fez com o de minha me - rebateu Alexandra.
- Desculpe-me... Acho que at li alguma coisa a esse respeito... - Riley interrompeu-se para atender seu celular que tocara naquele instante e se envolveu em uma conversa a respeito de algum que "estivera muito furioso mas que j descarregara sua fria e agora no era mais perigoso". Desligou em seguida, lanando um olhar para Alexandra que fingia estar desinteressada na conversa.
A casa da me de Alexandra era antiga, da virada do sculo. Tinha um jardim meio abandonado, com uma mangueira carregada de frutas no centro do terreno e parreiras espalhadas aqui e ali. Muitas frutas estavam cadas no cho, exalando um aroma adocicado e atraindo um enxame de insetos, que zumbiam o tempo todo.
Alexandra abriu a porta dos fundos e entrou.
- Rhona?! - chamou.
Riley a acompanhava. Passaram por um amplo estdio que contrastava com os outros aposentos decadentes da casa. Por todas as paredes e espalhados pelo cho, havia enormes desenhos a carvo de figuras nuas. Doze estudantes, aproximadamente, enrolavam seus rascunhos e guardavam pincis e vidros de tinta. Uma modelo vestia-se, sem aparentar desconforto com sua nudez.
Foi s ento que Rhona apareceu, saindo de detrs de um cavalete. Era uma mulher alta, magra, com cabelos vermelhos caindo-lhe pelos ombros e uma paleta na mo direita. Seu olhar era esgazeado, vago, como se seus olhos estivessem vendo, mas seu crebro no processasse as imagens.
- Rhona - chamou Alexandra, cautelosa, como se falasse com uma sonmbula.
Os olhos verdes brilharam, e a mulher sorriu, revelando as finas linhas ao redor da boca e dos olhos.
- Lexi, querida... Que bom v-la!
- J estive aqui hoje, mame, logo cedo - respondeu Alexandra, rspida. - Voc deve se lembrar, espero.
- Claro que lembro! Voc deixou um beb comigo.
- Viemos busc-lo. Este  Riley.
A senhora estendeu a mo para ele que observava, atnito, aquela me de meia-idade to fora dos padres convencionais.
- A senhora  Rhona Thompson, a pintora. Alexandra me disse que sua me pintava, mas eu no podia imaginar que... Tenho, em meu escritrio, um dos primeiros retratos feitos pela senhora.
Rhona sorriu aquele sorriso que encorajava as pessoas a achar que ela estava saboreando cada uma de suas palavras. Mas Alexandra sabia que no era verdade. Naquele sorriso reconhecia todos os sinais da abstrao que apareciam sempre que sua me comeava a pintar um novo quadro. Preocupada, olhou em volta  procura do beb.
-  o retrato de meu pai, Gerald, Templeton  continuou Riley.
- Ah... sim - respondeu Rhona, com ar ausente. - Templeton...
- Rhona, voc disse que no ia comear um novo trabalho hoje porque tinha aula - reclamou Alexandra. - Nunca teria deixado Brenna com voc se soubesse que isso ia acontecer. Onde est ela?
Rhona pareceu no ouvir a pergunta. Olhou para sua paleta, observou as tintas e murmurou:
- Vai ser preciso usar cores quentes. Talvez um pouco de laranja...
Alexandra desistiu de falar com ela e comeou a procurar . - A pobre criana deve ter sido deixada debaixo de uma pilha de desenhos a carvo - disse, nervosa. Logo depois, encontrou a criana acomodada em um tapete, perto de um depsito de cavaletes, rolando feliz de um lado para o outro enquanto brincava com o prprio p.
- Ah... a nen - disse Rhona, sentando ao lado dela e deixando que a pequenina lhe agarrasse os dedos - Sabe, Alexandra, pensei em coloc-la em seu velho bero que guardei por a, em algum lugar, mas no consegui encontr-lo. Achei que ela ficou um pouco agitada depois que tomou a mamadeira... ser que no gostou do leite de vaca? - Sem esperar pela resposta olhou em volta com aquele seu olhar perdido e o fixou em Riley. - Voc  o pai dela, no ? So muito parecidos...
- No! - respondeu ele, exasperado. Em um gesto instintivo levou a mo  testa e afastou os cabelos com os dedos, deixando ainda mais evidente a semelhana que havia entre ele e a criana. - Ela no  minha. No tenho filhos. 
A me de Alexandra deu de ombros.
- Foi a cor dos cabelos e dos olhos... - tentou explicar, mas confrontada com o ar irado dele, desviou o assunto. - Mas isso no vem ao caso, e nem  de minha conta. - Preferiu concentrar a ateno nele. - Ento voc  o filho de Gerald Templeton... Lembro-me de seu pai - disse ela. - H alguma coisa com os olhos... - Aproximou-se, segurou o queixo dele e virou-lhe o rosto, estudando suas feies. - Voc alguma vez posou para um retrato?
- Rhona, onde esto as fraldas que eu trouxe? - interrompeu Alexandra. - Preciso trocar Brenna.
- Esto ali. - A senhora apontou para um canto do estdio. - Separei a banheirinha e algumas roupas lavadas, para o caso de voc no encontrar a me. Ah... e pus junto algumas mangas.
Rhona e Riley ficaram conversando enquanto Alexandra, ajoelhada, trocava a nen. Ela bem que tentou ouvir o que diziam, mas os dois caminhara at um canto mais distante do estdio, e tudo o que conseguia identificar era um vago murmrio. Em um determinado momento, Riley olhou para ela.
 -Voc tem um livro chamado Trezentos nomes de beb e escolheu justo Brenna?
- Significa a mulher de cabelos negros. Escolhi por causa da cor dos cabelos dela.
- E por que no Susan ou Sara?
- Ou Vanessa ou Cassandra, ou outro nome qualquer com muitos "esses",  isso? - Alexandra terminou de vestir a menina e levantou-se. - Escute aqui, sou eu que levanto  noite para atend-la. Sou eu que tenho trocado as fraldas dela, dado-lhe de mamar, embalado-a at que durma. Por que ento, voc, que vem apenas visit-la, se julga no direito de contestar o nome que escolhi? - indagou, desafiadora, repetindo, bem perto do rosto dele: - Brenna.
Saiu do estdio para jogar fora a fralda. Quando voltou, os alunos j tinham ido embora, e a me estava sentada em frente ao cavalete. Brenna permanecia deitadinha no tapete, e Riley, longe das duas, olhando demoradamente um quadro.
- Obrigada pela ajuda, Rhona.
O olhar distrado da me apenas passou por ela para se fixar em Riley, que parecia muito interessado no quadro. Do cho, Brenna o olhava, fascinada. Alexandra ficou imaginando o que ela estaria pensando.
- No vejo voc com um homem h anos - comentou Rhona.
- Ele est me ajudando a encontrar a me da criana, s isso.
-  uma grande figura. timo corpo. Lindo nariz.
- Voc parece estar descrevendo uma garrafa de vinho tinto - sussurrou Alexandra para a me, que descansou de novo seu olhar vago no perfil de Riley.
Ele, de repente, virou-se, como que atrado pelo olhar do beb. Brenna balanava as perninhas e esticava os braos na direo dele. Riley ajoelhou-se ao lado dela e fez-lhe um gesto distrado de ccegas na barriga. A nen agarrou-lhe os dedos da mo e o encarou fixamente. Foi quase uma tentativa de comunicao, que pareceu surtir efeito. Riley disse alguma coisa em voz baixa e acariciou-lhe o rosto. A nen esticou os pezinhos, e Riley segurou-os. Uma espcie de magia os envolveu naquela ancestral comunicao que no exige palavras, mas que se estabelece quando uma criana demonstra confiana por uma pessoa de boa ndole.
O estmago de Alexandra contraiu-se subitamente.
- Ele provavelmente a est chamando de Cassandra - disse, baixinho.
Rhona voltou a ateno para a tela que tinha em seu cavalete, e Riley se aproximou das duas mulheres com a nen nos ombros.
- Voc veio pela Milton Road? - perguntou Rhona, dando pinceladas vigorosas na tela. - Viu o cartaz de sua madrasta? Linda, no ? Nenhuma ruga. Eu acho que eles apagaram uma ou duas. Ela tem trinta anos, afinal.
- Rhona... - Alexandra ficou preocupada com o tom de raiva que identificou na voz baixa da me.
Aquele era um assunto que de tempos em tempos transformava Rhona em uma pessoa desagradvel, ciumenta e amarga e uma das principais razes pelas quais Alexandra se recusava a escolher um companheiro por impulso, movida pela atrao fsica ou por algum motivo tolo e romntico, que no levasse em considerao as reais possibilidades de um relacionamento de longa durao. Sua me tinha agido assim com Charles, e Charles tinha feito a mesma coisa com Gina.
- Rhona, evite passar muitas vezes pela Milton Road, por favor.
O cavalete tremeu com uma pincelada furiosa.
- No tenho a menor inteno de me desviar de meu caminho s por causa de um cartaz sem graa. Alm disso, Lexi, querida, isso j aconteceu h muitos anos - disse Rhona, com um sorriso triste.
No, sua me no desviaria seu caminho. Deliberadamente, passaria todos os dias pelo local onde estava o cartaz e assistiria ao programa do canal 3, como uma espcie de autopunio por ter feito sei l o qu para perder o amor do marido.
Rhona descansou os pincis e cobriu o cavalete com um pano. 
- Espero que vocs dois encontrem a me desta criana. Ou o pai - disse - embora os pais sejam mais difceis de achar, no  mesmo?

- Voc viu aquele quadro em meu escritrio - comentou Riley enquanto segurava a porta do carro para ela entrar. - Por que no disse que era sua me quem o tinha pintado?
- Pareceu-me um fato irrelevante - respondeu ela, acomodando Brenna de encontro a seu peito.
Riley sentou-se e abriu um mapa.
- Ento a fabulosa Gina Esposito  sua madrasta - disse, enquanto tentava localizar a rua que queria.
- No  bem assim. Meu pai, que era um escultor, morreu quando eu era pequena, e Rhona casou-se de novo. Foi o meu padrasto quem a abandonou para viver com Gina.
Demorou meia hora para que chegassem  casa da ex-cliente de Riley e uns poucos minutos para descobrir que estavam totalmente equivocados.
- Sim? - atendeu a mulher, olhando-os pelo visor da porta. Reconheceu Riley e foi procurar a chave para abrir a porta. Olhou com curiosidade para Alexandra e para o beb.
- Ol, eu no sei seu nome, mas acho que voc me conhece - Alexandra comeou a dizer quando ouviu um chorinho de criana vindo de dentro da casa. - Oh! - exclamou ela, desapontada. - Voc j tem um beb!
A porta fechou-se alguns centmetros, a mulher parecia desconfiada. Riley segurou firme no brao de Alexandra. - Foi um engano nosso, sra. Marshall. Pedimos desculpas por hav-la perturbado. Boa noite.
Puxou-a para lev-la ao carro.
- Oh... a senhora j tem um beb -imitou ele. - Voc parecia uma entregadora de pizzas.
- Desculpe, doura - disse Alexandra, acariciando a cabecinha da nen. - Pensamos haver encontrado sua mame, mas ainda no foi desta vez.
- Droga! Tinha quase certeza de que ela era a me - comentou Riley. - Por que no a levo direto a uma delegacia de polcia?
- Esse  todo o esforo que se props afazer? - retrucou Alexandra. - Uma tentativa frustrada, e j quer cair fora! Se eu estou disposta a agentar a inconvenincia por mais vinte e quatro horas, no sei por que voc no pode fazer o mesmo. - Fez uma pausa. - No, no estou sendo justa. Voc fez bastante, Riley, e eu no tenho o direito de exigir mais.
Ele fez um gesto de cabea como se estivesse agradecido pela atitude dela, mas, de repente, um pensamento veio  cabea de Alexandra que a fez ignorar completamente a presena de Riley ali.
- Minha nossa, vou ter de usar a banheirinha, eu, que nunca dei banho em um beb! A noite passada fiz apenas uma higiene rpida nela, mas...
Riley respirou fundo e expirou vigorosamente.
- Vou lev-la at seu carro e ento voc poder ir para sua casa e organizar o banho com calma, est bem assim?
Alexandra olhou para ele, ansiosa.
- E se eu a derrubar?
- Voc ouviu o que eu disse?
- E se entrar sabo ou xampu nos olhinhos dela?
- Onde est seu carro? - insistiu ele.
- No entendo como  possvel segurar o beb com uma das mos e s com a outra lavar o corpo, os pezinhos, a cabea - gemeu Alexandra.
Riley soltou um breve grito, e ela deu a resposta que ele esperava:
- Est no Kings Car.
Apesar de sua irritao e do desejo de se ver livre de Brenna e de Alexandra, Riley dirigiu devagar, com cuidado. No mais ziguezagueando por entre os carros, nem brecando bruscamente. Sempre que tinha de parar esticava o brao para proteger as duas.
Alexandra sorriu para ele.
- Voc est dirigindo como um pai - comentou, para se arrepender logo em seguida. Apesar do que Riley havia dito, tinha certeza de que ele gostava de crianas. Como para reforar essa tese, o rosto dele se contraiu ao ouvir o comentrio. Pedir desculpas, quela altura, poderia ser pior. Fechou os olhos. O que mais a surpreendeu ria atitude de Riley foi ele dirigir com cuidado sem que ela houvesse pedido. Bem l no fundo, isso podia ser um indicativo de que ele era, afinal, uma pessoa confivel. Alexandra achou que tinha de prestar mais ateno nesses pequenos detalhes, mas estava cansada demais para faz-lo naquele momento. Brenna, aninhada em seus braos, dormia, e Alexandra, embalada pelo balano do carro, acabou cochilando.
Acordou de repente, no exato instante em que o carro de Riley passava pela plantao de ameixas de Sam. Olhou para ele e sorriu.
- No se preocupe - disse. - J esqueci o nome.
- Que nome?
- Sra. Marshall.
Ele fez uma careta que podia ser interpretada tanto como uma expresso de aceitao quanto de desagrado e pulou do carro para juntar as sacolas de compras que estavam no banco de trs. Alexandra tambm saiu, protegendo a cabecinha de Brenna.
- Por que me trouxe para casa? Como vou fazer para pegar meu carro? - perguntou ela quando, de repente, sua ateno se fixou na bagagem. - O que h nas sacolas?
- Seguindo a ordem das perguntas - disse ele, segurando-a pelo brao enquanto subiam os degraus da varanda. - Um: voc dormiu. Dois: o carro pode passar a noite no estacionamento. Trs: mamadeiras, fraldas, macaces, xampu que no arde nos olhos e... um chocalho. Parei na farmcia. - Ele olhou para baixo, para o vo da escada. - Foi aqui que voc a encontrou?
- Foi. A me deve ter pensado que eu entrava pela porta de baixo... Escute, por que est fazendo tudo isso?
Ele havia comprado um chocalho enquanto ela e Brenna dormiam. Como entender aquilo?
- Muitas possibilidades me ocorreram - disse ele, secamente. - E todas se apiam em um nico estado mental induzido pelo estresse. D-me as chaves.
Ela o olhou sem entender nada. Desajeitado, deixou que as chaves cassem no vaso de ervas. Curvou-se para procur-las e enquanto o fazia arrancou uns pedacinhos de folhas, esmagando-as perto do nariz. Estalou os dedos, satisfeito.
- Basilico! - exclamou, como se houvesse encontrado a resposta para um problema mundial.


CAPTULO V

- Resolvi cultivar temperos em casa e alguns deles cresceram muito bem, como o basilico - explicou Alexandra, meio desajeitada com o beb no colo.
Um movimento dos dois colocou-os frente a frente, e Riley se viu envolvido por uma peculiar combinao de aromas: basilico e talco de nen, leite e acar.  como um solo de flauta com acompanhamento de violo e baixo, refletiu.
- O alecrim tambm est timo - continuou ela. - H uma lenda a respeito dessa planta. Dizem que ela nunca cresce mais do que um metro e oitenta, que seria, supostamente, a altura de Cristo. Quando chega l, o alecrim s cresce para os lados, no mais para cima. Dizem tambm que o cheiro do alecrim ativa a memria. Os antigos o usavam com essa finalidade e  por isso que os estudantes colocam folhas de alecrim nas pginas dos livros, de modo que ao estudar...
Riley deixou que ela revelasse todo seu conhecimento fitoterpico enquanto abria as portas, primeiro a de tela, depois a outra. Quando olhou para dentro. da casa, a impresso que teve do ambiente foi agradvel. O piso era de madeira, coberto com tapetes artesanais, havia pequenas esculturas de metal, cermicas, quadros de Rhona espalhados pelas paredes, dois vasos grandes com plantas e livros, muitos livros: em prateleiras, embaixo da mesinha de ch, no peitoril da janela, no consolo de lareira e at dentro dela! Na mesa de jantar, um pequeno livro de botnica, com desenhos de ervas, permanecia aberto, apoiado em um suporte de madeira.
O cheiro da chuva entrava pela porta. Com ele, o perfume do basilico. Basilico, ento era isso! No um perfume francs, mas uma erva que se colocava em omeletes. E ele passara as ltimas vinte e quatro horas tentando adivinhar o delicioso perfume que ela usava... Colocou as sacolas na mesa e caminhou em direo  porta.
- ...sem falar na erva-doce, que era muito usada nos jardins da poca vitoriana, por causa do aroma e tambm por no ser uma planta to frgil quanto as outras - prosseguia Alexandra, distrada, at o momento em que ouviu o som da porta de tela se abrindo. - Oh... Riley, por favor no v!
Ela estava com os cabelos desalinhados e com uma expresso assustada, os olhos acinzentados arregalados, fitando-o por cima da cabecinha da nen. No mesmo instante, arrependera-se de t-lo chamado. Riley percebeu. Alexandra Page tocava seu prprio negcio, morava sozinha e no devia ser fcil para ela implorar por ajuda.
- Vou buscar a banheirinha no carro - ele disse. Mais uma vez, tomava decises baseadas apenas em impulsos e no em motivos racionais. Lembrou-se de Alexandra Page em seus braos, um sorriso caloroso no rosto quando ele pensara ter encontrado a me da nen. Ou quando o elogiou: "Voc est guiando como um pai". Antes que ela dissesse aquilo, tinha pensado em deix-la no estacionamento e se despedir das duas. Mas no. Ao invs disso, estava ali, fazendo o que era menos provvel que fizesse. 
Ficaria ao lado dela por apenas mais meia hora, pensou. Daria mais meia hora, e depois iria embora. 

A banheirinha foi colocada em cima de uma toalha, na mesa da sala, com o sabo, o xampu e toda a parafernlia do banho ao redor dela. A nen estava peladinha, pronta para entrar na gua. O livro de ervas havia sido retirado do suporte, e, em seu lugar fora colocado um sobre cuidados com o beb, aberto na pgina onde havia desenhos mostrando o passo a passo para se dar um banho em crianas.
- Achei que saberia fazer isso instintivamente. Minha me o fez comigo, e como ela tinha a cabea sempre em suas pinturas, cheguei  concluso de que seria algo simples e automtico. Ser que a gua no est muito quente? - perguntou Alexandra.
Com um suspiro, Riley tirou o palet, enrolou as mangas da camisa e colocou o cotovelo na gua.
- Como no estou gritando, suponho que a temperatura esteja boa - disse.
Brenna sim, gritava.
- Eu a seguro, e voc a lava - sugeriu Riley, dando um passo  frente para colocar uma das mos por sob os braos da nen. Alexandra a ensaboou rapidamente, lavou-lhe a barriguinha, os ps e as pernas. Subitamente a criana parou de chorar.
- Ela parece estar gostando, Riley - comentou Alexandra, os culos respingados de gua.
- Fico feliz em saber que algum est se divertindo respondeu ele, tentando limpar o rosto. - Sorria.
- Agora temos de lavar os cabelos. - Alexandra secou as mos e virou uma pgina do livro. Mostrou a ele o desenho. - Consegue segur-la como est indicado aqui? 
Riley inclinou-se para a banheirinha e cuidadosamente segurou Brenna na posio indicada. Alexandra dobrou-se na direo dele. 
- Sua camisa est molhada - comentou, desviando logo o olhar .Riley era mesmo um homem charmoso, mesmo com os cabelos em desalinho, a barba por fazer e a camisa encharcada. O tipo que ficava bem em qualquer roupa e qualquer ambiente, fosse de beca, de terno, em um tribunal ou em um clube de jazz enfumaado.. De todas as lembranas que tinha dele, achou que a melhor era essa. Alexandra prosseguiu em seu trabalho de ensaboar os cabelinhos da nen. Brenna ria satisfeita.
- Alegria pura - comentou Riley, sorrindo. -  assim que todas as crianas deveriam ser, no acha?
- Com certeza.
- Fico triste ao pensar quantas delas, em todo o mundo, nunca riram ou brincaram - murmurou ele, olhando amorosamente para Brenna.
Alexandra capitulou. Riley podia aparentar ser um homem duro e cnico, mas tinha corao, afinal de contas.
- Minha me filiou-se a um movimento em prol das. crianas de pases assolados pela guerra. O grupo levanta fundos para ajudar as crianas que vivem nas zonas de perigo, com a inteno de providenciar brinquedos e lugares seguros para que elas possam brincar enquanto os adultos se matam uns aos outros. 
- Gostaria de colaborar - disse Alexandra, imediatamente.
- Voc pode - ele respondeu. - Tenho dois convites para um jantar beneficente. Venha comigo.
Alexandra ajustou os culos com as mos ensaboadas.
- Acho que no ser possvel - disse, esfregando as lentes na tentativa de limp-las.
- No acha que a causa valha a pena?
- No... quer dizer, sim, mas acho que eu prefiro fazer uma doao.
- Quanto?
- No sei, uns vinte dlares, trinta...
- Os convites custam trezentos dlares para o casal. Se eu no tiver com quem ir, no vou compr-los. Voc tem de admitir que a organizao preferiria receber o pagamento pelos convites do que seus vinte dlares, no acha?
- Bem... sim.
- E voc quer ajudar .
- Sim...
- Ento posso contar com voc.
- , acho que pode...
Alexandra tinha sido envolvida pelos argumentos dele mais uma vez. Ao que parecia, Riley tinha desenvolvido uma tcnica infalvel de levar as pessoas a dizer o que ele queria ouvir. Achou que precisava reagir.
- Escute, isso no significa que aceitei o convite para jantar.
O sorriso dele era de lobo mau.
- Mas de qualquer forma aceitou, o que  uma pequena demonstrao de quo mole voc . Basta mencionar alguns rfos para tocar seu corao. E depois voc me diz que pretende fazer escolhas racionais...
Alexandra se enfezou.
- Voc realmente gosta de levar sempre a melhor, no  Riley?
- Mas  o que normalmente acontece, meu bem. - Ele riu.
- O que voc conseguiu provar, apenas,  que tenho uma conscincia social. Agora segure a menina com firmeza para que eu possa tirar o xampu - determinou Alexandra.
Mais alguns minutos e Brenna estava seca, de fralda limpa, vestida e cheirosa. Riley e Alexandra, em compensao, descabelados e encharcados.
Assim que colocou Brenna sobre uma manta no tapete da sala, Alexandra entregou uma toalha a Riley e correu para o quarto para enxugar-se e trocar de roupa. Teve de se apressar, porque Brenna comeou a chorar, certamente de fome. Afobada, ao passar da sala para a cozinha no reparou que Riley estava no caminho e trombou com ele, que tinha a cabea coberta pela toalha. Momentaneamente sem viso, agarrou-se nela. Procurando um ponto de apoio para no cair, Alexandra no teve outra alternativa que no a de colocar suas mos no peito dele e sentir-lhe a maciez e o calor da pele... 
- Minha camisa estava ensopada. Achei melhor tir-la - avisou Riley, sem graa, enquanto retirava a toalha da cabea.
- Fez bem - respondeu Alexandra, olhando para o peito dele. Afastou-se o mais rapidamente que pde daquela proximidade perigosa e seguiu seu caminho at a cozinha. As mos transpiravam. E o que ser que estava acontecendo com seus joelhos que no paravam de tremer?
Riley a seguiu, ainda secando os cabelos com a toalha. Estava descalo.
- Coloquei minhas roupas na secadora. As meias, inclusive. Parecia que eu tinha pisado em uma poa de gua.
Alexandra ps o leite para esquentar e tentou ignor-lo. Por que pedira a ele que ficasse? Quanto tempo a roupa demoraria para secar? Como no admirar aquele corpo quase nu, circulando por sua casa?

Riley pensou consigo mesmo que Alexandra poderia ter posto uma roupa mais discreta. A camisa era praticamente transparente, e o top era muito pequeno e decotado, com alcinhas finas que teimavam em escorregar dos ombros... No conseguia decifrar Alexandra. Tinha certeza de que estava atrada por ele. Ela j tinha at admitido isso. Mesmo assim, em certos momentos, parecia no lhe dar a mnima ateno, exceto quando o assunto era o beb. Talvez ela realmente conseguisse controlar suas emoes.
Alexandra escarafunchou uma das sacolas de compras em busca do cereal para pr no leite.
- Tem certeza de que Brenna tem idade suficiente para comer isso? - perguntou ela, lendo o rtulo.
- A balconista da farmcia me garantiu que sim. 
- Mas voc nem sabe a idade da nen - objetou ela. - Aqui diz que se pode comear a dar cereal entre os quatro e os seis meses.
- Eu disse  balconista que o beb tinha esse tamanho... - completou ele, fazendo um gesto explicativo, do modo como um pescador faria para mostrar o tamanho do peixe. Alexandra riu e dirigiu a ele um daqueles olhares complacentes que as mulheres costumam dirigir aos pobres e inocentes companheiros. O sucesso do banho dera-lhe uma sbita segurana. Esquecera que estava assustada e era to ignorante quanto ele a respeito do assunto. Riley achou que merecia um mnimo de aprovao por seus esforos. Tinha feito, afinal, muito mais do que achava possvel.
- A balconista veio at o carro e olhou a nen pela janela. Disse que tinha quatro filhos e que quando eles eram desse tamanho j dava a eles o cereal. Est sossegada agora?
Alexandra deu de ombros. Bem, ele tinha feito tudo o que se esperava que um homem decente fizesse. Agora, era s esperar que a camisa secasse.

Riley estava sentado no sof, de peito nu, dando mamadeira a Brenna, quando a porta de tela se abriu com estardalhao, e Sam entrou.
- Que surpresa! - exclamou ele, avaliando cuidadosamente Riley. - Ento voc  o pai desta menininha linda?  sua cpia,  impossvel negar.
Riley franziu o cenho. Alexandra, lembrando quanto ele detestava aquelas comparaes, principalmente porque sabia que nunca poderia ter filhos, apressou-se a cortar o assunto e passou s apresentaes.
- Riley se ofereceu para dar de mamar a Brenna enquanto espera que sua camisa seque e que eu prepare a papinha - explicou ela, consultando o livro de crianas. - Xi, erramos! - exclamou. - Deveramos ter dado a papinha antes da mamadeira, Riley.
- Acho que ela no precisa saber disso - argumentou ele, olhando para a criana deitada tranqilamente em seu colo. Sam se juntou a Riley no sof, e Alexandra os deixou, procurando organo e azeite para fazer o molho de macarro para seu prprio jantar. Estava esfomeada.
A nen terminou a mamadeira e, depois de uma rpida consulta ao livro, Riley a colocou de p, de encontro ao ombro, e deu umas batidinhas em suas costas at que ela arrotasse. Depois passou a criana para os braos de Alexandra.
- Sua camisa j deve estar seca - alertou ela.
- Uma bela maneira de dizer que estou incomodando - disse ele, dirigindo-se  secadora.
Depois que Alexandra preparou a sopinha, Riley e seu vizinho se revezaram na alimentao de Brenna.
- Suas meias tambm j secaram? - quis saber ela.
Riley resmungou:
- Perdi uma.
- Como assim, perdeu?
- Acontece o tempo todo comigo. Eu uso as meias aos pares mas quando vou ver, falta um p. Simplesmente desaparecem.
- Tenho um par extra em casa. - Sam se adiantou. -  do meu sobrinho, que o esqueceu a na ltima vez em que veio me visitar, junto com um trenzinho eltrico que deve ter uns cinqenta anos de idade e um monte de discos de setenta e oito rotaes...
- Discos setenta e oito rotaes? - perguntou Riley, interessado. - De quem so?
- Alguns do Duke Ellington. Outros, de Errol Garner - respondeu Sam. - Acho que voc se interessaria por eles, sendo um pianista. Tambm tenho um velho piano Steinway, que toco de vez em quando. Precisa ser afinado, mas esse servio custa to caro...
- Gostaria de dar uma olhada nele - ofereceu-se Riley.
Alexandra suspirou.
- E o quadrado? - perguntou. - Voc no falou que tinha um quadrado?
- Ah, sim... Ns o traremos para c - respondeu Sam e saiu, acompanhado de Riley.
Dez minutos depois, do quintal, vinha o som de uma msica que, de repente, foi interrompida.
Talvez os dois tivessem desligado a msica para ento brincar com o tal trenzinho eltrico, pensou Alexandra, e continuou limpando o rostinho de Brenna, o mvel e ela mesma. Os dois homens voltaram, carregando o quadrado. Sam contava a Riley sobre a reunio que teria com os ex-colegas de exrcito em Melbourne, dali a seis meses. Parecia que se conheciam havia anos. Sua me, Sam, e mesmo Brenna, todo mundo parecia simpatizar com Riley, e aquilo a incomodava. Colocaram o quadrado no meio da sala e ficaram olhando para ele como se observassem um animal raro que haviam capturado na selva. Ser que esperavam por aplausos?, perguntou-se Alexandra.
- Esse cara aqui entende mesmo de piano - disse Sam, dando tapinhas afetuosos nas costas de Riley.
- Ahh... era Riley quem tocava? - perguntou Alexandra, como se no fosse possvel diferenciar a performance segura dele das tentativas grosseiras de Sam. - Seu piano precisa mesmo de afinao. Est horrvel...
O comentrio soou agressivo. Sam soltou um assobio baixinho, e Riley a fitou com o olhar que deveria usar com as testemunhas quando as pegava em alguma fraqueza.
Brenna regurgitou e devolveu um pouco de leite.
- No sabia quanto os bebs se sujavam - comentou ela, procurando pela caixa de lenos e por uma troca de roupa dentro da sacola da nen. Foi Riley quem a ajudou a escolher uma. O choro da menina ficou mais forte. Sam arregalou os olhos e bateu em retirada. Riley o seguiu. Ratos abandonando o navio, pensou Alexandra, apavorada. Como iria passar uma noite inteira sozinha com uma criana chorona?
Mas Riley acabou no seguindo Sam. J na porta, voltou-se para olh-la. De novo, ela teve a sensao de que ele estava avaliando os prs e contras. Ser ou no ser. Ficar ou no ficar.
Ficou. E ela gostou.
- Msica. Msica vai ser a salvao - disse ele, caminhando at o aparelho de som. - O que voc tem aqui? - Ligou o aparelho e examinou os discos que ela tinha. Com um resmungo, escolheu alguns e os colocou para tocar. - H uma teoria - prosseguiu ele, vindo sentar-se no sof  que diz que a msica tem efeito calmante sobre crianas agitadas.
Os sons da Flauta Mgica de Mozart inundaram o ambiente. Brenna levantou as sobrancelhas.
Alexandra parecia realmente surpresa e perguntou:
-  verdade?
Riley ento pegou Brenna e limpou as lgrimas de seu rostinho. Com a voz baixa, deliberadamente montona, prosseguiu:
- Pense nisso: nossos ancestrais, cabeludos, sem conhecer a linguagem, grunhindo apenas, vagando de caverna em caverna em busca de comida, carregando seus filhos.
Acomodou a nen sonolenta em um dos braos e desajeitadamente descansou o outro no ombro de Alexandra, puxando-a de encontro a si de modo que ela ficasse bem prxima da criana. Alexandra teria protestado, no fosse a tranqilidade encorajadora de Brenna.
- Imagine o que era perambular de caverna em caverna, dias a fio, com um bando de crianas, gritando sem parar - prosseguiu ele, naquele tom de voz monocrdico.
- Prefiro no pensar - respondeu Alexandra.
- O nico jeito de acalmar as crianas era produzir sons. Cantarolar alguma coisa em registros diferentes. Porque, como voc sabe, o crebro humano responde a certas combinaes de sons. O sinal dessa reao vem na forma de uma espcie de arrepio.
Alexandra massageou o pescoo e perguntou, baixinho:
- Como assim, um arrepio?
Ele sorriu e ajudou a acomodar Brenna em outra posio.
-  aquele friozinho que corre pela espinha quando a msica toca nossas emoes - explicou ele.
Causar frio na espinha parecia mesmo ser o departamento dele, pensou Alexandra. Sempre achara que um homem capaz de comprar leno de papel para limpar a boca de um nen nunca causaria frisson na espinha de algum.
- Ento voc acha que tudo isso comeou com nossos ancestrais das cavernas?
- Com certeza, e por causa das crianas. Pense que poderamos nunca ter desenvolvido a habilidade de criar msicas no fosse a necessidade de acalmar os pequenos.
- Ento as mulheres foram as primeiras compositoras da humanidade...
Riley sorriu.
-  apenas uma probabilidade -respondeu ele, fechando os olhos e reclinando-se no sof. Puxou Alexandra e o beb com ele. Ambos tremeram quando Brenna se mexeu e choramingou, tentando se acomodar melhor no meio dos dois.
Mas o contato no terminou ali. Riley continuava a manter o brao firme ao redor dos ombros de Alexandra, uma das mos segurando as costas de Brenna, pronto para ampar-la assim que a menina fizesse o mais leve movimento.
-  ridculo - protestou Alexandra. - Dois adultos presos um ao outro por causa de uma criana. Eu vou levantar.
Mas., assim que se. mexeu, Brenna resmungou, e Riley puxou Alexandra de volta para o sof enquanto dava tapinhas conciliadores nas costas da nen.
- Pronto, pronto, querida... No comece de novo, que no consigo suportar o nvel de seus decibis - disse ele, baixinho.
Alexandra no teve outra alternativa que no sentar-se outra vez bem perto dele no sof. Ficou quieta, os olhos fechados, pensando uma poro de coisas desagradveis sobre pessoas que deixam bebs na porta dos outros.
Quando abriu os olhos de novo, a msica j no tocava mais, a chuva havia cessado e a casa toda estava em silncio. De fora vinha o som de uma goteira, caindo do telhado, e do coaxar do sapo.
Vagarosamente, Alexandra virou a cabea. O homem ao seu lado dormia, os cabelos pretos em desalinho, a expresso mais suave do que quando estava acordado, os lbios ligeiramente entreabertos. Colada a ele estava Brenna, acompanhando o ritmo de sua respirao.. Alexandra prendeu o flego. Era como se, de repente, sasse do presente e fosse transportada para o futuro. O futuro que sempre desejara, quando despertaria no mais sozinha, mas ao lado de algum especial, com sua prpria famlia.
Experimentava agora aquelas sensaes. Como seria se aquele fosse seu marido e Brenna sua filha? Com um movimento lento, tentou desencaixar-se daquela famlia virtual.
Os sapatos de Riley estavam perto do tapete. O celular piscava, no outro extremo do sof. Seu palet havia sido deixado em uma chapeleira perto do balco da cozinha, seu cinto, pendurado em uma. cadeira. A gravata estava ao lado da mesa do telefone.
Alexandra no pde deixar de se lembrar com que facilidade aquele homem punha e tirava peas de roupa durante o dia. No havia abotoado toda a camisa, e a cabecinha da nen estava recostada em seu peito peludo. Alexandra no conseguia afastar seu olhar dos dois. O contraste entre o corpo masculino, forte e viril e o da criana, frgil e delicado, comoveu-a. Riley, to vulnervel quanto a criana enquanto dormia, mantinha as mos cruzadas em torno da nen. O chocalho vermelho e amarelo estava cado no cho.
Alexandra o pegou. Como seria saber que jamais se poderia embalar o prprio filho como Riley fazia agora com Brenna? Sentiu a dor dele como se fosse sua, e, assustada, percebeu que seus olhos se enchiam de lgrimas. No por no ter sua prpria famlia, mas por saber que Riley nunca teria seus prprios filhos.
Acordado, ele podia encarar seu problema como contribuio a um mundo super povoado, imperfeito. Dormindo, deixava transparecer uma grande ternura, expressa pela linguagem corporal com Brenna. Ele se preocupava com a criana, e ela sentia isso. Riley podia quase ser o homem que imaginara para si. Mas, claro, no era. Era pura qumica o que sentia por ele, no um sentimento slido como o que  desejado para quem pretende construir uma vida real. Alm disso, o homem que imaginava para si deveria querer ser pai dos filhos dela. Querer e poder. Mesmo em pensamento, aquilo era cruel.
O chocalho fez um barulhinho quando Alexandra o colocou na mesinha de centro. Juntou os sapatos de Riley e todas as outras peas de roupa dele e foi para a cozinha preparar um macarro. Colocou a gua para ferver e picou as mangas que a me lhe dera. O mnimo que podia fazer agora, depois de toda a ajuda que recebera: dele, era oferecer-lhe um jantar.
Ps o po no forno para descongelar, tirou do armrio sua ltima garrafa de vinho tirito, arrumou a mesa e foi tentar remover Brenna do colo de Riley.
- Venha c, meu bem - sussurrou ela.
Riley movimentou-se. Brenna agarrou-se a ele, os dedinhos presos na camisa, a carinha enfiada no peito dele.
- Oh, vamos meu amor, venha aqui - murmurou Alexandra.
Riley resmungou alguma coisa, sentindo-se desconfortvel, e, sem querer, agarrou o brao de Alexandra. Quando abriu os olhos, ela estava curvada sobre ele. Olhou com malcia para seu decote e para a mo apoiada em seu peito nu. Deixou a cabea cair de novo para trs e ficou observando-a com os olhos semi-cerrados.
- Perdi alguma coisa? - perguntou.
- No - disse ela, delicadamente, fazendo o possvel para escapar daquela situao constrangedora. - Voc acordou cedo demais.
Riley sorriu preguiosamente.
- Faa de conta que ainda estou dormindo.
- Impossvel - informou ela, quase desculpando-se. - Alm do mais, nunca tentaria seduzir um homem com um beb nos braos.
Brenna, que havia acordado com a movimentao comeou a chorar. "Boa menina", pensou Alexandra, aliviada por ter de lidar com ela. Ainda estava em dvida se havia ou no usado a palavra "seduzir". A idia de seduo continuava pairando no ar, entre os dois, sugerindo inmeras possibilidades.
" o que acontece quando se fala sem pensar...", recriminou-se Alexandra.
Quando ia finalmente tirar Brenna do colo de Riley ela fechou os dedinhos nos plos do peito dele. Alexandra deu um salto para trs, e Riley massageou o trax, seus olhos revelando dor. Descalo, cabelos em desalinho, a barba por fazer, a camisa saindo da cala, ele estava um caos. Mesmo assim, ainda era fascinante. Mais do que nunca era preciso evitar maiores envolvimentos com Riley. Pensou em correr para o quarto e levar a nen, mas era melhor coloc-lo para fora o mais rpido possvel. Devia pedir a ele que se fosse. Agradeceria e diria boa noite.
- Obrigada, Riley. Quer comer alguma coisa antes de ir?
Riley aceitou. Da cozinha vinha um cheiro agradvel de comida, acompanhado de uma outra fragrncia suave. Ervas? Tentou identificar o que era. Alexandra no usava perfume... Do quarto vinham os resmungos ocasionais de Brenna e a voz de Alexandra, cantando uma cano de ninar de Brahms. Afinada.
O livro sobre cuidados com crianas j no estava mais apoiado na estante de madeira. Fora substitudo pelo de ervas. Era um exemplar antigo, com desenhos a bico-de-pena e anotaes a lpis nas margens. Virou uma pgina. Estava esboado um desenho de um canteiro. Leu algumas observaes. Basilico. Erva-cidreira. Alexandra reproduzira uma a uma as palavras do livro. Sorriu.
- Este livro tem algum valor? - perguntou ele, fitando-a quando apareceu na sala, enrolada em um avental que lhe modelava o corpo. Os cabelos estavam soltos, caindo em cachos que balanavam suavemente quando andava.
- No em termos monetrios.  apenas o meu favorito, no momento. Quando chegou  loja, no resisti e fiquei com ele. Estou fazendo minha plantao de temperos no fundo do quintal - respondeu ela com entusiasmo. Indicou as mudanas que pretendia fazer no desenho... - Estou reciclando os tijolos do canteiro de cactos e...
- Cactos?! 
- Sim, fui apaixonada por cactos uma poca - explicou ela, apontando para a figura do livro. - Estou procurando por um destes para colocar bem no centro do canteiro - disse ela, referindo-se a uma das ilustraes.
Um barulho na cozinha chamou sua ateno.
- Sente-se que vai estar pronto logo, logo.
Riley acomodou-se no sof e continuou a folhear o livro. Sons na cozinha eram acompanhados de um cheiro delicioso que pairava no ar. Reconhecia aquele aroma mas no sabia identific-lo. Olhou para a garrafa de vinho que ela colocara na mesa.
-  a ltima garrafa de meu vinho caseiro - contou ela, colocando na mesa uma cestinha de pes quentes e um pote de manteiga. - Desculpe, mas  s o que eu posso lhe oferecer, j que no tenho bebida em casa.
- Voc faz vinho em casa? - perguntou ele, atnito, desejando que o vinho que ela fazia fosse melhor que o seu caf.
- H um tempo atrs - disse ela -, passou pelas minhas mos um livro que ensinava a fazer vinho, e eu resolvi tentar.
Riley serviu-se da bebida e deu um pequeno gole.
- Nada mau!
Ela sorriu.
- Isto  um elogio e tanto, vindo de uma pessoa que passou a juventude em uma adega. 
Alexandra voltou para a cozinha. Com o copo de vinho nas mos Riley se ps a perambular pela casa, mexendo nos livros colocados na lareira. Descobriu um sobre vinhos e outro sobre cactos. Era ali, ento, que ela guardava os livros que estava lendo?
Examinava cada canto da casa como um policial que investiga indcios de alguma coisa que nem mesmo ele sabe o que . Alexandra voltou carregando uma vasilha fumegante. Estava com o rosto afogueado pelo calor do fogo.
- Ento... - comeou ela, quebrando o silncio - quer dizer que sua casa est to bagunada aponto de Caroline precisar convid-lo a dividir o quarto dela?
- No foi isso o que ela disse.
- No com todas as letras. - Alexandra riu.
Riley serviu-se do macarro. Passou manteiga em um pedao de po e levou-o  boca. Suspirou.
- Caroline  filha de velhos amigos da minha famlia e muito recentemente ela... bem... parece que...
- Descobriu ter uma queda por voc? Pobre Riley. Perseguido pelas mulheres aonde quer que v!
Ele fez uma careta e passou as mos pelos cabelos.
- Ela tem s dezoito anos. Basicamente  uma boa moa, mas  a caula da casa e, como tal, foi estragada pelos mimos dos pais.  sexualmente precoce. Uma dinamite. Estou tentando me livrar dela sem ferir seus sentimentos.
- Ento me beijou para desencorajar Caroline.
- Mais ou menos. Parece que funcionou. Ela no me telefonou nem uma vez hoje. E qual foi o seu motivo para me beijar?
Alexandra corou. A razo no tinha nada a ver com isso, e esse era justamente o problema. Tentou ignorar o sorrisinho maroto que apareceu nos lbios dele.
- Se voc est to empenhado assim em desencorajar Caroline, no deveria pedir o carro dela emprestado - disse.
- O meu carro estava com o pai dela. Havamos combinado que ele me pegaria, mas mandou Caroline no lugar. Sabe, ele e a esposa no se empenham muito em tirar essa idia da cabea dela. Eles... 
- ...no ficariam nem um pouco aborrecidos se sua bombinha de dinamite se juntasse a um advogado bem-sucedido, amigo da famlia - completou Alexandra.
- Voc acha?
- Talvez voc devesse considerar essa possibilidade. - Ela riu, dando de ombros. - Ela  jovem e est apaixonada por voc. Ser que sabe cozinhar? Do jeito que est comendo, fico pensando h quanto tempo no faz uma refeio decente. Alm do mais, voc j est passando da idade de casar.
Ele ignorou o veneno.
- Isso  apenas uma fase. Logo Caroline me esquecer. J fui casado com uma garota muito parecida com ela, que tambm estava passando por essa mesma fase e que durou dois anos. Davina e eu acabamos nos divorciamos.
- Davina? Sua me mencionou esse nome hoje de manh.
- Minha me - disse Riley, entre dentes - alimenta a idia absurda de uma reconciliao. Davina me deixou para se casar com outro homem. Divorciou-se dele tambm e agora tem dois filhos. Dois meninos, que esto se sentindo desamparados - disse ele. - Se fosse em outras circunstncias, esses filhos poderiam ser meus.
Circunstncias. Ser que Davina quisera ter filhos? Ser que por essa razo abandonara Riley e se casara com outro homem? E agora ela estava livre de novo, realizada em seu papel de me.e contando com o apoio da ex-sogra na torcida por uma reaproximao. A julgar pela expresso pensativa de Riley, ele parecia estar levando essa possibilidade em considerao. Talvez nunca tivesse deixado de amar a ex-esposa. Alexandra achou melhor evitar concluses apressadas sobre a vida de um homem que acabara de conhecer.
Silncio de novo. S se ouvia o coaxar do sapo no jardim. Riley serviu-se de outro pedao de po.
- Minha casa est uma baguna - prosseguiu ele, como se Alexandra houvesse terminado de fazer a pergunta naquele momento - porque foi toda arrebentada. Algum entrou l e jogou tinta nas paredes, destroou as portas com um martelo, chutou a geladeira e o fogo. Tenho vivido de comida congelada na ltima semana. 
- Riley, que horror! 
- At que no. A gente se acostuma com os pratos sem sabor. 
Ela riu.
- No me referi  comida. Se voc estivesse em casa, poderia ter sido ferido. Isso tem a ver com aquelas pessoas que gritavam com voc na rua?
- No aquelas em particular. - Riley a olhou pensativamente. - Possivelmente outras pessoas que tm, ou acham que tm, um rancor parecido. Pode ter sido um ato ocasional de vandalismo. Meu apartamento fica em um prdio antigo, sem muita segurana.
Alexandra se levantou para recolher os pratos. Riley a seguiu at a cozinha e depois voltou para a sala com os pratos de sobremesa enquanto ela tirava a salada de frutas da geladeira.
Lembrou-se de como ele olhara a rua com ateno quando sara do clube de jazz.
- Foi por isso que sua me ficou to desconfiada quando fui procur-lo no escritrio?
Ele suspirou.
- No consegui esconder o acontecido dela e agora mame controla todos meus passos, telefona a todo instante para saber se estou bem. Sei que ela est terrivelmente pre9Cupada e  por isso que no quero que saiba que vou ao clube. Preciso de um esconderijo. - Ele curvou-se para atravessa de salada de frutas e estalou os dedos. - Mangas! Claro...
A conversa encaminhou-se depois para assuntos de famlia. Riley contou que seu pai, um advogado como o pai dele fora, morreu em um acidente de avio. Tinha uma irm que morava no Zimbbue com o marido sul-africano e dois filhos. Alexandra contou sobre seu pai e mostrou as esculturas que ele lhe deixara. Discutiram sobre leis e livros. Quase como se tivessem se conhecido de uma forma natural, como se estivessem juntos porque quisessem e no porque tinham sido forados. Como se estivessem, aos poucos, descobrindo que um e outro eram pessoas agradveis. Um relacionamento pacfico.
Brenna despertou como que para lembr-los de que estavam juntos apenas por causa dela. Aquela atmosfera amigvel tornou-se, de repente, carregada, tensa. Alexandra disse esperar que a nen no acordasse chorando tantas vezes quanto na noite anterior, e Riley disse que ela no devia mim-la. Foram, ambos, at o quarto da criana e se revezaram, embalando-a, cantando. Brenna parecia inconsolvel, e Alexandra deitou-se a seu lado no tapete do quarto. Cantou para ela, mas a menina s parou de chorar quando Riley se aproximou. Vinte minutos depois, Brenna dormia de novo. Vinte e cinco minutos depois, Riley e Alexandra saam do quarto, p ante p.
Ao fecharem a porta, sem querer, fizeram barulho e ficaram, por alguns segundos, tensos, temendo que a menina despertasse. Quando perceberam que no, sorriram um para o outro. Alexandra levantou  mo direita, e Riley bateu nela com a sua, em um gesto de camaradagem e vitria.
O ar parecia pesado. Alexandra sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Nada a ver com aquele frisson que a msica era capaz de causar, como lembrara Riley, at porque no havia msica alguma tocando. Era sim, por causa da presena dele.
- Esse sapo canta aqui por perto toda noite, desde novembro. Deve ter escolhido morar na vizinhana.
- Por que ele canta assim? - perguntou Riley, olhos fixos nos dela.
- Deve estar procurando a companheira, acho.
- Desde novembro?  de se admirar tanta persistncia.
-  um sapo de uma espcie no muito comum.
-  mesmo? Leu tambm sobre sapos? Foi antes, durante ou depois do interesse pelo vinho caseiro e pelo cultivo de cactos? - O livro sobre sapos estaria tambm na lareira?
As palavras iam e vinham, soando ridculas naquele momento. Parecia que os dois estavam em um mundo  parte, temerosos de voltar atrs, mas indecisos ainda para seguir em frente. Mal se conheciam, afinal de contas. No tinham nada em comum, a no ser a curiosidade de um pelo outro. E a qumica. As mos se entrelaaram.
A chuva comeou de novo, forte, batendo no telhado.
- Preciso ir - anunciou Riley.
- Est bem - disse ela.
- Sabe... voc... est interessada em outra pessoa, e eu no quero me envolver. 
Ela concordou com a cabea.
- Ser melhor assim - retrucou ela, pensando em quem poderia estar interessada. At aquele momento, s o que sabia  que precisava resistir ao fascnio de Riley. - Seria loucura complicar as coisas. 
- Exatamente.
Soltaram-se as mos e se afastaram um do outro, em uma tentativa de pr fim quele clima. Riley empertigou-se bruscamente, olhou para o peito, viu a camisa aberta e comeou a abotoar-se. Foi at a sala, sentou-se no sof e calou sapatos. Ela pegou a gravata e a jaqueta dele. Foi quando Riley comeou a fungar, como se farejasse algo no ar.
- Que cheiro  esse? - murmurou, aproximando as mos dela do seu.nariz. - No  basilico nem manga, ento  o qu?
- Organo - respondeu Alexandra. - Peguei um pouco l no canteiro para... - interrompeu-se e admirou os olhos dele. Eram azuis, de um azul meio acinzentado, profundo - ...para o molho do macarro.
Riley soltou-lhe o pulso. Alexandra ia dar um passo para trs quando ele a puxou para seus braos e a beijou. Nada a ver com o beijo da noite passada. Desta vez Riley no a beijava para afastar Caroline. No era um beijo pensado, acadmico como o outro, mas passional, cheio de desejo. 
Ela se colou a ele, passou os dedos por seus cabelos. Riley tomou a cabea dela em suas mos e a beijou de uma forma estranha, como se achasse que precisava fazer aquilo, mas que como temia faz-lo, ento era melhor agir rpido.
Alexandra se entregou. Que mal haveria em beijar aquele homem fascinante uma nica vez? Envolveu o corpo dele com seus braos, sentindo a musculatura firme das costas, juntou seus lbios aos dele, abriu a boca e retribuiu o beijo com todo ardor. O resultado foi uma descarga eltrica que pareceu agitar todas suas clulas, do couro cabeludo aos ps, provocando uma sensao de dor fsica.
Riley sorriu.
- Humm - aprovou ele, beijando-a em seguida no pescoo, no colo, na nuca.
Os sentidos dela foram atiados pelo perfume da pele dele. Com mos trmulas, abriu os botes da camisa e acariciou seu peito nu, as costas largas e os bceps fortes.
Riley sentou-se no sof, puxando-a para si. Rolaram ali abraados, sentindo todo o prazer que o contato dos corpos lhes proporcionava, as mos dele acariciando suas pernas, suas coxas.
De repente, os dois deram um pulo. Um rudo insistente se fez ouvir entre eles. Era o som da campainha do celular. Alexandra estava deitada em cima do aparelho. Riley passou o brao por baixo dela e pegou o telefone. Seus olhos azulados continuavam fixos nos dela. Com uma mo, procurou os comandos do telefone, enquanto com a outra tentava encontrar o fecho do suti.
- Sim? - respondeu ele, ofegante. - Me?? Sim, estou bem! Passou as mos nos cabelos e juntou as duas partes da camisa, como se para falar com a me fosse preciso se
recompor. - Fique tranqila, estou com... um amigo. Pare de se preocupar, mame... Deixou a mo cair quando Alexandra pulou do sof e se afastou dele. - Tudo sob controle - disse, e desligou.
Abotoou a camisa, pegou a gravata da mo dela, colocou-a em torno do pescoo e deixou as pontas cadas. Vestiu o palet e guardou o celular em um dos bolsos.
- Da prxima vez - disse, em voz baixa - vou desligar esta droga e jog-la no meio do canteiro de ervas.
Alexandra balanou a cabea.
- Escute, Riley, no acho que devemos, ns... no combinamos.
Seus olhos se estreitaram.
- Quanto ns deveramos combinar? No notei nenhuma incompatibilidade crucial entre ns dois agora, e voc?
Alexandra corou.
-  verdade, mas voc est falando de sexo.
- Acertou.
- Isso no  tudo.
Riley riu.
- Tampouco  nada.
- Voc no quer se envolver - lembrou ela.
- Digamos que eu estou preparado para ver at onde isso poder nos levar.
- Mas  exatamente esse o ponto - rebateu, rspida.
- No posso ir em frente porque... - Porque era tudo um impulso, e, alm disso, Alexandra no queria se envolver com um homem que no combinava em nada com aquele que tinha imaginado para seu futuro companheiro. - ...por causa... - Ela no queria ter um caso com ele...
- Por causa desse tal de Gerald com quem voc tem sado?
Ficou calada at que se lembrou de que aquele era o homem com quem supostamente mantinha um envolvimento.
- Graham - corrigiu-o. 
Riley ficou pensativo. Caminhou at a porta, e ela o seguiu, ansiosa para que fosse embora, apesar de no desejar que isso acontecesse. No tinha dito, categoricamente, o que deveria ter dito. Que no haveria uma prxima vez. As palavras simplesmente se recusavam a ser pronunciadas, e ela se odiou por isso. Somente uma mulher fraca deixaria a porta aberta para um homem como aquele, ao invs de fech-la com sete chaves. E era isso o que eventualmente pretendia fazer. Eventualmente? Seria to frgil assim, a ponto de se deixar levar por um frisson? Desgostosa consigo mesma, calou-se.
- O que vou dizer agora  para seu prprio bem, Alexandra - adiantou-se Riley. - Estou vendo que voc est resistindo a pr um ponto final nessa histria do nen, mas eu vou faz-lo. Seu prazo ser at as sete horas da noite de amanh. Se nenhum dos pais aparecer e voc no tiver encaminhado essa criana  polcia, eu notificarei as autoridades.
"Encaminhado  polcia?", "Para seu prprio bem?" Quem ele achava que era?
- Voc parece acreditar que ela  o inimigo pblico nmero um.
- Sete horas, Alexandra.
- Que histria  essa, Riley? O que lhe d o direito de impor limites e estabelecer prazos?
Ele sorriu e coou o queixo.
- Meu nome est no bilhete tambm, lembre-se.
Ela ficou sem fala ao ver como ele usara aquilo a seu favor. O homem era inacreditvel. Seu sorriso era de confiana absoluta.
Alexandra ia dizer alguma coisa sobre sua indignao e independncia, mas Riley escolheu aquele exato momento para peg-la pela cintura e lhe dar uma mordiscada na orelha. Seus lbios eram quentes e midos, e a voz, macia. - Gostaria de ficar, mas voc sabe melhor do que eu que voc no  o tipo de mulher que pode ter dois homens ao mesmo tempo. - Afastou-se um pouco e a olhou.  Vou esperar que voc lhe d a m notcia.
- Que notcia? A quem? - perguntou Alexandra, achando que no havia entendido direito o que ele dissera.
- Gerald, ou Greg, ou seja l quem for ele. - O tom de voz era complacente, como se Riley soubesse, por antecipao, que Graham j pertencia ao passado. Curvou-se e a beijou rapidamente. - Faa isso depressa, Alexandra Page. - Riley saiu.
Ele era o mais arrogante, o mais presunoso, o mais antiptico homem que j conhecera. Um beijo, e j se achava no direito de fazer ultimatos e se comportar como se a conhecesse como um livro aberto. Mas que petulncia!
- Errou, sr. Templeton - disse ela, para si mesma. - Enganou-se comigo.
Ento ele pensava que ela iria se livrar de Graham s por que ele assim o desejava? Claro, ela no estava envolvida com Graham coisa alguma, mas a questo no era essa. A questo era que Riley achava que ela estava. Seu rosto corou. Como se curvara nos prprios joelhos e se entregara como um brinquedinho para a diverso dele! Suspirou aliviada por ter sido chamada  razo pela arrogncia de Riley. Isso tornava as coisas mais fceis.
Foi at o sof e afastou todos os vestgios visveis da cena que se passara ali. Devia muitos .agradecimentos a uma me preocupada, e tambm  barulhenta e intrusa tecnologia. Que maravilhosa inveno, afinal, era o telefone celular!


CAPTULO VI

No foi o juizado de menores que ligou s sete da noite do dia seguinte, e sim a polcia. s seis horas, pela porta de tela, Alexandra viu a viatura policial estacionando na frente de sua casa e se colocou de prontido. Olhou para Brenna, no tapete da sala, balanando vigorosamente o chocalho.
Ento Riley tivera coragem?, perguntou-se irritada. Correu para o telefone, furiosa.. sentindo-se trada. O prprio Riley atendeu ao primeiro chamado.
- S queria lhe dizer quanto o detesto, Riley  sibilou ela. - Voc disse sete horas, e eu pensei que era um homem de palavra, e que eu teria mais uma hora para... para me acostumar com a idia de deix-la... - Ouviu os passos do policial, subindo os degraus da varanda, mas continuou: - Pode relaxar agora. No ter mais trabalho, mais inconvenientes ou crises de remorso. Tenho certeza de que est ansioso para rasgar aquele bilhete, no  verdade? Isso se j no o fez. Pois bem, tenha bons sonhos hoje  noite. - Fez uma pausa para respirar e ento ouviu uma batida forte na porta.
- Alexandra, voc est descontrolada. Acalme-se e tente encarar as coisas de um modo racional ou eu vou ser obrigado a desligar - argumentou Riley.
- Voc disse sete horas! - gritou ela, e bateu o telefone antes dele. Pegou Brenna no colo e foi at a porta, ainda resmungando.
- Boa noite, senhores. Sei por que esto aqui. H algum do juizado de menores com vocs?
Alexandra estava preparada para a visita mas no para encarar a expresso de suspeita do policial nem o modo como ele se dirigiu ao colega:
- A criana est aqui e no est machucada.
Machucada?
Uma hora mais depois, Alexandra estava em uma delegacia em meio a um pesadelo. No deixaram que ficasse com Brenna, apesar do berreiro que a menina armou, durante todo o trajeto, enquanto estava no colo da policial feminina. Quando entraram na sala do delegado, havia l uma mulher em prantos que deu um grito ao ver Brenna e estendeu os braos para ela. Um homem jovem, de cabelos compridos. colocou um brao ao redor dela com ar protetor e beijou a menina.
Alexandra ficou to comovida com a cena do reencontro que precisou de muito autocontrole para no chorar. Fez meno de se aproximar do casal, mas foi barrada pelo policial e pelo jovem pai. 
- Foi ela quem roubou milha filha? - perguntou o jovem, furioso, dirigindo-se a ningum em particular.
Uma senhora de meia-idade que estava atrs dele deu um passo  frente.
-  esta a mulher que seqestrou Savannah? - perguntou para a me.
- Savannah? - perguntou Alexandra. - Ento  esse o nome de... Seqestrou? Como assim, seqestrou?
- Que espcie de mulher  voc? - provocou o homem. Como pode roubar a criana dos outros no supermercado. Voc devia estar atrs das grades.
-Se Pam tivesse tomado conta dela direito, ningum teria chegado perto o suficiente para fazer isso, Jeffie - reclamou a senhora. - No est certo. Muitos querem ter uma garotinha como essa. Muitos passam anos fazendo tratamento e mesmo assim no conseguem. E uma tonta como voc acaba tendo uma criana assim, sem querer!  acusou a mulher, dirigindo-se  nora.
Jeffie balanou a cabea, em sinal de reprovao.
- Eu j lhe pedi, mame, no fale assim com Pam.
A jovem agarrou-se  nen e dirigiu a Alexandra um olhar agoniado, mais de desculpas do que de condenao, como seria de se esperar em uma situao daquelas.
- Escute, eu nunca disse nada sobre seqes... - quis explicar a mulher, mas sua voz foi abafada pela discusso entre o jovem e sua me.
No meio dos dois, um policial tentava apaziguar as partes: - Por favor, sr. Brown, acalme-se - dizia ele.
Mas o jovem sr. Brown no se intimidava. Estava alterado e falava alto.
- Fico uns dias fora, pescando com os amigos, e recebo um telefonema de minha me para eu voltar imediatamente porque ela tinha ido visitar Pam e a nen, e a nen no estava l. Pam no sabia dizer onde a menina estava! Foi s quando cheguei em casa, que Pam me disse que voc pegou nossa filha e sumiu com ela. Ela estava to desesperada que nem pensou em chamar a polcia. Tive eu de ligar, hoje.
- Jeff, eu nunca disse... - Pam tentou argumentar, sem sucesso.
- Todo mundo sente pena de mulheres como voc, mas eu no. Se voc no pode ter seus prprios filhos, isso no lhe d o direito de seqestrar o dos outros. Vou process-la, fique sabendo.
Alexandra olhou para Pam, que abaixou a cabea.
- Calem-se todos1 Vocs esto enganados... Deixem-me explicar por que eu fiquei com o beb.
Naquele instante, ela interceptou um olhar to suplicante de Pam, que silenciou. A jovem mulher olhou para Jeff, depois de volta para Alexandra e fez um gesto discreto com a cabea que poderia ser entendido por qualquer mulher do mundo, como um pedido de ajuda.
Alexandra ficou imaginando por que ela estaria tentando lhe passar essa mensagem silenciosa j que era bvio que Jeff no sabia que ela havia deixado a filha na porta de uma estranha. A menos que Pam estivesse tentando lhe dizer alguma outra coisa.
Alexandra estudou o rosto enfurecido do jovem pai que intimidava a esposa apenas com o volume da voz. Olhou depois para a me dele, que continuava acusando a nora.
- A pobrezinha vive doente porque voc nunca a amamentou e nem a batizou ainda, o que  um pecado mortal, sem falar no nome, Savannah. Nem posso imaginar de onde tirou esse nome ridculo.
Alexandra encolheu-se. Havia muitas emoes entre aquela famlia. Imaginou como seria a vida de Pam, criticada o tempo todo, incapaz de assumir que deixara a criana na porta de uma pessoa estranha, forada a mentir para explicar a ausncia da filha para a sogra obsessiva que a qualificava o tempo todo como irresponsvel.
Pelo que entendera da discusso toda, Jeff achava que a nen estivera fora de casa s naquele dia. Imagine o que faria se soubesse a verdade! Poderia at perdoar  mulher por no ter cuidado da filha corretamente enquanto estava ocupada com as compras do mercado, mas nunca lhe perdoaria se soubesse que ela mentira para ele, e, ainda mais, publicamente.
Alexandra pensou em um instante de racionalidade que aquele no era um problema que lhe competia resolver. A garota havia abandonado a filha, e isso no se justificava nem pela desculpa de ter uma sogra neurtica. Talvez a criana ficasse melhor nas mos do Estado. Talvez a me necessitasse de aconselhamento ou ajuda psiquitrica. Por que motivo ela teria de encobrir o ato daquela jovem? Mas o corao falou mais alto.
- Escutem... - tentou se explicar, pensando rapidamente em uma boa histria que justificasse um roubo de criana em supermercado sem incriminar a si prpria e sem comprometer Pam. Mas, desesperada, .sem encontrar um argumento plausvel, s o que conseguiu fazer foi sentar, cruzar os braos e dizer: -  tudo um engano. No vou declarar nada sem a presena de meu advogado.
O policial apressou-se a explicar que aquilo no era necessrio, j que ela no estava presa at aquele momento, apenas intimada. Mas ela insistiu, e como no havia privacidade para falar ao telefone, tentou se ater s explicaes bsicas.
- Ah... Alexandra - respondeu Riley do outro lado da linha. - Ligou para terminar o massacre? Sinto dizer que s tenho cinco minutos para atend-la. Acha que ser suficiente?
- Riley, estou na delegacia. Os pais de Brenna, Jeff e Pam, e a av, Anna Brown, apareceram. Eu estou sendo acusada de seqestro. Preciso de ajuda, Riley.
No era o que pretendia dizer, mas inadvertidamente as palavras ganharam vida prpria. Pretendia apenas ganhar tempo com o telefonema at pensar em uma sada. 
Depois de uma pausa rpida, Riley respondeu: 
- Jeff e Pam? Qual delegacia? - perguntou em um tom de voz firme, que inspirou confiana.
Alexandra explicou rapidamente o local para ele. Sentia-se mais tranqila depois de ouvir as doces palavras que revelavam uma certa preocupao em ajud-la. 
- Estou indo para a. 
Passaram-se alguns minutos. Uma mdica chegou para examinar a criana. As pessoas olhavam curiosas para Alexandra. Estariam pensando que ela machucara a menina?
A famlia, que acompanhara a mdica e a criana na consulta em uma sala ao lado, voltou ao mesmo tempo em que Riley chegava a delegacia. Alexandra, pela primeira vez, sentiu-se alegre ao ver sua figura alta, suas feies frias e estudadas. Ele suspirou profundamente e abriu um largo sorriso quando a viu. Mas a resposta que obteve foi um irnico torcer de lbios que deu um fim instantneo a sua alegria.
Riley voltou-se para examinar Pam, que estava lvida. Jeff continuava a esbravejar e, naquele momento, levantou um dedo acusador na direo de Alexandra.
- Espero que a senhorita possa pagar um bom advogado, porque pretendo process-la e no vou desistir at que a veja atrs das grades! 
-Acho que podemos esclarecer isso tudo imediatamente - disse Riley, quando o delegado de planto entrou na sala. Procurou alguma coisa dentro do bolso de seu palet e tirou de l dois pedaos de papel.
Pam empalideceu e procurou onde sentar-se.
Por um instante, ficaram. todos quietos, olhando para a mo autoritria de Riley. Ento Alexandra correu at ele, agarrou os dois fragmentos de papel e os picou em pedacinhos.
Riley gritou:
- O que est fazendo, posso saber? - Tentou ainda catar os pedacinhos que caiam, e conseguiu segurar o maior. Mas Alexandra o arrancou da mo dele e o picou tambm. Ia jogar tudo na lata de lixo, mas uma sbita viso da policial e da me de Jeff tentando recompor a nota, fez com que optasse por guardar os papeizinhos no bolso. Depois encarou fixamente Riley com um olhar significativo. Ele tinha olhos to bonitos! Quase esqueceu o que pretendia dizer.
- Tudo isso  um incrvel mal-entendido, sr. Templeton. Nem deveria t-lo chamado, porque no era necessrio. Eu estava apenas tomando conta da nen para Pam, sabe... - disse ela, rezando para que ambos, ele e Pam, completassem a frase com alguma coisa que soasse lgica. - Eu a encontrei no supermercado para pegar Bre... quer dizer, Savannah. - Quando se voltou para Pam, viu que Riley piscava e repetiu para ele, com os lbios, o nome Savannah.  Por qu, pelo amor de Deus, voc achou que eu tinha seqestrado sua filha, Pam?
O corpo de Pam descontraiu-se, em um visvel alvio, para se contrair de novo, logo em seguida.
-  que... Eu nunca disse que voc a seqestrou... O que realmente aconteceu foi que... 
-Vamos, Pam! - incentivou Alexandra. Viu que a garota no seria capaz de dar seqncia  histria. Tirou ento do bolso os pedacinhos do bilhete e abriu a mo de modo que Pam pudesse v-los bem.
- Bem...  que ns combinamos que eu buscaria a menina em sua casa, e eu fui l e... 
- ...e eu no estava -completou Alexandra, por ela. Riu. - Claro que eu no estava l. No se lembra? Eu lhe disse, quer dizer, perguntei, se podia levar Bre... quero dizer Savannah para passear.
- Passear onde? - quis saber Jeff.
- Oh... no... - Alexandra engoliu em seco. No era boa em mentiras. Precisava de tempo para encontrar uma desculpa plausvel. Olhou para Riley.
- At a casa de sua me - disse ele, suavemente.
Alexandra piscou, aliviada. Com multa segurana, Riley se virou para as pessoas e disse:
- A me da srta. Page  uma famosa retratista, Rhona Thompson. Ela precisava de uma modelo infantil para posar para um quadro. E sua filha... - inclinou-se para Jeff - ...mostrou ser uma excelente modelo. A sra. Thompson fez vrios desenhos dela, mas claro que, se decidir us-los em um quadro, vai pedir primeiro sua permisso.
Aquele homem era mesmo brilhante. Ningum ali duvidaria das palavras dele, tamanha a calma e propriedade com que as pronunciara. O efeito foi rpido. Jeff, subitamente sabendo-se pai de uma criana cuja imagem poderia ser perpetuada para a posteridade em um quadro de um artista famoso, logo aquiesceu.
- Creio que no me expliquei direito com Pam - retomou Alexandra. - Talvez ela tenha entendido que eu iria levar Savannah ao estdio de minha me em um outro dia.
- Foi isso mesmo - confirmou Pam.
- Como pde entender errado uma coisa simples dessas? - interveio a sogra.
-Claro que todos aqui sabem que h uma semana, a srta. Page foi condecorada pela polcia com uma medalha de bravura - disse Riley, olhando em volta para se certificar de que mantinha presa a ateno da platia. - Ela resgatou trs crianas de um incndio, no ano passado, e  considerada uma herona em nossa sociedade.
Alexandra sentia o olhar de Riley sobre si e virou o rosto para outro lado, desconfortvel com o elogio inesperado.
- Achei mesmo que seu nome soava familiar - disse a policial feminina e sorriu. - Voc saiu na primeira pgina dos jornais.
Jeff, embaraado, virou-se para Pam:
- Como voc nunca mencionou isso? Onde conheceu a srta. Page? - perguntou ele.
A garota olhou para Alexandra, pedindo socorro.
- Em minha livraria - respondeu rpido.
Jeff ento realmente pareceu surpreso.
- Livraria?! - repetiu ele. Estava claro que Pam no freqentava livrarias.
- Tenho um setor especializado em livros sobre cuidados com crianas - explicou ela, pela primeira vez sem precisar mentir, naquela noite.
- Oh... - Jeff olhou orgulhoso para a me, depois para Pam. - Voc deveria ter dito quem era a srta. Page, e eu teria esperado um pouco mais antes de chamar a polcia.
- Tentei lhe dizer... mas sua me... Bem, voc e sua me gritam demais e nunca me escutam.
Jeff pareceu constrangido.
- Uma artista famosa quer pintar nossa menina, e voc nem me conta nada? - acusou ele, desconfiado.
Alexandra fechou os olhos. Quanto tempo mais duraria aquela tortura?
Pam chorou desesperadamente.
- Queria fazer uma surpresa - disse ela por fim.


CAPTULO VII

Foi Riley quem tirou todos da delegacia depois de uma conversa simptica com um delegado que estava ansioso para se ver livre daquela confuso. Foi Riley quem chamou um txi para a me de Jeff e foi ele tambm quem consolou Jeff com seu ressentimento, e Pam, com sua culpa, enquanto Alexandra se debatia em um sentimento de alvio e outro de desolao.
- Obrigada... de corao - sussurrou Pam no ouvido de Alexandra, quando as duas se despediram. - Ela se comportou bem? Espero que no tenha lhe dado muito trabalho... s vezes fica muito manhosa.
- Trabalho?! Claro que no... S tive fechar a livraria mais cedo dois dias e reorganizar toda minha rotina e minha casa. No foi nada, trabalho algum... - respondeu Alexandra, subitamente irritada com a jovem me. Ser que Pam tinha aproveitado bem sua folga enquanto ela, Alexandra, tomava conta da filha? Viu as unhas rodas da garota e subitamente acalmou-se.
- Dei a ela leite de cabra nesses dois dias. Ela o aceitou melhor do que o leite de vaca.
- Dois dias? - perguntou Jeff, seu ressentimento transformando-se de novo em suspeita. - Pensei que voc tinha ficado com Savannah s hoje.
Alexandra olhou para Pam. A garota teria de contar a ele a histria toda, mais cedo ou mais tarde. Preferiu optar, naquele momento, por uma resposta evasiva:
- A mim me pareceram dois longos dias.
Riley virou-se para olh-los. Estavam no estacionamento, no ar fresco da noite, ouvindo o canto dos grilos.
- Silncio! - exclamou ele, e o tom de sua voz foi to impositivo que at os grilos se calaram. - Vamos at meu escritrio resolver isso de uma vez por todas - ordenou.
Jeff abriu a boca, espantado, mas o olhar de Riley impediu que ele dissesse alguma coisa.
- E agora! - completou. - Entrem no carro!
Abriu a porta de trs para o jovem casal se acomodar e protegeu a cabecinha da nen quando Pam se abaixou para entrar. O gesto comoveu Alexandra. Sua raiva era to vibrante quanto o cantar dos grilos, mas sua mo protegia gentilmente a criana e a me dela.
Abriu a porta da frente para ela que sorriu, apoiando instintivamente a mo em seu brao.
- Obrigada por tudo, Riley. Voc foi maravilhoso esta noite. Resolveu tudo to rpido... Eu no saberia o que fazer se voc no tivesse vindo. Acha mesmo que  uma boa idia irmos todos a seu escritrio agora? Voc sabe, eles esto emocionalmente abalados, e J est na hora de o beb tomar banho e...
Riley afastou a mo dela de seu brao e foi incisivo:
- Entre! - pediu, lbios cerrados.
Alexandra piscou, assustada. Esperava que ele fosse mais receptivo ao agradecimento, mas Riley parecia mais enfurecido com ela do que com o casal.
- Por que est to bravo comigo? - choramingou.  O que aconteceu esta noite no  culpa minha.
Os dentes dele continuavam cerrados, as mandbulas tensas.
- E voc, por acaso, percebeu o que no aconteceu esta noite, srta. Page?
- No! O qu?
- O caso no foi esclarecido. O autor daquele bilhete que voc andou esfregando em meu nariz com montona regularidade nem se apresentou.
Alexandra mordeu o lbio, constrangida, comeando a pensar na hiptese de ter agido errado. Apontara aquele bilhete para ele como uma arma, invadira sua privacidade, tudo para cham-lo  responsabilidade. Seria ele mesmo o Riley do bilhete?
- Talvez seja um outro Riley - lamentou com voz fraca.
- E voc me forando a pensar que era destino ou alguma coisa semelhante que colocou nossos nomes juntos naquele papel... Vamos, entre logo - disse ele, seco.
Ela entrou no carro e pisou em uma sacola grande de papel, de uma famosa loja de departamentos. Riley, resmungando alguma coisa, puxou o pacote com um gesto rude e rpido, mas no to rpido a ponto de impedir que ela visse o que havia dentro.
- Um urso de pelcia? - perguntou Alexandra, olhando para ele, espantada. Riley bateu a porta, furioso, e no respondeu.
No olhou mais para ela e nem para nenhum dos outros passageiros do carro. Manteve-se calado durante todo o trajeto at o escritrio. Quando chegaram, Riley se ps a caminhar  frente do grupo pelos largos corredores do frum, cumprimentando, com um gesto cordial de cabea, o pessoal da faxina. J dentro de sua sala, puxou a poltrona de couro de trs de sua escrivaninha e indicou com um gesto as cadeiras para que os trs se sentassem.
- Sua filha... - comeou ele, dirigindo-se a Jeff sem meias-palavras - ...foi deixada na porta da casa da srta. Page dois dias atrs.
Pam soluou e comeou a chorar. Jeff ficou boquiaberto.
- E antes que comece a criticar sua esposa, vai ouvir, sem interrupes, as razes dela para ter agido dessa forma.
Passaram-se alguns segundos. Pam chorava tanto, que mal conseguia segurar a nen, e Alexandra se ofereceu para faz-lo. A histria veio aos pedaos. Os pais de Pam viviam em Victoria e no tinham condies de vir a Queensland para ajudar a filha. Os pais de Jeff, mais particularmente sua me, achavam que ela era muito jovem e despreparada para cuidar de um nen e queriam tirar Savannah dela para criar a menina.
- Quantos anos voc tem? - perguntou Riley.
- Quase dezoito. - Pam silenciou por um tempo e depois retomou a fala. - Todos vivem me dizendo que sou muito nova para educar um filho. At parei de ir ao centro de sade porque eles me faziam sentir uma idiota. Todo mundo ficava elogiando os outros bebs e tratando o meu como se tivessem pena dele.
Pam contara que enquanto Jeff viajava, Anna Brown dissera a ela que havia dado queixa dela ao Juizado de Menores alegando que era uma me incapaz, e que eles poderiam vir pegar a nen nos prximos dias, a menos que ela entregasse a criana aos cuidados dos avs. A gota de gua foi quando Anna Brown entrou e tentou tirar a nen do bero. Pam teve de lutar para impedir que a av a levasse.
- Voc deu uma chave de nossa casa para ela - disse, dirigindo-se a Jeff. - Eu pedi tanto que no fizesse isso...
- Ela provavelmente s queria brincar um pouco com a menina - defendeu-se ele.
- No era essa a inteno dela. Ela estava com uma cadeirinha de nen, dessas de pr no carro. Eu no sabia o que fazer. Voc no estava. Achei que ia enlouquecer - disse Pam, o nariz escorrendo. - Se sua me a levasse, a assistente social poderia achar que eu no queria ficar com minha filha. Voc certamente ficaria do lado de seus pais, e eu nunca mais a teria de volta.
- Eu no faria isso nunca! - defendeu-se Jeff, horrorizado.
- Por que voc no chamou a polcia, Pam? - quis saber Riley.
- No queria colocar a me de Jeff em apuros. Ela sempre quis ter uma filha, e como no conseguiu, fixou-se na neta. Acho que nem sabia o que estava fazendo.
Quando a jovem se acalmou, Riley chamou um txi pelo telefone e, enquanto esperavam por ele, explicou a Pam os direitos legais que ela tinha como me, e indicou um psiclogo para Anna Brown consultar, se conseguissem persuadi-la a faz-lo. Foi Jeff quem tirou a nen do colo de Alexandra na hora de sair. Da porta, Pam voltou-se e acenou para eles, agradecendo. 
De repente, no havia mais ningum na sala. Riley ficou parado, olhando a porta.
- Bem... - comeou Alexandra, enxugando os olhos que insistiam em ficar midos. - Acabou!
Riley fechou a porta, tirou o palet, jogou-o na cadeira ao lado e ps as mos nos quadris.
- Voc enlouqueceu, Alexandra?  viciada em adrenalina ou coisa parecida? Por que no pratica alpinismo sem corda?
- O qu?! - Alexandra no entendeu nada. Fungando, procurou por uma folha de leno de papel em sua bolsa.
Ele se aproximou, pegou-a pelos dois braos e a forou a olh-lo.
- Voc no percebeu a complicao em que se meteu, mocinha? Uma acusao de seqestro  uma coisa muito sria. - Deu-lhe outro chacoalho, como para se certificar de que ela o tinha ouvido.
Alexandra fungou de novo.
- Voc poderia estar presa - gritou ele.
Limpando o nariz, Alexandra abriu um sorriso.
- Sei disso. Foi por isso que liguei para voc, Riley. E voc foi timo... 
- timo?! - vociferou ele, soltando-a. Segurou o n da gravata e virou a cabea de um lado para o outro enquanto desfazia o lao e afrouxava o colarinho. - Voc me colocou em uma posio delicada, de desrespeito s leis, sabia? Foi isso o que me forou a fazer - prosseguiu, o dedo em riste no rosto dela. - Por que insistiu em bancar a Mary Poppins para proteger uma senhora, neurtica de meia-idade e uma mocinha estpida que deveria estar na escola ao invs de brincando de me? Preferiu se envolver e correr srios riscos, ao invs de deix-los sofrer as conseqncias de seus prprios atos! Sabia que voc poderia ter pago a conta ao invs deles?
- Por um momento, l na delegacia, fiquei muito preocupada mesmo - admitiu ela. - Mas no podia deixar a pobre Pam ser acusada de ser uma me desalmada. Viu como ela tentou proteger a pattica sra. Brown?
- Pobre Pam, pattica sra. Brown... - disse ele, irritado. - A garota no tem idade para arcar com a responsabilidade de criar uma filha e a tal sra. Brown  uma mulher doente.
Alexandra concordou com um gesto de cabea.
- Concordo. No dever ser fcil ter desejado tanto uma filha a ponto de perder o bom senso e querer privar a nora de criar a sua prpria criana.
Riley andava de um lado para outro, nervoso. Uma estranha melancolia tomou conta de Alexandra. Sentia muito carinho por Riley, apesar da raiva evidente dele, que, dobrando as mangas da camisa, lanou-lhe um olhar acusador. - "Eu estava s servindo de bab para Pam... Voc no lembra? Perguntei se podia sair com Savannah..." - arremedou ele.
- Foi nessa hora que eu engasguei - confessou Alexandra. - Quando Jeff perguntou onde fui com a menina, no consegui pensar em resposta alguma. Voc teve uma sacada genial, Riley respondendo sobre minha me e o retrato.
- Dispenso os elogios -irritou-se ele ainda mais. - O ponto  que voc se meteu em uma encrenca, mentiu para a polcia e ainda por cima destruiu a nica evidncia de sua prpria inocncia. 
- Mas eu tinha certeza de que voc me tiraria dessa confuso. No s eu, mas todos ns.
Mas a f que Alexandra mostrou ter nele produziu um efeito negativo.
Ele apoiou as mos nos ombros dela. Com o rosto contrado, os olhos faiscantes e a voz de trovo, destacando bem cada slaba que pronunciava, Riley disse, em voz baixa:
- Escute aqui, mocinha. Eu sou um advogado. Meu pai foi um advogado e o pai dele tambm. Vou poup-la de ouvir os outros advogados da famlia de minha me. Tenho de salvaguardar minha prpria reputao e o nome deles, e no posso mentir nem enganar as autoridades. Permiti que aquele maldito bilhete fosse picotado na frente da polcia, enquanto havia uma acusao de seqestro e voc agia como uma irresponsvel.
Ele abalanava para a frente e para trs, furioso.
Ela sentia-se zonza e confusa.
- Voc no tem obrigao alguma de entrar em todos os prdios que esto em chamas, sabe.  muita pretenso sua achar que tem de ser a herona que salva todos aqueles que complicam suas vidas.
Alexandra empalideceu.
- Isso no  verdade.
- Se eu no tivesse interferido hoje, voc, agora, estaria sentada em uma lanchonete, despejando sua comiserao sobre os jovens, encorajando-os, praticamente convidando-os a depender de voc quando estiverem em crise. E  engraado como as crises se multiplicam quando se tem costas quentes. No entendo por que voc age assim...
- Ser que ouvi direito? O dr. Riley Templeton no sabe tudo, ento? - perguntou ela.
- Talvez seja essa a maneira que voc encontrou para se destacar em uma famlia de gente talentosa, srta. Herona - rebateu ele.
Foi um duro golpe, e Alexandra ficou sentida com aquele comentrio.
- Voc tem razo - respondeu ela, em voz alta e clara. - Eu no herdei mesmo o talento de minha famlia, mas se voc pensa que acreditei naquela baboseira que escreveram sobre mim nos jornais, est redondamente enganado. Entregaram a medalha de bravura a uma impostora. Quando vi o incndio, meu primeiro impulso foi correr, assustada.
- Usei esse episdio apenas como exemplo. No que eu duvide de que as crianas foram realmente resgatadas...
- Eu me lembro de ter ficado furiosa por no ter mais algum por perto e ter de fazer alguma coisa para salv-las - prosseguiu ela, subitamente aliviada da vergonha que carregava consigo desde aquele dia. - Eu... eu no queria me envolver.
- Ah... agora estou comeando a entender - disse Riley.
- Lembro que gritei para saber se havia algum l dentro. Ainda pensei: espero no ter de entrar no meio dessa fumaa seno terei uma crise de alergia. 
Riley respirou fundo.
- Ento quando um beb foi deixado em sua porta com um apelo desesperado de uma me, voc imediatamente achou que devia se envolver, para compensar esse ocorrido.
- Se houvesse algum por perto, qualquer pessoa, eu no teria me aventurado e por isso fiquei esperando ser desmascarada como uma fraude durante toda a cerimnia de entrega da medalha. Pode me chamar de covarde e de hipcrita por ter recebido :uma medalha que no merecia, mas no se atreva a me chamar de herona.
Riley riu alto e olhou para o teto. No era a reao que ela esperava.
- Eu gritava mais do que as crianas que tirei casa. Desmoronei, na frente dos jornalistas, exausta - continuou ela, sentindo um estranho prazer em expor cada um dos detalhes vergonhosos.
- A imprensa costuma causar essa reao nas pessoas - comentou Riley.
Ela riu alto.
- De qualquer modo, fosse qual fosse minha motivao para agir como agi hoje, ningum o forou a compactuar comigo. Ningum o pressionou para inventar a histria do passeio e do retrato.
- Voc est querendo dizer que eu tinha escolha, depois de voc dizer: "Oh Riley, preciso de voc?" e de olhar para mim com esses olhos arregalados e praticamente me implorar para fazer algo?
- No implorei coisa alguma - disse ela, satisfeita por saber que ele se rendera ao seu olhar. Aquele era um dado gratificante, e ela pensaria sobre ele mais tarde. Por ora, o que importava  que ele tinha deixado escapar uma informao importante. Sentindo-se triunfante, Alexandra deslizou o indicador pelos ombros dele.
- Ento  por isso que est to bravo. Por que se deixou envolver por minha conversa e meu olhar, ao invs de agir em conformidade com as leis. Mas no pode me culpar por isso, doutor.
- No posso? - perguntou Riley, segurando a mo dela, antes que Alexandra pudesse escond-la. Seu outro brao a enlaou pela cintura e ela foi puxada de encontro a ele com um gesto autoritrio, que no admitia objees. Bastava piscar para que ele a soltasse, ela sabia. Alexandra aspirou o aroma daquele corpo e olhou fixamente dentro dos olhos maravilhosos. Sem piscar.
A voz de Riley ressoou na sala enquanto falava, olhando fixamente para os lbios dela.
- No me interessa o que pensa a esse respeito, mas deveria ter dito  polcia que fora condecorada com aquela medalha.
Alexandra deslizou os dedos pelo colarinho dele. Sentiu a pele do pescoo e dos ombros, por dentro do tecido fino. Com ar ausente, deu de ombros.
- No parecia importante.
Riley deu um suspiro curto e a segurou pelos ombros. Estavam nus, exceto pela tirinha fina do top. Alexandra tremeu.
- Voc tambm no achou importante dizer que o retrato de meu pai havia sido pintado por sua me.
- E o que isso tinha a ver com nosso assunto?
Riley escorregou os lbios pelo pescoo dela e pelos ombros.
- Esse tipo de coisa funciona como credencial: nome de famlia, medalhas.  assim que as coisas funcionam.
- No sei o que a informao sobre uma medalha poderia acrescentar a uma confuso em uma delegacia, envolvendo o rapto de um beb - disse Alexandra, sem ar. - E voc teria me ajudado de boa vontade se eu tivesse apontado para o retrato e dito: "Foi minha me quem pintou isto"?
- Era um fator do acaso que voc poderia ter usado a seu favor. Sua me pintou o retrato de meu pai muito antes de ns nos conhecermos. Isso cria um passado entre ns, uma histria. Faria soar como menos louco o fato de o meu nome aparecer em Um bilhete trazido por voc... como se fosse destino, ou algo assim.
As mos dela acariciavam a nuca de Riley.
- No acho que voc ia se deixar levar por algo to irracional assim, Riley.
- Mas voc poderia ter tentado, pelo menos. - Ele sorriu. - Era uma boa idia para ganhar alguns pontos de vantagem - argumentou ele, baixando as alcinhas do top e em seguida a pea toda. Agora, mos fortes acariciavam seus seios nus. Riley gemia de prazer, e esses sons ecoavam pelo escritrio. Com a ponta dos dedos acariciou os mamilos dela. Alexandra sentiu que estava sendo pressionada contra a escrivaninha. Apoiou-se nela. - Uma boa idia  repetia ele, rouco de desejo.
Deitou-a em cima da escrivaninha, jogando no cho, com um nico gesto, os papis que estavam l, que voaram como pombos e caram no tapete. Alexandra associou o barulho das folhas  deliciosa sensao de ter os lbios de Riley brincando em seus seios.
- Oh,Riley... - suspirou ela, achando que ia desmaiar de tanto prazer. Mergulhou os dedos nos fartos cabelos negros dele e deixou-se levar pelo momento. De algum outro lugar vinha o som de uma televiso com volume baixo. Uma voz respondendo a outra. Um som estranho, que parecia mais ntido e audvel a cada instante. Na verdade, percebeu que as palavras vinham do outro lado da porta.
- ...pode deixar para limpar depois, porque, meu filho est trabalhando at mais tarde e...
Alexandra tremeu. Riley ps-se imediatamente em p como se obedecesse ao comando de um sargento. Alexandra fez o mesmo, arrumando os cabelos.
- Preciso achar rapidamente alguma coisa para ela fazer - Riley murmurava para si mesmo. - Escalar o Everest, cruzar o planeta de barco, qualquer coisa que desvie a ateno dela de minha vida. Quarenta e cinco comits de solidariedade parecem no ser suficientes para acabar com a energia de minha me.
- ...e provavelmente est trabalhando sem ter comido no ? Portanto, assim que chegar em casa, querido, trate de pr alguma coisa no microondas - disse ela, entrando, sem notar Alexandra. Quando isso aconteceu, parou de falar. Olhou para o filho, de novo para Alexandra, sem deixar transparecer qualquer emoo.
- Nossa... - disse, olhando para Alexandra, como se acabasse de surpreender Riley com a empregadinha da casa. Ento, concentrando toda sua ateno no filho, disse: - No  muito correto isso, Riley. Voc sabe que no deve permitir a entrada de uma mulher em seu escritrio quando os empregados no esto. Voc fica vulnervel a... a todo tipo de problema.
Alexandra agarrou sua bolsa. Por um instante, pensou que a senhora ia dizer alguma coisa sobre doenas.
- Desta vez voc no veio com o beb! - comentou a sra. Templeton, e era difcil saber se ela achava isso bom ou ruim. Por um lado, a criana significava ameaa  paz do local, por outro, manteria a visita e o filho dela ocupados em outras atividades que no a que ela suspeitava. O rosto de Alexandra estava em brasa. Sentia-se tola, adolescente, incompetente para lidar com a esnobe me de Riley.
- Espero que vocs tenham... bem... resolvido o caso da criana, senhorita... 
- Page... - apressou-se a responder Alexandra. - Resolvemos sim. Por isso mesmo eu j estava de sada.
A mulher empertigou-se, com ares de superioridade.
Se havia uma hora certa para Alexandra tirar alguma vantagem da situao, era aquela. Ao caminhar na direo da porta, passou pela sra. Templeton e com ar distrado apontou para o retrato do marido dela:
- No sei se comentei antes, mas foi minha me quem pintou aquele quadro.
A velha senhora levantou uma sobrancelha, a hostilidade amainada pela meno de um nome conhecido. Alexandra lanou um olhar furtivo para Riley e saiu.
Pensou em tomar um txi mas como havia pouco movimento nas ruas e talvez algum txi demorasse a passar, resolveu ir caminhando sob a chuva fina, at a loja. Cansada, vagou por entre as prateleiras, olhando para aqueles velhos livros, separando alguns que estavam com as folhas soltas. Sentiu-se deprimida, como acontecia s vezes depois que tomava muito champanhe, quando as bolhas e as risadas paravam, e o lcool chegava ao fgado.
Fazia muito tempo, alis, que no tomava champanhe. Mas j tivera muitos aborrecimentos naquele dia e talvez no suportasse uma ressaca. Parou em frente a estante de Histria Natural e fechou os olhos. Refletiu. O que acontecia com eles? Parecia que no conseguiam ficar perto um do outro sem se tocar.
Se Fiona Templeton no houvesse entrado no escritrio como um anjo da guarda de espada em punho para defender o filho, o pessoal da limpeza poderia ter uma surpresa e tanto ao descobrir que ela e Riley tinham ido muito alm de uma conversa sobre negcios. Que horror! Mesmo assim, alguma coisa dentro dela dizia que no importava o que o pessoal da limpeza e a me dele pensavam.
Distraidamente, tirou um livro de biologia, da prateleira. Naquele instante, ouviu algum bater na vitrina. Foi at a porta, afastou o cartaz de "Fechado" e viu que era Graham do outro lado, as duas mos ao lado do rosto, colado ao vidro.

- Tive de trabalhar at mais tarde hoje, e arrisquei passar aqui enquanto fazia meu cooper - disse ele, quando a porta foi aberta. Usava short de corrida, uma camiseta, e a pele bronzeada estava mida de transpirao.  Corri j uns vinte quilmetros, passei pelo Albert Park, e estava do outro lado da rua quando vi as luzes da livraria acesas.
- Ol, Graham - cumprimentou ela, abrindo a porta um pouco mais para que ele pudesse entrar. Graham adorava dar detalhes sobre suas maratonas dirias, e ela se aborrecia com aquilo, mas sentiu-se at contente por ele ter aparecido para distra-la. - Quer um caf?
Graham recusou, e Alexandra lembrou-se que ele no tomava caf por causa da cafena que interferia no batimento cardaco, coisa que ele tinha de evitar j que estava treinando para a sua prxima competio. Preferiu tomar uns goles de gua da garrafinha que carregava e espiar o livro que Alexandra segurava.
- Ah! - exclamou ele, com entusiasmo. - Esse  um livro muito interessante, sobre a teoria da evoluo das...
Tinha chegado a seu segundo assunto preferido. Enquanto falava, ponderando sobre os mistrios da atrao fsica, Alexandra se ps a marcar o preo do exemplar em uma etiqueta. Ali estava Graham, considerado um gato pela equipe feminina da loja vizinha, usando pouca roupa; a musculatura brilhando de suor, os dentes perfeitos aparecendo a cada sorriso, e ela com a cabea em outro lugar.
Estava naquela escrivaninha... deitada em cima de uma antigidade. Com o retrato do pai dele, pintado pela sua me, servindo de testemunha. Era como uma reunio familiar, mas ainda assim no se sentiu envergonhada e liberou toda sua sensualidade.
Graham veio atrs dela, apontando para um grfico.
- Veja isso... um maravilhoso desenho da mo humana com o dedo, que permitiu a nossos primeiros antepassados executar tarefas complexas.
Ela o fitou com um olhar vago.
Graham devolveu-lhe o livro, tomou o prprio pulso e disse que precisava seguir porque ainda tinha de correr mais vinte quilmetros.. Falou qualquer coisa sobre o dia seguinte  noite e a hora que ela sairia, e ela concordou em ir com ele ao cinema. Depois do cooper. Quase o chamou de volta para dar uma desculpa qualquer e dizer que no ia, mas Graham j estava longe.
Alexandra suspirou e disse a si mesma que j estava na hora de voltar  rotina de antes.
Brenna estava de novo com os pais, e tudo se resolvera bem. Poderia no ser o nome de Riley no bilhete. Ela e ele tinham entrado nisso apenas por engano. O melhor afazer era esquecer aquela histria. Logo, seria apenas um fato passado.
Lembrou-se de um dia quando sua me estava pintando uma marina em uma tela branca e que cara um pingo de tinta vermelha.
- Uma vez que esteja a, no importa quanto voc tente encobrir esse pingo, ele sempre estar a - Rhona havia dito a ela. O pequeno pingo de tinta vermelha no poderia jamais ser neutralizado. Influenciaria todas as cores pintadas sobre ele e deixaria a pintura totalmente diferente.
Alexandra tomou um nibus para casa. Havia um perfume de flores no ar quando desceu e comeou a caminhar at sua casa. Pensou em Brenna, naqueles dois dias, e se sentiu estranha. Pensou na av de Brenna e em sua obsesso pela filha que nunca teve. Pensou em Riley e nos impulsos incontrolveis que poderiam, de um instante para outro, desviar uma pessoa para um caminho que ela nunca pensara em trilhar. Um caminho extico, que prometia aventura e gratificao mas que provavelmente terminaria na beira de um precipcio.
Antes de entrar em casa, tirou os pedacinhos de papel do bolso. Uma corrente de vento carregou-os para o alto.






CAP TULO VIII

Graham tinha um jeito todo especial para descrever coisas agradveis de maneira tcnica e fria, a ponto de torn-las sem graa. Certa vez, durante um passeio na praia, quando Alexandra elogiou a beleza do reflexo do sol na gua, ele disse:
-  que a luz, Alexandra, refletida na gua, entra em sua pupila a uma velocidade de dez trilhes de partculas por segundo, desencadeando uma reao bioqumica que...
Durante os dois dias que se seguiram ao reencontro de Brenna com os pais, Alexandra desenvolveu uma nova sensibilidade ao toque do telefone. Cada vez que ele tocava, a garganta secava, as mos ficavam trmulas e o pulso disparava. Graham creditaria aqueles sintomas a uma descarga extra de adrenalina na circulao sangnea ou coisa semelhante.
Mas o que ningum poderia explicar, nem mesmo Graham, era por que Riley Templeton, um homem que ela conhecera havia apenas alguns dias, estava afetando daquela maneira seus hormnios. Por que era a voz dele que Alexandra esperava ouvir a cada vez que atendia o telefone?
Tinha, claro, treinado o que iria responder: "Riley, no acho que seja uma boa idia continuarmos anos ver ." Ou: "Riley, vamos levar em conta a possibilidade de no ser voc a pessoa citada no bilhete, o que significa que nosso encontro foi um equvoco."
Sim, tinha tudo sob controle. Sabia que queria um homem que a valorizasse por todas suas qualidades e no apenas pela atrao fsica. E filhos. Queria ter filhos. Claro que era tentador considerar a possibilidade de um caso com Riley, mas sabia que isso s poderia resultarem trs coisas. Um: aproveitar todos os prazeres de ter Riley como amante, dar-lhe um beijinho de adeus e sentir-se satisfeita com isso. Dois: Riley aproveitaria todos os prazeres de ter a ela como amante, e a deixaria de lado assim que se cansasse. Trs: Riley no se cansaria dela e ento teria de reconsiderar a idia de ter uma famlia para pensar apenas em ter um companheiro.
A alternativa nmero um estava fora de cogitao. A trs era uma possibilidade, mas no valia o risco. A dois era a mais provvel. Isso, se Riley desse sinal de vida, o que no aconteceu nos dias seguintes. Clientes ligaram. Sua me ligou. O mecnico ligou, avisando que a van no ficaria pronta. Pam tambm ligou para agradecer-lhe, contar que a me de Jeff aceitara conversar com uma psicloga e para dizer que Savannah estava se dando muito bem com o leite de cabra.
- Alexandra, ser que se importaria se lhe pedisse mais um favor? - perguntou Pam, receosa da resposta da outra. 
- Bem, voc na verdade, tambm no o fez na primeira vez... - comentou Alexandra, tendo que agentar de novo uma enxurrada de desculpas.
-  que vamos batizar Savannah e gostaramos de convid-la para madrinha. Por favor, aceite... Jeff ligou hoje de manh para o dr. Templeton para convid-lo tambm.
O corao de Alexandra disparou  simples meno do nome dele. Deveria haver alguma explicao biolgica para isso!
- ...mas ele recusou - prosseguiu Pamela, a voz em tom de mgoa. - Queramos tanto que fossem vocs dois os padrinhos, mas eu acho que ele no vai mudar de idia. A menos que voc fale com ele.
- E porque eu faria isso? - perguntou Alexandra surpresa e, ao mesmo tempo, aliviada por saber que no perderia contato com Brenna. - Fico muito honrada em ser a madrinha de Bre... quer dizer, de Savannah, mas no tenho nada a ver com Riley. Por falar nisso, diga-me uma coisa: quem era afinal o Riley a quem voc se referiu no bilhete?
- Riley?! - respondeu Paro, confusa. - Ah, voc quer dizer Kelly, Sean Kelly.  o encarregado da limpeza do clube de jazz. Trabalhei um tempo com ele antes de Savannah nascer, e ele sempre foi muito bom comigo. Citei seu nome no bilhete para o caso de voc no poder tomar conta de Savannah. Achei que assim voc no iria entreg-la de imediato s autoridades.
- Kelly?! - Alexandra respirou fundo. - Nossa, no era possvel ler esse nome, no. Os dois "eles" eram de tamanhos diferentes, e o "k" parecia um "erre". Fui para o clube procurando um tal de Riley.
- Nunca tive uma letra boa, desde os tempos de escola e alm do mais eu estava transtornada quando escrevi o bilhete. Desculpe-me. - Depois de uma pausa, Paro continuou: - Oh, quer dizer que foi desse jeito que voc conheceu o sr. Templeton? - Outra pausa. - Uaaau!
- No h nenhum "Uaaau" nisso! - protestou Alexandra.
- Achei que vocs se conheciam havia sculos, e no h apenas quatro dias. Quer dizer, pelo modo como discutiam e como se olhavam...
- E como  que a gente olhava um para o outro? - quis saber Alexandra, mas logo se arrependeu: - Deixa para l, isso no importa. Para quando vocs marcaram o batizado?
Foi preciso mais dois dias para que Alexandra finalmente chegasse  concluso de que suas especulaes no tinham fundamento. Riley Templeton nem ao menos tentara a alternativa nmero dois. Cansou-se do caso antes mesmo de ele comear. E pensar que ele lhe dissera para dispensar Graham... Era muita audcia mesmo!
Quando o telefone tocou no final da tarde, ela atendeu-o automaticamente.
- Alexandra...
Era Riley.
A surpresa foi grande, um sbito calor subiu-lhe ao rosto. Alexandra agarrou o primeiro livro que viu pela frente e se abanou.
- Oh...  voc, Riley? - Como se outro algum pudesse ter aquela voz!
- Sua me... - prosseguiu ele est aqui em meu escritrio, com minha me.
- O qu? Minha me est a? - Alexandra jogou o livro longe quando se deu conta que era um exemplar do Kama Sutra.
- Ela foi acusada de um delito e acha que, por estar pintando meu retrato, devo ser seu representante legal. Disse aos jornalistas que sou o advogado dela, sem meu consentimento, e com isso ligou meu nome quele episdio adolescente de... -Respirou fundo. - Venha j aqui, por favor, e leve-a para casa, sim?
Alexandra bocejou.
- Ela me ligou hoje cedo e no me contou que estava pintando seu retrato.
- Talvez tenha achado irrelevante - devolveu ele. - Acho que estava fora de mim quando concordei com essa bobagem. Deveria saber que resultaria em confuso, j que tinha relao com voc.
- No seja injusto, Riley. No tenho nada a ver com isso! - protestou ela, enquanto fazia mentalmente alguns clculos. Rhona costumava marcar de trs a quatro sesses com os modelos, apenas para os rascunhos. Depois, demorava quase seis semanas para finalizar o quadro. Como ela, Alexandra, iria apagar Riley de sua vida se sua prpria me resolvera retrat-lo? Como evitar o rosto dele, se teria uma infinidade de esboos de seu retrato pendurados pela casa dela, no mnimo pelos prximos dois meses? E depois que o retrato estivesse terminado, ele seria uma lembrana permanente da passagem de Riley pela sua vida.
Foi ento que uma palavra que ele havia dito chamou-lhe a ateno:
- Acusada? Entendi bem? Voc disse que minha me foi acusada? De qu?
- De agora em diante, quando algum de sua famlia for acusada de danificar propriedade pblica com grafitagem, por favor, ligue para outra pessoa qualquer, sim?
- Grafitagem! - exclamou Alexandra, atnita, voltando-se para a porta quando os sininhos tocaram. Era Graham que entrava, com roupa de ciclista e capacete.
- Voc ouviu muito bem! - continuou Riley, com voz glida. - Agora tem quinze minutos para chegar at aqui - avisou, batendo o telefone.
Assim que colocou o fone no gancho, Alexandra comeou a explicar para Graham que tinha de fechar imediatamente a loja porque precisava ir at o frum. Graham tomou o pulso enquanto falava:
- Sempre quis conhecer sua me. Por que no nos encontramos l? Voc leva minha toalha? Eu vou pedalando.
- Est bem - concordou Alexandra, sem tempo de argumentar. Agarrou a toalha das mos dele, jogou-a dentro da bolsa e saiu, apressada.

Encontrou Rhona conversando tranqilamente com a me de Riley. As feies da sra. Templeton estavam menos contradas, o que poderia ser entendido, talvez, como respeito. Sentimento que no seria extensivo a ela, claro. Talvez porque, na funo de Cupido do prprio filho, considerasse qualquer mulher que no Davina, como uma distrao desnecessria para Riley.
A porta que dava para a sala dele estava entreaberta e era possvel ouvir algum mexendo com papis. Arrepiou-se com as lembranas daquele lugar.
- Oh, al, Lexi! - saudou a me, olhando para ela e para Graham, que havia deixado sua bicicleta no ptio. - Riley j me dispensou - disse, parecendo muito  vontade, certa de que seria perdoada. - Pode me dar uma carona at em casa?
- No posso, mame. Estou sem a van. - Alexandra lutava para desviar o olhar da sala de Riley. Mais barulho de papis. Parece que ele no tinha a inteno de sair de l. - Ainda no entendi muito bem o que houve. Riley me falou qualquer coisa sobre grafitagem...
- Oh, eu no consideraria exatamente uma grafitagem - respondeu Rhona com um aceno de mo. -  mais um retoque.
- Retoque no qu?
- Em um cartaz. No vai me apresentar a seu amigo? - perguntou ela, mudando de assunto.
Alexandra havia esquecido das apresentaes.
- Sou um grande admirador de seu trabalho  disse Graham, sorrindo. - Alexandra afirma que no herdou o talento da senhora e nem do pai, mas eu tenho certeza de que ele est registrado nos genes dela. Os filhos dela certamente herdaro o talento criativo da famlia.
Rhona piscou, orgulhosa, enquanto Alexandra suspirou aliviada por Graham ter dito "filhos" e no "cria".
Assim que a voz de Graham ecoou na sala, Riley apareceu na porta, uma das mos na cintura, a outra apoiada no batente. Estava em mangas de camisa, sem gravata, os cabelos desalinhados.
Em qualquer situao o homem era mesmo maravilhoso!
Estava ali simplesmente para avaliar Graham. Alexandra sabia que aquele era o real motivo de sua presena e o confirmou pelo jeito como ele estreitava os olhos fitando Graham e toda sua musculatura. Talvez esperasse encontrar um homem franzino, no um jovem atltico, mais parecido com um deus grego. Depois de analisar rapidamente os atributos fsicos de Graham, olhou para Alexandra com ar de surpresa, como a perguntar por que ela ainda no tinha se livrado dele, conforme lhe pedira para fazer.
Maravilhoso e arrogante. Alexandra no suportava gente assim, convencida de sua superioridade. Sorriu para Riley e fez as devidas apresentaes. Os dois homens apertaram as mos, daquela maneira como os homens fazem, como se estivessem medindo foras. Riley surpreendeu Alexandra ao perguntar a Graham sobre ciclismo.
- Estou treinando para o triatlo - Graham informou.
Enquanto eles conversavam, Alexandra se dirigiu a Rhona.
- Cartaz? - perguntou, com um olho fixo em Riley e outro em Graham. - Que cartaz? - E antes mesmo de obter a resposta, intuiu qual poderia ser. - No aquele outdoor imenso de Gina Esposito na Milton Road, no  mame? Voc no escreveu bobagens nele, escreveu? - suplicou, esperanosa de que a resposta fosse negativa. Sabia do que a me era capaz. - Como voc subiu l, mame? - perguntou em seguida, lembrando-se do tamanho e da altura do outdoor.
Rhona fez uma vaga referncia ao amigo de um amigo que tinha um guindaste e um caminho.
- Usei um macaco de trabalhador. Ningum tentou me impedir. Acho que pensaram que eu era da empresa de manuteno. Infelizmente, passou um carro da polcia e... - continuou ela, para concluir minutos depois: - Claro que logo a emissora de televiso foi avisada, e eles mandaram uma equipe de reportagem. Mas acho que no daro muito destaque  notcia, j que o assunto envolve uma estrela da casa. E as outras emissoras, por sua vez, no querero dar notcias sobre algum da concorrncia, no  verdade?
Graham interrompeu-as para pedir a toalha. Alexandra tirou-a da bolsa e a entregou a ele. Riley acompanhou o movimento com um sorriso irnico. Logo as senhoras se levantaram, despediram-se e foram caminhando at o elevador, seguidas de Graham. Riley deu um jeito de chegar perto dela e perguntou, baixinho, em tom de deboche:
- Ele foi deixado em sua porta, tambm?
- No. Na verdade, foi entregue na livraria, pelo correio - devolveu ela. - Acostumou-se tanto, que deixa por l um estoque de toalhas...
- E d uma paradinha de vez em quando s para enxugar o rosto - disse Riley, malicioso. - Ainda no deu o fora nele... Corao mole... E o atleta, to preocupado com suas marcas olmpicas, nem deu chance de voc abrir a boca para dizer...
- Dizer o qu? - perguntou Alexandra, os olhos arregalados.
- No se faa de tola, Alexandra. No  seu estilo.
Ela sorriu.
- Est bem, ento. No disse nada a ele, e  muita presuno de sua parte achar que eu o faria, at porque, pensaria duas vezes antes de dispens-lo.
Riley olhou de novo para Graham, que media a pulsao.
- Entendo... - Depois virou-se e caminhou de volta a seu escritrio, dizendo, por cima do ombro: - Eu levarei voc e Rhona para casa.
- No  preciso. Ns pegaremos o nibus.
Mas Rhona j fazia sinal de que aceitava o oferecimento, e Alexandra no teve outra alternativa seno calar-se.

Sentiu-se tensa durante todo o trajeto at a Milton Road. Temia confrontar-se com o estrago causado pela me, movida pela fria. Esperava que Rhona no tivesse pintado de preto os dentes da figura, ou colocado sardas nas bochechas. Fosse o que fosse, a vingana da velha senhora contra a jovem rival, seria um bom assunto para a imprensa!
Mas o que Rhona fizera tirou-lhe a respirao. Nada de sardas ou de dentes pretos. A figura de Gina Esposito ainda estava l, linda, sorridente. Mas no mais a Gina jovem. Agora, era uma velha que sorria.
- Esposito - disse Rhona, quase que para si mesma. - Voc sabia que nos tempos antigos, na Itlia, as pessoas costumavam deixar as crianas indesejadas nas colinas? Outras pessoas as pegavam e as levavam para casa. Davam-lhe um teto, um nome ou as chamavam de "Esposito": crianas colocadas  mostra. Abandonadas.
- Rhona... - interrompeu Alexandra, a voz embargada.
- Eu a envelheci um pouquinho - explicou a senhora, desnecessariamente. - Deixei-a com a expresso que ter aos quarenta e cinco. A idade que eu tinha quando ela me deixou na colina.
O corao de Alexandra doa de tristeza. O semforo fechou, o carro parou, e ela pde olhar melhor: as olheiras haviam tirado o brilho dos olhos de Gina, e as pequenas linhas, colocadas com muita sutileza, quase imperceptveis, haviam transformado completamente afigura.
-  engraado como ns, mulheres, acabamos sempre por odiar outra mulher quando um homem nos abandona - suspirou Rhona. - Ela provavelmente acha que nunca viver essa situao, que ser sempre jovem e linda para ele. Como eu fui, um dia. - Rhona olhou para seu trabalho. - Estou fazendo  Gina um favor, alertando-a.
Ser que agora, tendo transformado a figura do outdoor em um ser real, Rhona deixaria de odi-la? Alexandra ainda o olhou uma ltima vez pelo espelho retrovisor quando o carro comeou a andar de novo.
- Deve ter sido difcil ficar pendurada no andaime - comentou.
- At que no - respondeu Rhona, com um sorriso. - Foi um prazer! 

Um grupo de alunos esperava por Rhona na varanda. Ela deu um abrao em Alexandra, marcou com Riley um outro encontro para continuar o retrato e saiu saltitante, como algum que acabou de escapar da priso.
Alexandra ficou olhando-a longamente. Havia pouco tempo, sua adorvel, talentosa e apaixonada me agira por impulso e se envolvera com um homem que no estava  altura dela. Agora, estava novamente s. Se Alexandra precisava de modelos para suas idias a respeito de um relacionamento amoroso, sua me era o melhor exemplo do que nunca deveria fazer. E era bom que no se esquecesse daquilo, principalmente quando Riley estivesse to por perto.
Aquele homem parecia emitir misteriosos sinais que a afastavam de seu padro normal de comportamento. Mesmo naquele momento, o que mais desejava era passar os dedos por entre os cabelos dele, cobrir de beijos seu queixo, desabotoar sua camisa, deixar suas mos correrem livremente por seu dorso nu.
Riley olhou-a, como que alertado por seus pensamentos. Alexandra corou.
- Pode me deixar na Elizabeth Street - pediu. - De l, eu pego o nibus para casa.
Riley ignorou o pedido e seguiu o caminho que levava  casa dela. No toca-fitas do carro, o som de um piano inibia qualquer conversa. Alexandra pensou em perguntar qual era o nome da msica que ele tocava quando o viu no clube, mas continuou calada.
No caminho, passaram pela ciclovia. Pedalando furiosamente  frente deles, competindo com os carros, estava um ciclista com uma roupa fosforescente, cada msculo definido pelo esforo.
- E no  que encontramos o Grove? - comentou Riley.
- Graham... - corrigiu-o Alexandra, olhando para o relgio. - Trinta e cinco minutos! - comentou. - Graham conseguiu um bom tempo.
- A unio de vocs ser muito interessante. Ele corre, e voc o segue com a toalha. Ele mede o batimento cardaco quando vocs transam?
- Isso no  de sua conta, Riley - rebateu ela.
O trfego parou.
- Ento ele acha que os genes artsticos de sua famlia passaro para seus filhos?
Ele no havia perdido nem uma palavra sequer da conversa, Alexandra notou, enquanto o observava.
- E com o que ele vai contribuir, alm da musculatura?
- Firmeza e determinao - respondeu ela. Graham podia ser meio aborrecido s vezes, mas era decente, dedicado, e esforava-se para atingir seus objetivos, o que, por si s, j era uma qualidade rara. - Ele vem de uma famlia de intelectuais. Graham acha que eu e ele, juntos, poderemos produzir um outro Einstein ou um outro Picasso.
Riley sorriu.
- No que eu me importe com gnios - prosseguiu Alexandra, perguntando-se se Riley estaria com cime. - Sempre quis ter apenas um bando de crianas sadias e normais.
Riley ficou olhando fixo para o ciclista.
- Talvez voc devesse pensar duas vezes - disse.
O corao dela deu um salto.
- Por que diz isso?
Ele buzinou quando passaram por Graham, que acenou para o carro esporte.
- Meus genes so to bons quanto os dele - observou.
O comentrio fez Alexandra perceber que estivera equivocada. No era cime que Riley tinha de Graham, mas despeito. Sentiu-se mal com sua falta de sensibilidade. Quando estava com Riley, sentia sua presena masculina de forma to poderosa que simplesmente esquecia que ele era estril.
O que poderia dizer para consertar a situao? Riley deveria estar achando que usara deliberadamente o assunto crianas para mago-lo. No conseguiu pensar em nada. Apenas o olhou, com simpatia.
Imaginou, ento, o tipo de crianas que ele teria, se isso fosse possvel. Verses miniaturizadas de Riley. Crianas com dificuldade para vestir roupas, filhos que seguiriam os mesmos passos do pai e do av. Imaginou uma menininha de olhos azul-escuros, cabelos negros encaracolados, sentada no joelho dele enquanto ele lia uma histria. Mordeu o lbio, lembrando que em seus devaneios havia combinado seus genes com os de Riley. E era uma combinao muito boa! Em silncio, sentada ao lado dele no carro, pensou em como seria sua vida sem filhos. Acabaria como Anna Brown, sempre atrs de uma criana para cuidar?
O carro estacionou na frente da casa de Alexandra. Riley puxou o breque de mo e voltou-se para ela. Estava srio. Como para se desculpar por sua falta de tato, foi deliberadamente amigvel ao desejar-lhe boa noite. Nunca mais, pensou, falaria sobre filhos com ele. Curvou-se e deu-lhe um beijo no rosto.
- Obrigado por ter ajudado Rhona, Riley. - E por nos levar em casa. - Roou novamente os lbios no rosto dele, mais perto da boca, dessa vez. Depois afastou-se um pouco e sorriu: - Voc  um homem adorvel.
Riley respirou fundo, pegou-a pelos ombros e lhe deu um longo beijo na boca. Ela retribuiu, acariciando-o, descendo os dedos pelo seu peito, brincando com os botes da camisa fina que impedia um contato mais ntimo. Desajeitadamente, desabotoou a camisa e sentiu os plos macios em suas mos. J estava procurando a fivela do cinto quando, de repente, Riley endireitou-se, segurou firme nos pulsos dela e a colocou de novo-, com firmeza, de volta a seu lugar.
- Boa noite, Alexandra -disse, com um tom de satisfao na voz, ao notar-lhe o tremor nas mos enquanto ela ajeitava os culos no rosto.
Depois que ela saiu, Riley ligou o carro, fez a curva e pegou a estrada de volta. Alexandra ficou parada na calada, sem ao.
- No posso me apaixonar por ele - murmurou, enquanto se encaminhava para a porta. Deu uma olhada embaixo da escada, no lugar onde encontrara Brenna antes. Nada. Uma das cabras de Sam baliu. - No posso me apaixonar por Riley - repetiu.
Tentou tirar da cabea as lembranas associadas a ele, mas no conseguiu deixar de pensar na msica que Riley tocava no clube, quando o vira pela primeira vez. Tinha de esquecer isso tambm.

Riley mantinha o olhar fixo no caminho a sua frente. Estava carregado de melancias. Felizmente para as melancias e infelizmente para ele, o motorista guiava lentamente.
- Um homem adorvel - disse ele, por entre os dentes. - Um homem adorvel - repetiu.
Alexandra tentara lhe dar Um prmio de consolao. O que significava que ela percebera os sentimentos dele! O estmago de Riley se contraiu. Como isso fora acontecer? Era maduro e experiente o suficiente para no se deixar humilhar de novo. Fora pssimo quando Davina o fez, havia tantos anos. Mas tinha, pelo menos, a desculpa da juventude e da inexperincia dele. Desta vez ele sabia, desde o comeo que no devia se envolver. Alexandra comentara, na verdade, dissera claramente a ele que no o queria, exceto para encontrar a me da criana.
Este havia sido seu erro. Ego exacerbado. Ela no se deixara impressionar pela sua atuao ao piano. Tinha inventado aquela histria ridcula sobre Bernadete St. John para dar um fim ao relacionamento dos dois. E ele achando que Alexandra estava fazendo charme apenas para desafi-lo. Que idiota era!
- Pelo menos voc podia sair para a direita e me deixar passar! - reclamou Riley, enfiando a mo na buzina. Mas o caminho continuou em sua marcha lenta.
Alexandra e sua compaixo! Sentiu raiva s de pensar na possibilidade de Alexandra ter pena dele. Mas era isso mesmo. Ela sabia que ele estava envolvido e, sendo o tipo de mulher que era, no queria ferir seus sentimentos.
Buzinou de novo, duas vezes.
- Saia da frente!
Isso tudo parecia predestinao. Haviam se conhecido h menos de uma semana. Ele no era mais um garoto, para se deixar envolver assim, to depressa, e ainda mais por uma garota de culos e roupas desleixadas. J quase no se lembrava mais de seu orgulho ferido quando Davina avisou que ia deix-lo. Teve de se esforar muito para readquirir a auto-estima, mas nem mesmo naquela ocasio sentira-se assim, como se a vida houvesse mudado permanentemente para pior. 
- Vai ou no sair da frente? - gritou para as melancias.
Alexandra podia facilmente ignorar  qumica que se instalara entre os dois, em favor daquele monte de msculos. Mas a se lembrou da sensao de ter Alexandra em seus braos. Talvez estivesse sendo derrotista demais. Devia haver mais do que qumica, para uma mulher como Alexandra aceitar fazer amor em uma mesa de escritrio.
Quanto mais se recordava da cena, mais ganhava confiana. Sim, senhor! Ela poderia racionalmente banalizar a atrao sexual, at mesmo tentar resistir, mas quando colocada em confronto com ela, capitulava. Tinha aprendido a respeitar a tenacidade e a firmeza de propsitos de Alexandra no curto espao de tempo em que se relacionaram. Mas havia algumas brechas...
Aquela noite era um bom exemplo. Tratando-o como um irmo, com beijinhos no rosto... Mas, no instante em que a tocara, ela pegou fogo. Se no houvesse impedido, Alexandra teria arrancado seu cinto e aberto seu zper.
-  isso a, Templeton. Voc est no caminho certo - disse para si mesmo e sorriu.
Continuou a olhar para o caminho a sua frente, enquanto pensava. Calculou suas chances e decidiu que estava na hora de arriscar. Tamborilou com os dedos no painel, acompanhando o som da fita. Se pretendia conquist-la, precisava danar outra msica. Talvez at descobrisse, no final, que o fascnio que sentia por Alexandra era apenas um entusiasmo passageiro, e sentiu-se mais aliviado com aquela possibilidade. 
O caminho finalmente encostou para a direita, e Riley o ultrapassou. Mas se fosse s isso, porque impedira Alexandra de continuar?


CAP TULO IX

O dia do batizado amanheceu bonito, ensolarado. A igreja era pequena, quase uma capela, com a porta emoldurada por duas belas primaveras.
- Acho que seremos os nicos convidados  comentou Alexandra, ajudando Sam a saltar da van. Usava um chapu de palha de aba larga, enfeitado por minsculas flores de pano. - A famlia de Pam  da Austrlia e a de Jeff talvez no queira participar.
Mas Alexandra logo soube que estava errada e que no eram os nicos convidados. Um homem caminhava pela calada, a passos largos, na direo deles. Era alto, tinha cabelos escuros e ombros largos. Vestia uma camisa branca e um blazer bege e estava com culos de sol.
Sam se animou.
- Quem diria, meu bom companheiro Riley! - saudou. Os dois se cumprimentaram amigavelmente, com tapinhas nas costas. - Estou esperando-o em minha casa para tomar uma cerveja antes de eu ir para Melbourne. E tambm para desenferrujar meu piano!
- O que est fazendo aqui? - perguntou Alexandra, lembrando, envergonhada, do ltimo encontro dos dois: Riley segurando-a, antes que ela arrancasse as calas dele. Mesmo sem ver seus olhos, sentia que ele a media da cabea aos ps. Ajeitou o chapu na cabea. 
- Sou o padrinho - informou ele, imitando a voz de Marlon Brando. Sam adorou!
- Disseram-me que voc havia recusado o convite.
- Em princpio. Adoro ser persuadido...
Pam e Jeff tinham conseguido, ento, convenc-lo!
- S que ningum me comunicou que voc havia mudado de idia.
- Voc me parece agitada, Alexandra. Est nervosa porque vai subir ao altar comigo? Temos de nos apressar. Mais um pouco, e todas as flores do seu chapu cairo.
- Muito engraado... - respondeu ela, dando um passo  frente e colocando o rosto bem perto do dele.
- O que h? Algo contra culos de sol?
- Sabia que  falta de educao us-los quando se fala com algum?  desagradvel no ver os olhos do interlocutor.
- O que coloca uma pessoa em desvantagem em relao  outra... - completou ele. Mas tirou os culos, fechou-os e colocou-os no bolso do palet. - E voc sabe muito bem o que penso das pessoas que tiram vantagem dos outros...
A provocao era explcita. Para no revidar, Alexandra abanou-se com o chapu, e Riley olhou, divertido, para as florzinhas que saltavam dele.
Sam j caminhava em direo  capela, e eles o seguiram. 
Alexandra sentiu-se estranha ali, no altar, ao lado de Riley, respondendo solenemente ao padre. Depois teve de posar para as fotos com a nen no colo, Riley com o brao em volta de sua cintura. E colocar sua assinatura ao lado da dele no certificado de batismo.
Pensou em comentar que mais uma vez o nome dele aparecia ao .lado do nome dela em um papel, mas lembrou-se que o nome que parecia no bilhete deixado por Pamela era outro e achou melhor esquecer aquele assunto. Mas a partir daquele dia, indiscutivelmente, seus nomes estavam interligados na histria da vida de Savannah.
Os pais de Jeff compareceram  cerimnia, e Alexandra achou que a me dele parecia mais calma, talvez por efeito da terapia. Mesmo assim, no desgrudou os olhos de Savannah. O pai praticamente no tirou o olho da cmara de vdeo. Depois do batizado, no territrio neutro do quintal de Alexandra, em meio aos canteiros de ervas e de flores, mais confiante e relaxada, Pam deixou a nen nos braos de Anna Brown.
- Sei que a senhora no gosta do nome que lhe demos - disse para a sogra. - Mas  possvel que quando ela crescer, queira usar um nome abreviado. Talvez Anna, como ns mesmos a chamamos de vez em quando.
A senhora pareceu surpresa, como se nunca antes tivesse percebido que seu nome fazia parte do nome da neta. Alexandra se surpreendeu com a sensibilidade de Pam.
- Quer dizer ento que Gina Esposito resolveu no processar sua me - comentou Riley, enquanto a ajudava a colocar os sanduches e as mini pizzas na mesa que armara no jardim.
- Ela deveria era mandar um cheque bem polpudo para Rhona para pagar a publicidade que conseguiu com o caso. Como era de se esperar, a notcia no fora veiculada pelo Canal 3 e nem pelas emissoras concorrentes, mas sim pelos jornais. O retrato envelhecido de Gina apareceu em muitos deles e gerou uma enxurrada de cartas s redaes, nas quais as leitoras discorriam sobre o complexo de Peter Pan dos homens e sobre a ausncia de mulheres maduras na apresentao de programas de televiso. A repercusso foi muito maior do que a alcanada pela programao normal do canal.
- Voc viu os rascunhos de Rhona do meu retrato? - perguntou Riley.
- Eu nunca vejo os trabalhos de Rhona antes que ela os tenha terminado. Ela no gosta - explicou Alexandra.
Riley reagiu com ironia.
- Vai me dizer que quando vai visit-la e encontra alguma tela inacabada no cavalete no se interessa em olhar?
Alexandra deu de ombros.
- Se ela no gosta que eu olhe, por que o faria? - foi a resposta.
- Interessante. Duas mulheres na famlia e uma no interfere na vida da outra.
- Como est sua me, por falar nisso?
Riley riu.
- Rhona acha que minha me gosta de organizar e mandar em tudo porque  uma advogada frustrada.
- Por que ela no estudou Direito?
- Quem? Minha me?! - Ele pareceu surpreso.
- A famlia dela no  tradicional nessa profisso?
- Os homens, sim.
- Mas as meninas iam  escola e aprendiam como se transformar em boas esposas de advogados. Talvez ela pudesse estudar Direito agora.
- Quem? Minha me?! - repetiu ele.
- Se voc continuar insistindo em pensar nela apenas como sua me, ela vai continuar agindo como tal.
Riley recebeu a observao com um levantar de sobrancelhas.
- Acho que ela se considera muito velha para voltar  escola - disse, finalmente.
- E o que tem isso? - Alexandra insistiu.
Riley pensou um pouco e ento sorriu com satisfao.
- O que seria de mim sem voc...
A frase, de repente, adquiriu uma conotao nova para ela. Olhou para Riley e sentiu seu corpo estremecer. Lembrou-se de que no deveria se apaixonar por ele.
- Graham tambm vem? - quis saber Riley.
- No, ele est participando de um campeonato.
- Ah...  verdade. Voc deve sentir sua falta. J marcaram a data do casamento?
Alexandra ficou desconcertada. Respondeu com uma evasiva qualquer, sentindo-se culpada por permitir que aquela mentira continuasse. No que estivesse prejudicando algum, claro, mas de alguma forma estava usando Graham, mesmo que to somente como um nome. Mas no podia admitir para Riley que Graham era, e s seria, um bom amigo. Isso a tornaria vulnervel. Riley estava agindo como um cavalheiro e timo companheiro, parecia ter esquecido sua aptido de ironizar e criticar as idias dela, e aquilo a deixou subitamente preocupada.
Sam aproximou-se com a mquina fotogrfica e pediu que eles dois fizessem uma pose, o que deu a Alexandra a chance de pensar em algum outro assunto, menos pessoal.
- Graham  um sujeito muito legal - resumiu Riley.
Ela o olhou, desconfiada.
- Pensei que no gostasse dele.
- O que lhe deu essa idia?
- Seus comentrios sarcsticos.
- Sarcasmo  meu hobby. - Riley contorceu a boca, em uma expresso de desagrado. - Sendo sincero, acho que voc e Graham fazem um par perfeito.
Era a segunda vez que se referia a Graham pelo nome correto, e aquilo a aborreceu.
- Voc est muito bonita hoje, Alexandra - disse ele, percorrendo com o dedo indicador o decote de seu vestido florido de seda, em um gesto distrado de apreciao. Ela sentiu calafrios.
- Obrigada - agradeceu, embora soubesse que no era bonita e estranhara ouvir aquilo de Riley. Pensando melhor, nunca antes vira Riley estando bem-arrumada. Mas ele dissera que estava bonita, de um modo to corriqueiro, sem hesitao, que no dava margem a nenhuma outra interpretao. Ocorreu a Alexandra que, de alguma forma, poderia ser especial para ele. No bonita. Mas especial. E a idia lhe agradou.
- Gostou dos canteiros de ervas? Esto quase prontos.
Ele inspirou fundo, para sentir o aroma das ervas e olhou em volta com ar de aprovao. Viu uma das cabras de Sam parada prxima  cerca, as galinhas andando  sua volta.
- Gostei muito - disse ele, sorrindo para ela. Seus olhos brilhavam. - O organo pegou?
- Ainda no  possvel saber - respondeu e, mentalmente, censurou-se por ter iniciado aquela conversa to tola.
Alexandra serviu canaps, enquanto mais fotos eram tiradas e, mais uma vez, pais, parentes e padrinhos posaram com Savannah para as cenas gravadas em vdeo. Aqueles retratos e imagens fariam parte da histria da menina. Seriam tambm os nicos registros que existiriam do relacionamento dos dois? Talvez... Sentiu-se magoada com a possibilidade de, um dia, no futuro, rever aquelas cenas e lembrar-se de Riley como um conhecido distante, a quem nunca mais encontrara.
Sam se incumbia de manter os copos cheios de vinho, e Pam passava os sanduches e os pedaos do bolo que ela e Alexandra haviam feito juntas.
- Voc precisa dizer a Alexandra o nome da msica que ela ouviu no clube em que voc toca - Pam falou rapidamente quando passou por Riley. - Ela ficou a manh inteira tentando lembrar.
Alexandra fulminou-a com o olhar.
- ...aquela que voc estava tocando no Blue Parrot na noite em que se conheceram -disse, de uma forma que dava a entender que ela e Alexandra haviam fofocado a manh toda, como duas adolescentes.
Alexandra tentou amenizar.
-  horrvel quando um trecho de uma msica fica em nossa cabea e no conseguimos lembrar o resto, no ? - comentou. 
Olhou para Riley e foi sacudida por uma onda de calor que parecia emanar dele. O que dissera? Relembrou suas ltimas palavras e no encontrou nada que pudesse justificar aquele olhar sexy, penetrante. 
- Minhoca! Minhoca na cabea,  assim que se chama isso.
- Minhoca?!
Tinha usado a imagem da minhoca deliberadamente, para tentar quebrar o clima que o olhar dele criara, e obteve sucesso. Riley parou de olhar para ela daquele jeito e, a partir dali, virou a alma da festa. Tirou o blazer e se ps a contar piadas para Sam. Enrolou as mangas da camisa e ajudou as mulheres, servindo bebidas e carregando os pratos sujos para a cozinha. Entregou a uma Savannah de olhos arregalados o imenso urso de pelcia que comprara de presente. Tudo devidamente registrado pela cmara de vdeo do sr. Brown que filmou at o canteiro de ervas, com destaque. O perfume dos temperos perfumava o ar e entrava pelas narinas de Alexandra, enquanto ela, de p, ao sol, observava Riley com Savannah e o urso nos braos. Ele cantava baixinho para a menina, segurando-a com delicadeza. Aquela era a imagem que gostaria de guardar para sempre no corao. Sempre desejara um homem forte, com uma criana em seus braos e ela, Alexandra, olhando para os dois. A cena, real, parecia um sonho, e os olhos dela se encheram de lgrimas.
Pouco mais de duas horas depois, Riley se despediu e foi embora, sem dizer para Alexandra o nome da tal msica.

O tempo passou. Pam ligou um dia para comunicar que havia nascido o primeiro dente de Savannah. Alexandra, ajudada por Sam, comeou a fazer novos canteiros no quintal para plantar menta, hortel e salsa. Sam, ajudado por Alexandra, encontrou em seus bas sua antiga farda. Lavaram-na, passaram e trocaram os botes. O livro sobre a santa Bernadete foi vendido. Os Sermes, do reverendo W. Morley Punshon continuava ali, e Alexandra decidiu coloc-lo no cesto de ofertas. O sapo, que morava no canteiro de lrios, silenciou.
Certa noite ela viu Riley na televiso, no julgamento de um homem que, depois de preso, fora espancado na priso. Os parentes dele protestavam e levantavam os punhos fechados para as cmaras de televiso. Rhona, de vez em quando, fazia algum comentrio sobre ele, e assim ela ficara sabendo que, em breve, Riley sairia do apartamento onde morava para que fosse reformado.
- Fico pensando... - disse ela certa vez, quando Alexandra perambulava pelo estdio - ...na ex-esposa dele, Davina.
Alexandra se habituara ao dilogo desconexo de Rhona e esperou que ela completasse a idia.
- Sim, sim, o que tem pensado? O que tem ela?
Rhona limpava um pincel.
- Acho que Fiona no deveria forar tanto a reconciliao - disse. - Riley no gosta de ser pressionado. Ele parece gostar muito dos filhos de Davina. Se Fiona no se intrometesse, ele at poderia...
A expresso ausente, de sonmbula, voltou ao rosto de Rhona, e Alexandra sabia que quando isso acontecia, no adiantava esperar que sua me completasse um pensamento. Nem precisava. J havia ficado bem claro que Riley estava se encontrando de novo com Davina. Isso provavelmente explicava a radical mudana de humor dele no batizado. Flertara com Alexandra movido por um interesse passageiro, apenas um passatempo. Ao contrrio de Davina e suas crianas, que eram um assunto srio.
Na primeira semana de maio, Sam voou para Melbourne, para a reunio com os veteranos de guerra. Um dos amigos dele viera certo dia buscar todas as cabras para lev-las a seu stio, onde cuidaria delas. Antes de partir, Sam deixara um presentinho para Alexandra, na porta de trs. Pensando que era um saco de ameixas, ela o abriu despreocupadamente e levou um susto quando encontrou uma bonequinha falante ali. 
Foi o silncio absoluto que despertou Alexandra do sono, na primeira noite de ausncia do vizinho. Nenhum sapo. Nenhuma cabra. S o barulho do vento nas folhas, um co latindo a distncia, o barulho abafado dos carros passando na estrada. 
Eram duas e meia da manh. A msica comeou de novo a ecoar em sua cabea, apenas um trecho, de novo e de novo. Resolveu se levantar. Ps uma chaleira com gua no fogo e pensou em ir at o quintal colher umas folhinhas de hortel para fazer um ch. Puxou a cortina para olhar l fora. Viu um breve claro de luz, que logo sumiu. Abriu o pote de mel, provou um pouquinho dele com o dedo e estava distrada olhando o fogo quando a luz brilhou de novo, iluminando as bananeiras em frente ao quartinho de depsito da casa de Sam. 
Talvez ele estivera ali procurando algum documento para levar na viagem e esquecera a luz acesa. Resolveu apag-la. Tirou do chaveiro de atrs da porta o mao de chaves que Sam lhe entregara, e, como o tempo estava frio, vestiu seu abrigo impermevel por cima da camisola e calou as botas de borracha. Acendeu a luz de seu quintal e caminhou na direo da cerca, perto de onde ficava o abrigo das cabras, iluminando o caminho com uma lanterna.
Talvez fosse melhor, j que estava ali, dar uma olhada geral na casa para ver se Saro no havia esquecido outras luzes acesas, afinal, ele tinha setenta e cinco anos. Abriu a porta dos fundos e entrou, guiada pela luz da lanterna. Vislumbrou uns pedaos de trenzinho no cho e j ia abaixar para peg-los quando viu um homem semi-despido, curvado sobre o cho. Alexandra estremeceu e tentou focar a luz na figura, os batimentos cardacos acelerados. Antes mesmo que o desconhecido se virasse, ela reconheceu os cabelos pretos e grossos, e tambm .a larga musculatura dos ombros.
Riley sorriu para ela e perguntou:
- Brincando de guarda noturno?
- O que... - comeou ela, abaixando a lanterna. - Por que... 
Riley voltou-se para olhar o trenzinho. A musculatura das costas se retesou. Ele usava pijamas de algodo de um tom estranho de roxo. Curvado como estava, a cala grudava em suas pernas longas.
- O que est fazendo aqui, Riley?
Naquele instante, um dos vages do trenzinho comeou a andar, e Riley soltou uma exclamao de alegria.
- J passa de duas da manh - continuou ela, sentindo-se como se estivesse sonhando. - O que est fazendo aqui?
A locomotiva comeou a andar mas logo descarrilou e caiu, de. pernas para o ar, as rodinhas girando. Riley a pegou e a ajeitou de novo nos trilhos, com a mxima ateno.
- Vou ter de consertar isso - murmurou e ento levantou-se.
- Estou hospedado aqui - disse.
Se ver-lhe as costas nuas era revelador, ver o peito nu era quase indecente.
- A questo, me1l bem,  a seguinte: o que voc est fazendo aqui? E ainda de camisola! -Sorriu calorosamente, enfatizando o "meu bem".
Alexandra ficou to embaraada que s depois de alguns segundos percebeu que estava exposta tambm, com o abrigo aberto, deixando  mostra sua fina camisola. Cobriu-se, apressada.
- Voc no pode ficar aqui - protestou ela.
- Estou aqui desde que Sam saiu. A companhia de seguros est pagando por isso, j que precisei sair de meu apartamento para que ele possa ser reformado. Est um caos!
- Mas Sam no me falou nada sobre isso!
- Sam me deu as chaves dele. Quer v-las?  desafiou ele, batendo com as mos nas laterais do corpo, como se estivesse procurando alguma coisa no bolso da cala, para em seguida lembrar-se de que estava de pijama. - No as tenho aqui comigo no momento - desculpou-se.
Alexandra exibiu seu molho de chaves, tilintantes, na mo.
- Desculpe. Eu pensei que Sam havia esquecido a luz acesa e vim at aqui s para verificar. Ele sempre deixa uma cpia de suas chaves comigo para o caso de esquecer ou perder as dele. O que .sempre acontece, alis.
- Esse esprito solidrio e comunitrio  uma novidade para mim, que sempre estive acostumado a viver em prdios de apartamentos muito impessoais.
Ela j estava prxima  porta dos fundos, e segurava a lanterna tentando foc-la na fechadura. Riley aproximou-se. O abrigo que Alexandra usava era velho mas de boa qualidade, com quinze anos de garantia contra chuva, ventos e arrepios, mas era intil contra o calor. O corpo de Riley exudava calor e um aroma de banho recm-tomado. Estava to perto dela que bastava virar o rosto para esbarrar no brao nu e musculoso esticado a sua frente, apontando a fechadura. Ela atrapalhou-se e deixou cair o molho de chaves, abaixando-se para peg-lo. Riley teve o mesmo impulso, e eles esbarraram um no outro.
- Talvez seja melhor voc ficar com elas - disse Alexandra, olhando fixamente para as chaves. - Sei l, voc pode no gostar da idia de outra pessoa ter as chaves da casa onde est. Pode no se sentir...
- Seguro? - completou ele, aproximando-se dela.  Que perfume  esse.? - quis saber, inspirando, o nariz bem prximo da sua testa. - No, no me diga, deixe-me adivinhar. Organo no . Eu me lembraria do cheiro. Voc sempre cheira to bem...
Alexandra protegeu-se melhor com o abrigo, fazendo um esforo para se recompor, mas Riley a segurou pela cintura, em um gesto desajeitado de rapazinho.
- Hortel! - exclamou ele. - Voc andou mexendo com hortel.
-  verdade. Estava pegando umas folhinhas para fazer um ch quando vi a luz.
- Ch de hortel... Mas no  s hortel - prosseguiu, cheirando de novo sua testa, atrs de suas orelhas. - Tem mais alguma coisa... Mel? - arriscou. regou as mos dela, levou-as at os lbios e beijou-as, lambendo os dedos com aponta da lngua.
Alexandra sentiu calafrios.
- Sim,  mel - confirmou Riley, alegremente, e ps-se de lado para deix-la passar. Como Alexandra no se mexeu imediatamente, ele a segurou pelos ombros e a empurrou gentilmente porta afora.
- Acho que vou ter de me acostumar com esse relacionamento com a vizinhana - disse, devolvendo-lhe as chaves. - Fique com as cpias que Sam lhe deu - disse ele, dando-lhe um tapinha amigvel nas costas. - Ele tambm tem cpia das suas, ou melhor, eu tenho. 
Alexandra saiu.
- Posso pegar hortel em seu canteiro, de vez em quando? Gosto muito de ch de hortel.
Alexandra fez um gesto distrado com a mo, concordando, mas sem olhar para trs. Durante duas semanas, Riley seria seu vizinho? Caminhou por entre as ameixeiras at a cerca, pensando que tipo de relacionamento masculino era aquele que unia com tanta familiaridade um homem como Sam e um homem como Riley.
- Voc poderia, ao menos, ter me prevenido, Sam - murmurou ela, consigo mesma. J dentro de casa, tirou o abrigo e o dependurou no cabide atrs da porta. - E voc, voc foi completamente intil - disse, dirigindo-se ao agasalho. - Pode funcionar contra tudo, mas no conseguiu me proteger contra os calafrios causados Riley Templeton.

Sam ligou de Melbourne no dia seguinte, e ela aproveitou para repreend-lo.
- Voc achou tempo para aprontar outra de suas brincadeirinhas, mas no para me avisar que Riley ficaria em sua casa.
- Ento achou as ameixas? Eu deixei um bilhete junto com elas...
- No havia bilhete algum! Eu no acredito que voc tenha feito isso comigo, Sam - reclamou.
- Eu o deixei embaixo do capacho, com uma ponta para fora, de modo que voc pudesse v-lo- defendeu-se ele. - E no tenho que pedir licena a voc, mocinha, para hospedar quem eu quiser em minha prpria casa, concorda?
S restou a ela se desculpar depois daquele argumento incontestvel. Quando o assunto era Riley, ela sempre agia de maneira impulsiva, sem pensar. Era como se ele exercesse m influncia sobre seu comportamento. Olhou para a palma da mo, como  procura de algum vestgio do toque de Riley. No! No iria mais se preocupar com ele, tentaria ignor-lo a partir daquele momento.
Na tarde seguinte, Alexandra esgueirou-se pelo terreno do vizinho e deixou um mao bem grande de hortel na porta da frente da casa de Sam. Achou que, assim, ele entenderia que no haveria necessidade de ficar circulando por seu quintal. Claro que se Riley decidisse bater em sua porta por qualquer razo tola, nada o impediria, mas aparentemente ele no estava disposto a tanto.
Alexandra s o viu novamente, trs dias depois do casual encontro, j no sbado. Naqueles dias vira o movimento do carro dele ao chegar e sair, as luzes da casa ora acesas, ora apagadas, e uma noite at mesmo ouviu um jazz tocando bem alto no aparelho de som.
Riley apareceu quando ela estava trabalhando no jardim, em um de seus canteiros. Acalorada, suada, suja de areia e terra, transportava os tijolos de um lado para o outro quando o viu. 
- Por que no usa um carrinho de mo? - perguntou ele.
- A roda est quebrada - respondeu, limpando o suor do rosto com um brao.
- Posso consert-lo para voc, amanh - ofereceu ele. - Quer tomar um refresco?
Sem esperar pela resposta, Riley colocou uma jarra e dois copos na grama e convidou-a a sentar.
- tima idia, Riley.
- Poltica de boa vizinhana - disse ele. - Alm disso, tenho interesse em pedir emprestado alguns de seus livros. Na casa de Sam s h livros de guerra e criao de cabras.
Ele usava bermuda jeans e uma camiseta cqui justa que evidenciava seus ombros. A barba por fazer emoldurava, como uma sombra escura, o rosto, mas os cabelos estavam penteados e ainda molhados, como se houvesse acabado de sair do chuveiro. Esticou para ela um copo cheio de limonada com dois cubos de gelo e sorriu quando ela hesitou em peg-lo.
- Acredite em mim, no  nem um daqueles copos de brincadeira que Sam tem em casa.
Ela ento contou sobre a mania que Sam tinha de fazer brincadeiras com os outros.
- Uma vez ele colheu um monte de abboras e deixou-as em minha porta. Quando fui peg-las, uma delas "falou". Voc acredita que ele teve a pacincia de instalar um altofalante dentro de uma delas, comandado por controle remoto, que ele acionava a distncia, escondido atrs da cerca? Foi por isso que eu pensei que a trouxa colocada embaixo de minha porta fosse outra das pegadinhas de Sam. Mas me enganei. De qualquer forma, mais uma vez me vi envolvida em uma confuso.
Riley olhou pensativamente para seu copo.
- Aconteceu o mesmo comigo - murmurou ele, mudando depois de assunto. - Se voc ainda estiver interessada em um carrinho de mo para trabalhar no plantio das flores, posso lhe mostrar um que, tenho certeza, ser de seu agrado. Tem uma horinha vaga no prximo sbado?
Combinaram um horrio para se encontrar no fim de semana seguinte e depois entraram na casa dela. Riley ficou examinando os livros das prateleiras enquanto ela lavava as mos para livrar-se da terra. Depois desceram ao poro para pegar umas caixas vazias onde colocariam os ttulos que ele escolheria. Ficaram conversando sobre livros do tempo da infncia ou da escola, livros que lembravam feriados e momentos de leitura solitrios, recomendando obras que um sabia que o outro gostaria, lendo em voz alta alguns trechos.
Antes de ele sair perguntou:
- Voc no esqueceu do jantar beneficente no prximo sbado, esqueceu?
Alexandra o encarou, espantada.
- No achei que o convite fosse para valer .
- Mas era. At j comprei os ingressos. No v me deixar na mo. - Houve uma pausa - Ser que Graham se incomodar?
Se quisesse se esquivar desse encontro, Alexandra teria ali uma excelente desculpa, mas no queria.
- Acho que ele pode deixar mais uma toalha na loja ao lado da livraria... - respondeu.
Os olhos dele brilharam.
- Muito bem, ento. O jantar ser no Hotel Heritage. Traje a rigor.
Apesar de no querer, Alexandra sentiu-se muito animada com a possibilidade de sair com Riley, ser vista como sua companhia. Por que ele enfatizara que o traje era a rigor? Ser que achava que ela no tinha nada sofisticado para vestir? Que aquelas calas largas, camisas folgadas e longas at os joelhos eram as nicas coisas que sabia usar? Avaliou mentalmente o que tinha no armrio e rejeitou todas as possibilidades. Na segunda-feira teria de entrar na boutique vizinha  livraria e fazer umas comprinhas.

Riley acabou se mostrando um bom hspede. No final das tardes, trabalhava no jardim de Sam, podando plantas, consertando mquinas e arrumando as coisas. Quando escurecia, ela o ouvia tocar o velho piano, sempre o mesmo trecho musical, vrias vezes seguidas, at que, uma noite, foi at l implorar para que ele mudasse de msica. Acabaram jantando juntos e tocando, a quatro mos, no piano de Sam.
Em uma manh, Riley apareceu no quintal, vestido para o trabalho, quando ela saa para recolher os ovos do galinheiro.
- Nunca fiz isso na vida - comentou ele, com expresso desapontada.
- Sem gibis em casa... Sem galinheiro no fundo do quintal... Que espcie de infncia voc teve? - brincou ela e conduziu-o at o galinheiro. Foi o visitante mais bem vestido que as galinhas j tinham visto. Com entusiasmo infantil, ele procurou os ovos e colocou-os, um a um na cestinha que ela carregava nos braos, dizendo:
- Um para o sr. Hawkins. Um para voc. E outro para o sr. Hawkins.
No sbado seguinte, Riley levou Alexandra a um depsito de artigos retirados de casas em demolio.
- O dono  um cliente meu - explicou, abrindo o porto para que ela estacionasse a van. Passaram por uma casa construda com material reciclado. - Ainda bem que eu no deixei que ele fizesse a reforma em meu apartamento. Imagine como teria ficado!
Seguiram at um amplo galpo, apinhado de velharias.
- Est por aqui, em algum canto - murmurou Riley. Acharam o carrinho de mo antigo, todo coberto de lama seca, mas que era exatamente o que ela queria para pr no jardim.
- Parece que estava escondido, a nossa espera  disse, rindo. - Adorei! Podemos lev-lo para casa j? 
- Claro,  s querer. 
Os dois passaram a tarde limpando, lixando e pintando o velho carrinho, ansiosos para ver o resultado. Foi s no final do dia, quando o sol j se punha que terminaram o trabalho.
- Prontinho, tarefa cumprida! - anunciou ela, sorridente.
Quando olhou para Riley, percebeu quanto era verdadeira aquela exclamao. No tinham mais nada a fazer. A grama da casa de Sam estava cortada, o trenzinho correndo pelos trilhos, o piano afinado, o depsito arrumado, o carrinho de mo colocado em seu devido lugar no jardim. Tinham se ocupado de tarefa em tarefa mas agora s restava os dois, ali, vizinhos, amigos.
- Eu a chamarei s sete - disse Riley, sorrindo. Fez um carinho delicado nos cabelos dela.- Vai deix-los soltos? Por favor...
Ela deixou os cabelos soltos e colocou neles uma fina tiara de strass. Os fios, brilhantes, caam pelos ombros, chegavam at  altura dos seios e faziam sua pele parecer mais plida, com aquela moldura de cabelos avermelhados. Resolveu usar um colar de prata feito por um designer amigo de Rhona, que combinava perfeitamente com o vestido lils de seda, que balanava suavemente quando ela caminhava. Atrs das orelhas passou um pouco do leo aromtico que costumava usar em lugar do perfume.
Encontrou Riley na varanda. Ele assobiou apreciativamente quando a viu. Estava perfeito, em um summer jacket bem cortado. Alexandra no pde evitar o pensamento de que trajes como aquele eram feitos para fazer com que homens comuns parecessem modelos de revista, mas que homens como Riley deviam ser proibidos de us-los para no deixar os outros em grande desvantagem.
O jantar foi servido em um dos sales mais bonitos do hotel, com vista para o rio. A sra. Templeton estava elegantssima, em um vestido marfim, colar e brincos de prolas. Talvez porque estivesse muito ocupada recepcionando os convidados, cumprimentou Alexandra com certa cordialidade. Ou seria por que Davina, loira e linda, aparecera acompanhada de um prspero empresrio da construo civil?
- No vou fingir que estou satisfeita. Fiz o que pude para que os dois reatassem - disse Fiona a Alexandra, quando momentaneamente as duas se cruzaram no espelho do toalete. - Mas pelo visto, voc fez o Cupido trabalhar a seu favor.
Alexandra no entendeu o comentrio, e sua expresso manteve-se impassvel.
- Estou me referindo ao beb, minha querida  disse Fiona. - Precisamos tomar um caf um dia desses para conversarmos melhor.
O que teria acontecido?, perguntou-se Alexandra. Riley teria dito alguma coisa para sua me? Em caso positivo, o que seria? Quando caminhava de volta para a mesa, Riley a encontrou e a levou para a pista de dana. Havia outros casais em volta, mas os dois danavam como se estivessem em um mundo  parte.
- Este cheiro - perguntou ele. - O que ?
Alexandra afastou o rosto do dele.
-  um aroma que o faz lembrar-se de coisas boas? Como brcolos, ameixas e aveia?
- Faz-me lembrar de coisas boas embora no exatamente essas, e sim coisas mais prazerosas - insinuou ele. As mos escorregaram pelas costas macias, trazendo-a mais para perto de seu corpo. - E  s isso o que eu preciso - disse ele.
- Eu tambm - comentou ela.
A partir daquele instante, Alexandra mergulhou em uma espcie de sonho. No saberia dizer quando saram do jantar. Lembrava-se, apenas vagamente, de ter visto jardins, luar, sentir o ar frio da noite em sua pele, e de contemplar as luzes se refletindo na gua do rio. Teria mesmo ouvido o som de um piano, durante o trajeto para casa? Como chegara, abrira a porta e entrara?
Com certeza real, s conseguia lembrar o momento em que se vira nos braos de Riley, Beijaram-se com paixo. Ele sentou-se na beira da cama, acendeu o abajur e puxou-a para si. Ia tirar o palet quando ela o deteve, com um sorriso meigo.
- Deixe que eu o faa - ofereceu.
Os olhos dele brilharam. Jogou-se na cama, os braos abertos.
- Sou todo seu.
Os cabelos estavam cados na testa. Os olhos azuis estavam semi-cerrados. Por onde comear? Com a ponta da lngua contornou os olhos, o nariz, o queixo. Riley suspirava de prazer e a beijava tambm, mas os braos continuavam abertos, entregando-se totalmente ao comando dela.
Desatou o n da gravata, olhando fixamente nos olhos dele, e, sem hesitar, jogou-a longe, no cho. Estava de joelhos, por cima dele, abrindo-lhe a camisa, boto por boto, bem lentamente, beijando com lbios midos cada pedao de pele que ficava exposta. Riley tentou apoiar-se nos cotovelos para tirar a camisa, mas ela o impediu. Preferiu continuar explorando o adorvel contorno dos seus ombros at que finalmente os deixou nus. Riley repetia seu nome, com voz rouca, e delirava de prazer a cada movimento dela. Suas mos corriam pelo corpo macio, tirando, uma por uma, as peas de roupa femininas. Seus dedos pareciam plumas percorrendo seu pescoo, seus seios, mas deixavam um rastilho de fogo por onde passavam. No, nunca esqueceria aquela noite. O modo como Riley a levava ao delrio... Como ela o dominava docemente s vezes... Como ele transpirava de prazer...
No domingo saram para andar, abraados, almoaram e fizeram amor mais uma vez,  luz do dia. Acabaram atravessados na cama, exaustos, mas ainda no saciados. Riley passou todas as noites seguintes na cama dela, at a volta de Sam. Antes de ir embora para o apartamento, pediu Alexandra em casamento.
Ela quis dizer aceitar, mas hesitou.
- Ns nos conhecemos h to pouco tempo, Riley.
Ele fez uma expresso desapontada.
- Avise-me ento, quando estiver pronta.

Sam voltara animado e com uma pilha de fotos do encontro. As cabras chegaram de caminho logo aps a chegada do amigo. Alexandra passava as noites no recm-reformado apartamento de Riley, mas a pergunta que no respondera ainda pairava no ar, como uma ameaa  felicidade deles.
- Vou passar no clube amanh  noite para tocar um pouco - avisou ele, uma semana depois que Sam voltara. - Depois a pegarei na livraria, est bem?
- Estarei a sua espera - concordou ela.
- As lojas vizinhas j estavam quase todas fechadas quando Alexandra saiu para tirar o cesto de ofertas da porta da livraria. Sentiu a presena de Riley, antes mesmo de v-lo. Levantou o rosto e o viu caminhando em sua direo. Acenou para ele e percebeu que algum se aproximava. Continuou a tirar os livros do cesto para coloc-los no carrinho e lev-los para dentro, mas, de repente, foi tomada por um pnico inexplicvel. Olhou de novo, em tempo de ver um estranho homem correr na direo de Riley. Carregava alguma coisa na mo e parecia ameaador.
- Riley - ela gritou, apontando para o homem. Era um basto de beisebol! Um segundo homem tinha nas mos um basto de beisebol. Quando ele o levantou acima da cabea, Alexandra percebeu sua inteno: - Riley!!! - gritou mais uma vez.
Ele se voltou, os dois homens o cercaram. Um segurou-o pelos braos, e o outro bateu-lhe o basto no rosto. Houve um momento de tenso! Alexandra soube que Riley estava s e que precisava ajud-lo. Estava prestes a perd-lo.
- Nooo... - gritou, correndo na direo dele, os livros caindo dos braos. Surpreendidos pelos gritos, os homens soltaram Riley e saram correndo, assustados. 
Ela se ajoelhou ao lado dele, cado no cho. 
- Voc est sangrando! - gritou, chorando. - Oh, meu Deus, Riley, por favor, responda, fale comigo. No me deixe! Eu o amo e quero viver com voc.
Uma pequena multido de curiosos logo se formou ao redor deles. Um policial logo chegou e pediu a descrio dos agressores. Alexandra levou Riley para dentro da livraria, improvisou um curativo, e ele, ainda meio zonzo, fez vrios telefonemas. Comentara com Alexandra, que eram os mesmos homens que ha.viam entrado em seu apartamento.
- Eu defendi uma pessoa contra o primo deles, no ano passado. O sujeito acabou condenado a cinco anos, mas foi agredido na priso algumas semanas depois. Eles ento atacaram meu apartamento, em represlia, presumo, por ter posto o garoto na cadeia. Idiotas. S o que fizeram foi arrumar mais confuso para a famlia.
Alexandra o abraou mais fortemente.
- Parece que ouvi voc balbuciando alguma coisa sobre querer passar o resto de sua vida comigo, quando eu estava cado no cho. Isso significa que vai aceitar meu pedido de casamento?
Alexandra o beijou com paixo.
- Sim!
- E agora, creio eu, a nica coisa que posso fazer para retribuir tudo o que fez por mim  comprar o livro mais raro e caro da livraria.
Foi com grande satisfao que ela passou para s mos dele os Sermes, do reverendo W. Morley Punshon.
- Meu Deus, vocs, donos de livraria, fazem qualquer coisa para desencalhar mercadoria - comentou ele.


CAPTULO X

Era um final de tarde agradvel, e o passeio ao longo do rio estava apinhado de pessoas praticando corrida, de pais empurrando carrinhos de nen, de crianas correndo de patins, turistas dividindo informaes sobre guias de viagem e casais de namorados trocando olhares apaixonados.
Um barco passou buzinando, as pessoas acenaram para ele. Do alto de um caixote de madeira, algum alardeava a chegada do fim do mundo. Em frente, a brisa fazia balanar os desenhos expostos pelo artista, presos em um barbante, amarrados  rvore.
Alexandra caminhava pela Victoria Bridge, olhando atenta, a sua frente, para ver se Riley j havia chegado. Estava ansiosa para ver o retrato dele, pintado pela: me, que participava de um concurso de pintura com exposio dos trabalhos ao ar livre, no parque.
Procurou os quadros de Rhona. Em meio a vrias telas pequenas havia uma, grande. Quando ficou frente a frente com ela, levou um choque! O que viu ali no era um retrato formal de Riley Templeton, o advogado, quase em tamanho natural. Fiona Templeton certamente ficaria desapontada por no ver o filho retratado de toga.
Riley estava sem palet, os primeiros botes da camisa abertos, as mangas enroladas at os cotovelos. Em torno do pescoo, a gravata, com o lao folgado, balanava solta no ar. Estava ajoelhado no cho, de frente para uma criana, que tentava alcanar o pedao de tecido com suas mozinhas delicadas. Riley e Savannah, em um momento nico, de comunicao sem palavras: o homem adulto, desarmado de qualquer vestgio de cinismo ou arrogncia, e a criana, confiante, olhando para ele. Rhona havia pintado uma delicada curva nos lbios dele, mas no era a boca de Riley que sorria, e sim seus olhos. A ternura que emanava deles era reforada pela postura do corpo e dos ombros que se fechavam, como um crculo protetor, em torno da criana. No tinha ttulo, mas poderia muito bem ser chamado de "Paternidade".
Alexandra chorou. Estava limpando as lgrimas quando Riley chegou, os ombros e os braos formando o mesmo crculo protetor para acolh-la. Ele era tudo o que uma mulher poderia desejar. Mas Rhona havia lhe presenteado com um outro futuro, um que ela sempre quisera para si e tambm para Riley. Que pai maravilhoso ele poderia ser!

Quando a viu, ao longe, Riley teve mpetos de correr para Alexandra e abra-la forte, bem forte, mas tentou se conter. Sentiu uma espcie de dor fsica. Como seria aquela unio? Poderia conviver com o fato de que gostava mais dela do que ela dele? Se ao menos ela o amasse bastante! Rejeitou aquele pensamento. Claro que Alexandra o amava. Mas Alexandra amava tantas outras coisas! A afilhada, o vizinho idoso, os fregueses da livraria, os seus hobbies. Seria ele apenas mais um amor, entre tantos, na vida dela? Outro hobby para ser relegado  lareira, depois de acabado o interesse? Ou ela o tinha escolhido porque o considerava o tipo adequado para ser seu parceiro para a vida toda? Talvez nada disso. Ou talvez uma combinao de todas essas possibilidades.
Seus pensamentos, geralmente ordenados, ficaram confusos. Alexandra dissera que se casaria com ele em um momento de extrema emoo, quando o vira ferido. Sentira pena dele, o que o incomodava muito. Mas se incomodaria da mesma forma se ela tivesse respondido que o aceitava com um "sim" frio e racional. Afinal, o que ele queria?
Naquele momento estavam juntos.
Tentou afastar aqueles pensamentos para usufruir do prazer de mant-la assim, abraa da a ele por alguns minutos, sem pensar em nada, apenas sentindo o cheiro agradvel de seus cabelos. Alexandra levantou o rosto. Tinha lgrimas nos olhos.
- Minha me no perde nada, mesmo - disse ela, comovida. - Retratou-o da maneira como voc gosta de estar, sem aquelas roupas formais. - Beijou-o na boca e voltou a olhar o retrato.
Ela soou evasiva, emocional. Riley sentiu o estmago apertar. Pela primeira vez, percebeu que tinha medo de que ela o rejeitasse. No naquele instante, talvez. Mas alguma outra hora, outro dia.
- A pose exige um bom estudo de musculatura e movimento - comentou ele. Estudava a tela, ciente de que Alexandra o olhava, como se estivesse tentando dizer-Ihe alguma coisa. O que seria? Que havia se enganado? Seria delicada, falaria aos poucos. Fechou os olhos, antecipando a dor que sentiria. A garganta fechou, teve vontade de chorar. Com o canto dos olhos, viu que Alexandra movia os lbios, trmulos, na tentativa de falar.
- No  justo! - explodiu ela. O leno de papel que usava para secar os olhos despedaou-se, e ela enfiou a mo na bolsa em busca de mais um. Riley tirou seu leno do bolso e ofereceu-o a ela.
- O trabalho de Rhona sempre a afeta assim? - perguntou. - O que no  justo?
- H pessoas que no do a mnima para crianas e tm filhos, e, na maioria das vezes, nem se preocupam em cuidar deles!
-  paradoxal, mesmo - respondeu ele, sentindo-se aliviado. No era o que ele achava que ela ia dizer. Relaxou.
Alexandra voltou-se para olh-lo nos olhos, segurou firmemente as mos dele e o surpreendeu com aquela atitude. Seu estmago contraiu-se. Estaria enganado?
- Riley... - Ela hesitou.
Ele percebia que ela tentava escolher as palavras, mentalmente. Sentia-se como aqueles infelizes que encontrava nos julgamentos, o olhar aflito  espera das palavras de condenao. Sabia que tinha de se manter calmo.
-  difcil para mim falar sobre isso - comeou Alexandra. - Nunca toquei nesse assunto antes, porque sei que voc prefere... mas... - Mordeu o lbio. Havia dor e piedade em seus olhos.
- Sabe, sempre quis t-los, mas j havia me acostumado com a idia de que no seria possvel, pelo menos no do jeito natural...  sei que voc tem problemas com isso e nunca iria querer...
Riley franziu as sobrancelhas, e ela precisou de coragem redobrada para continuar.
- Mas eu pensei que algum dia poderamos pensar no assunto, e voc poderia considerar a possibilidade...
- Do qu, Alexandra? - perguntou ele. - Fale de uma vez por todas. Considerar o qu? 
Ela abraou-o forte, aconchegando-se a ele.
- Adoo - disse, finalmente.
Olhava para ele, ansiosa. Estava nervosa. Riley a fitava, tentando entender o que ela esperava dele. Ficou em silncio, no sabia o que dizer. Temia ouvir mais alguma coisa.
Alexandra disparou ento a falar compulsivamente:
- Escute, no devia ter tocado nesse assunto, desculpe. No  o momento, nem o lugar. E eu no quero que voc pense que eu j no tinha me acostumado com a idia de no t-los, porque eu tinha, sim. No foi fcil, mas eu aceitei, Riley.
- Adoo? - repetiu ele, como se no a tivesse ouvido.
- H outras maneiras, tambm, mas a maioria dos homens no gosta de pensar na possibilidade de recorrer a um banco de esperma, e eu tambm no tenho certeza de que gostaria. E adoo no  o mesmo que ter os prprios filhos, mas a paternidade no  apenas conceber crianas,  mais do que isso,  ser pai todos os dias, cuidar, ajudar, ensinar e amar. Todas essas coisas que voc sabe fazer to bem.
- Banco de esperma? - perguntou ele.
Alexandra olhou para o retrato, depois para ele.
- Quando eu olhei para este quadro, pensei... mas sei que voc nunca vai aprovar a idia. Da adoo, quero dizer. E se voc no aprova, queria lhe dizer que no ficarei obcecada pela idia a ponto de terminar como Anna Brown, roubando o beb de outra pessoa.
Uma frase ficou danando na cabea de Riley. "E paternidade no  apenas conceber uma criana". Sua habilidade analtica recomps-se. Examinou a frase, reavaliou-a em conjunto com as outras que Alexandra dissera. "H pessoas que no do a mnima para crianas e tm filhos. Sem filhos. No foi fcil mas me acostumei com a idia. Adoo. Voc pode no aprovar a idia."
Cautelosamente, lembrou-se de trechos de conversas passadas, dos planos de Alexandra de constituir famlia, sua imensa compaixo com os outros. Pensando melhor, h quanto tempo ela no mencionava seu sonho de ter uma famlia?
Chegou a uma concluso, mas hesitou em aceit-la, porque era boa demais para ser verdade. Abriu e fechou a boca vrias vezes, sem emitir som algum.
- Riley - implorou ela, as mos em volta de sua cintura. - Eu o amo. Vamos fingir que nada disso aconteceu, est bem?
- Voc sempre desejou ter filhos - disse ele, um n apertando a garganta. - Voc  do tipo maternal, deve ter filhos. Seria uma tragdia em sua vida se isso no acontecesse.
- Tragdia seria voc no querer se casar comigo - disse ela, em seu ouvido.
- Voc quer se casar comigo mesmo sabendo que eu no posso lhe dar filhos...
Alexandra olhou para ele, atnita.
- Claro. Voc tem dvida disso?
- Mesmo que eu no queira adotar uma criana?
Ela o beijou na boca.
- Sim. Mesmo assim. - Ento olhou por cima do ombro dele e vislumbrou Rhona, entre um grupo de artistas. Mais adiante, Pam e Jeff aproximavam-se, empurrando Savannah no carrinho.
Riley ficou ali, parado, em frente a seu retrato, olhando para ele, atraindo a ateno dos transeuntes que o reconheciam na tela. Estaria equivocado? Estaria dando ao que Alexandra dissera a interpretao mais conveniente para si prprio? Depois de um tempo, Rhona se aproximou e ficou a seu lado.
- No acho que vou ganhar o concurso - disse a ele. - Pena, poderia usar o dinheiro do prmio para comprar um suprimento de vitaminas para a meia-idade.
Mais  frente, Alexandra cumprimentava Jeff e Pam e colocava Savannah no colo, apontando para o barco que passava no rio. Os cachos de seus cabelos s vezes batiam no rostinho da menina, levados pela brisa, e acena recendia a ternura.
- Voc algum dia pensou em ter netos, Rhona? - perguntou.
Ela lanou-lhe um olhar desconfiado.
- Essa  sua maneira de perguntar se fico desapontada pelo fato de voc ser estril? - rebateu ela, naquela sua maneira direta de dizer as coisas.
- Alexandra lhe contou?
- Comentou...
Trs artistas caminharam na direo de Rhona, os braos estendidos para ela. Riley afastou-se e caminhou alguns metros, sozinho; olhando as luzes da cidade acendendo-se aos poucos e as primeiras estrelas brilhando no cu.
Alexandra, generosamente, amava-o aponto de abandonar seus sonhos por ele. Recriminava-se por ter duvidado dela, por ter desejado que ela reafirmasse o amor que sentia por ele. Ficou olhando o rio por um bom tempo, pensando na vida.
Mantinha as mos nos bolsos do palet, imvel como uma esttua, a silhueta recortada contra a gua. Alexandra observou-o de longe, incomodada por aquela imagem esttica, e resolveu ir at ele. Teria sido agressiva, tocando no assunto da esterilidade?
- Riley - disse, mansamente.
Ele voltou-se e segurou nas mos dela. Os olhos brilhavam, cheios de lgrimas. Sorriu.
- O nome da msica  Veracity. Aquela cujo trecho no sai de sua cabea, a que voc tem certeza que conhece mas no lembra a letra.
- Veracity. O nome no me diz nada, mas mesmo assim tenho certeza de que a conheo.  to familiar...
- No h letra.
- Podia jurar que tinha. Tem certeza?
- Absoluta. Fui eu mesmo quem a compus. No escrevi a letra, s a melodia.
- Voc a comps?
Ele a puxou para si, os lbios nos seus cabelos.
- E voc no poderia conhec-la, meu bem, porque s a ouviu uma vez. O fato de estar cantando minha msica, certa de saber a letra dela, parece-me um sinal.
- Sinal? Voc no  do tipo que acredita em sinais.
- Estava esperanoso de que ela tivesse algum significado, especialmente para voc que estava to impressionada com meu virtuosismo.
Alexandra o olhou demoradamente.
- A qual virtuosismo voc se refere?
Ele sorriu com malcia, e a puxou pelos quadris, colando seu corpo ao dela.
- Ah... - suspirou ela. -  a esse virtuosismo a que voc se refere... Estava meio esquecida...
Riley pegou-a pela mo e caminharam at uma rvore. Encostou-a nela e aproximou-se, com mos hbeis deslizando por seu corpo, mordiscando aponta de sua orelha, fazendo-a suspirar de prazer e ansiando por mais.
Vozes se aproximaram. Era um casal com uma criana. Os dois se recompuseram, adiando as carcias para outro momento. Ficaram olhando a famlia passar.
- Espero no t-lo aborrecido, quando...
Riley calou-a com um beijo.
- Alexandra, o que houve foi um mal-entendido.
- Eu o aborreci. Escute, no vou mais tocar nesse assunto, a menos que voc tome a iniciativa, est bem?
Riley balanou a cabea, com um movimento de desalento. O que estava acontecendo com ele?
- Alexandra... Eu no sou estril.
- O qu? - Ela piscou vrias vezes.
- No h nada de errado comigo... Esta  a verdade. Tenho certeza disso.
- O qu? - perguntou Alexandra, plida.
- No sei como dizer isso de outra forma. Sou frtil. Posso ser pai.
Ela continuou a olhar para ele em silncio. Depois afastou-se, mantendo apenas as mos em sua cintura.
- Mas voc disse, quando nos encontramos, logo no primeiro dia, que nunca tinha tido filhos nem nunca os teria.
- Eu nunca disse que no poderia.
- Disse! - protestou ela. - Voc me disse que no podia ter filhos.
- Voc entendeu assim - a voz de Riley soava firme.
Ela voltou-se para olhar o rio, a mo na testa.
- Pedi desculpas a voc por t-lo lembrado de que no podia ter filhos, e voc disse...
- Eu disse que no havia necessidade de t-los, ou alguma coisa assim.
- Mas voc ficava aborrecido toda vez que o assunto de crianas vinha  tona. Estava aborrecido quando falou sobre os filhos de sua ex-mulher. Disse que lamentava que eles no fossem seus...
- Poderiam mesmo ser meus, se eu fosse maluco o suficiente para ter filhos aos vinte e dois anos de idade. E ento teria sido o responsvel pelo ar de desalento deles quando me separasse da me. Se eu estava triste, era porque poderia facilmente ter trazido ao mundo dois filhos para depois deix-los crescer sem pai.
- Voc disse que mais pessoas deveriam ser estreis, porque assim menos crianas seriam maltratadas. Era natural que eu o inclusse nesse grupo! - acusou ela.
- Era uma figura de retrica, to somente - respondeu ele, calmo. - Voc chegou a essa concluso sem fundament-la, e tudo o mais o que eu disse em seguida, voc relacionou com essa idia fixa.
Alexandra levemente esmurrou-lhe o peito.
- No me venha com esse ar professoral. Voc me fez pensar que no podia... Acreditei que nunca... e eu passei os piores meses de minha vida tentando me acostumar com uma coisa que no era verdade! Foi uma agonia, e voc me deixou passar por ela, impvido, e ainda vem me dizer que tudo foi culpa minha! - Alexandra estava furiosa e de novo falava compulsivamente.
Riley segurou seus pulsos.
- Alexandra, estou indo agora para o clube. Est em cima da hora. Falaremos sobre isso depois que voc se acalmar. Quando ns dois nos acalmarmos... - completou. E comeou a caminhar.
Alexandra caminhou a seu lado, falando, gesticulando, fazendo uma cena na frente dos amigos artistas da me. Riley parecia no notar a presena dela. Subitamente ela parou, sem ao, e ficou olhando-o ir embora. Rhona afastou-se dos amigos e aproximou-se.
- Tempestade no paraso?
- Ele no  estril! - exclamou Alexandra, com raiva. - Acredita nisso?
Rhona limitou-se a piscar.
- Desde o comeo ele me induziu a pensar... e todo o tempo parecia to sensibilizado com o assunto, de modo que eu evitei falar sobre isso... e parecia to bvio, por tudo o que ele dizia, que no podia ter filhos! E agora, ele empina o nariz para mim com aquele seu ar de superioridade e diz que eu... que eu estava enganada. Enganada!
Sua me balanou a cabea, desconsolada.
- Como seu sofri... Ele no tem idia! Sonhava com crianas, com nossa famlia, e dia-a-dia tentava me convencer de que teria de abrir mo de tudo isso por amor a ele. E ele acha que eu no tenho nem o direito de estar brava!
- Isso  indesculpvel! Tanta preocupao para depois descobrir que o bonito  frtil? Talvez ele devesse ser capado, assim seu sofrimento no seria em vo.
Alexandra olhou para ela, espantada.
- Ele no  estril, afinal - repetiu.
- Pode no ser bem assim. Pode ser que ele no tenha nmero de espermatozides suficiente... Isso acontece com freqncia, voc sabe.
- Ele no  estril - repetiu Alexandra e riu.  Ele pode ter filhos. - Pegou as mos da me e rodopiou com ela. - Ele pode ter filhos.
- Estou feliz por vocs - disse Rhona. - Na verdade, todo o parque est. - Abraou Alexandra e depois a olhou nos olhos. - V atrs dele. No espere pelo resultado do concurso. Eu no vou ganhar mesmo, e teremos de agentar um monte de discursos, e eu vou ficar depois lamentando as vitaminas que no vou poder comprar...

O Blue Parrot estava quase deserto quando ela entrou. Ainda era cedo, e os clientes habituais no haviam chegado. Alexandra viu Riley curvado sobre o piano. Seu palet estava pendurado na cadeira, as mangas da camisa enroladas, o colarinho afrouxado. Colocou-se ao lado do piano, olhando com carinho para o homem que tocava.
- Riley - chamou-o.
O cliente na mesa ao lado fez um "Ssshhh", sibilante. Alexandra tamborilou com os dedos na tampa do piano, sem acompanhar o ritmo da msica. O cliente olhou feio.
A msica terminou e s ento Riley endireitou o corpo. No fumava desta vez. Olhou para ela.
- Acho que j vi esse filme.
- Preciso falar com voc. Sobre um beb.
- Voc tem um ou quer um?
- Quero um.
O cliente demonstrava seu desagrado com a conversa.
-  mesmo?! - disse Riley, fitando-a com um olhar especulativo. - Assim, sem mais? Quer uma criana que tenha talento musical e por isso vem me propor que eu empreste meus genes?
- Voc  a melhor matriz que eu encontrei.
- E isso basta?
- ...est em boa forma, no  feio, tem uma voz decente, nenhum vcio bvio e...
- timos genes...
- Tenho certeza!
Alexandra procurou no rosto de Riley a expresso de desconforto que vira nele quando discorrera sobre esse assunto anteriormente. Nada. E por que deveria haver algum? Riley Templeton sabia quanto ela o amava. O quanto estivera disposta a perder para ficar ao lado dele.
- Claro que uma certa presuno e uma tendncia  arrogncia so caractersticas de sua famlia, mas provavelmente no por razes genticas.
O cliente cruzou os braos, ostensivamente e comeou a tamborilar com os ps no cho. .
- Tenho alguma restrio a fazer quanto ao nariz, mas estou disposta a arriscar.
- Que generosidade, a, sua!
O cliente olhou para o relgio e suspirou.
- Ento, quando quer tentar? - perguntou ele.
O cliente chegou mais perto.
- Espero que no seja agora! No meio de um nmero musical! Ser que no consegue se controlar? - perguntou a Alexandra.
- Algumas coisas so mais importantes que o jazz - retrucou ela.
O homem ficou chocado.
Riley disse alguma coisa para o sujeito do baixo e saiu com Alexandra. O som da msica os acompanhou at a sada do clube.

Caminharam um pouco. Riley estava srio.
- No estava certo de seu amor por mim  admitiu ele. - Voc se envolve facilmente com as pessoas, principalmente com qualquer pato manco, com os mais fracos, os que tm algum tipo de problema. Achei que tinha era pena de mim.
Ela riu.
- Riley, ningum, em s conscincia, poderia confundi-lo com um pato manco.
- Voc sempre me olhou de modo complacente, com d, e eu esperava que; a qualquer momento, voc me diria que estava tudo acabado, que descobrira que o que sentia por mim era compaixo, no amor. Por outro lado, voc poderia ter me comparado com Graham e chegado  concluso de que eu seria melhor parceiro que ele, em uma avaliao meramente racional. Nunca imaginei que voc acreditava que eu no poderia ter filhos. No sabia que era por isso que me olhava com aquela expresso desolada.
Ela o ouvia, sem saber ao certo como definir seus sentimentos naquele momento. .
- Esta noite - prosseguiu ele - quando percebi que voc pensava que casar comigo seria abdicar de filhos, eu... eu me senti... - Ele engoliu em seco. Olhou para o cu, procurando as palavras. muito mal.
Alexandra lembrou-se da postura confiante de Riley no parque e soube que a vida ao lado dele seria um desafio. Mas, naquele instante, Riley revelava humildade, e seu olhar enterneceu-a.
- Ser amado por voc, Alexandra Page... - disse ele, com delicadeza, afastando com a mo os cabelos que lhe caam na testa - ... uma honra. Sou um felizardo!
- Por um momento, achei que voc ia se reconciliar com Davina - comentou Alexandra.
- E eu achei que voc acabaria se casando com o campeo olmpico.
- Ele no  um campeo olmpico - protestou ela.
- No d um passo sem olhar para o cronmetro. Fazer amor com ele deve ser um negcio matemtico. Cronometra tudo? Toma seu pulso antes?
Ela riu, divertida. Riley no era to autoconfiante, afinal.
- Nunca saberei...
- Quer dizer que vocs... - Os olhos dele brilharam.
- Ele estava em treinamento, no estava? Para o triatlo.
- Quer dizer que quando ele est treinando, no pode...
- Sem caf, sem lcool e sem sexo.
- Deve ser difcil ser atleta!
- Deve ser...
- Voc me fez acreditar que dormia com ele.
- Voc concluiu isso, Riley -disse ela, em tom pedante. - Tirou concluses apressadas demais e interpretou tudo o que eu fiz em seguida como quis. Foi um terrvel engano.
Chegaram ao estacionamento.
- Vai a algum lugar? - perguntou ela. .
- Para minha casa. Se vou combinar meus genes com os seus, preciso me preparar .
-Se existe algum que no precisa disso, esse algum  voc.

O aroma das plantas perfumava o ar. As ameixeiras de Sam estavam carregadas de flores, cercadas de abelhas. Apoiado na cerca, ele procurava alguma coisa no cho, distraidamente, sem se dar conta da festa que acontecia no terreno vizinho.
Uma mesa larga havia sido colocada no meio do quintal e, em cima dela, uma grande variedade de pratos de salgados. No centro, um grande bolo, confeitado de branco e rosa, com uma inscrio: "Feliz aniversrio Savannah". Os flashes das mquinas fotogrficas espoucaram quando a menina se curvou sobre a vela para apag-la com um sopro, ao som do Parabns a voc.
- Savannah... olhe para c, para o tio Riley - chamou ele.
A menina abriu seu melhor sorriso para ele e depois que a foto foi tirada, correu em sua direo, os bracinhos estendidos. :Riley passou a mquina para Alexandra. Ela olhou os dois pelo visor. O homem e a criana rindo, felizes, em perfeita harmonia.
- Voc ser um timo pai - disse a ele, quando Pam reclamou a filha e a levou para perto do bolo de aniversrio.
Riley pegou a mquina outra vez e bateu uma foto de Pam com a filha, ao lado da mesa de aniversrio.
- Quando chegar a hora. Por enquanto, estou s praticando.
- Nove meses  muito tempo? - perguntou Alexandra.
- Pam! -gritou ele, acenando para ela. - No se mexa!
Pam ficou imvel. Ele focou a mquina, o dedo pronto para pressionar o boto, mas no o fez. Virou-se para Alexandra.
- O que foi que disse?
- Depressa, Riley, no vou conseguir segurar Savannah assim... - A menina enfiou a mozinha no bolo e arrancou um pedao do confeito. Riley perdeu a foto, mas a cmara de vdeo do av atento registrou acena.
Sam juntou-se aos dois, nas mos um pedao de papel.
- Olhe s. Eu disse que tinha lhe deixado um bilhete falou, dirigindo-se a Alexandra. - Deve, ter voado. 
Alexandra olhava para o papel apenas para no desagradar Sam. Era um bilhete escrito no verso de uma caixa de cereais, e estava todo desbotado, amassado, como se tivesse sido pisoteado. Mas ainda era possvel ver escrito, na letra de Sam, as palavras "ficar", "chaves" e "Riley".
Riley olhou para o papel sem entender a importncia daquilo e, quando Sam saiu de perto, dirigiu-se de novo a Alexandra:
- O que foi mesmo que disse?
- No estou cem por cento segura... - admitiu ela, prestando ateno  reao dele. - J falhou antes e no era nada...
Riley a fitou longamente, srio. Afastou as mos dela de seu pescoo e as envolveu com as suas.
- Riley? - insistiu ela. - Ficou aborrecido? No deveria ter falado nada antes... Talvez nem seja...
Ele a beijou.
- Espero que seja, meu bem. Ns j sabemos ninar e dar banho em bebs. Seria uma pena desperdiar tanta habilidade...
Ela riu e o puxou pela mo, afastando-o das outras pessoas.
- Voc acha mesmo que daremos conta, Riley, voc e eu?
- Teremos de tentar, meu bem, teremos de tentar - disse ele, amassando e jogando ao vento o bilhete que Sam lhes dera. - Afinal, no deve ter sido  toa que o destino juntou nossos nomes em um bilhete.

FIM









